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AMIZADE: A FLOR DO TEMPO

(para Lígia Antunes Leivas, analista literária e confreira na Academia Sul Brasileira de Letras, em Pelotas)

Que bom poder chamar alguém de ‘amigo’, assim, com a convicção de que a Amizade – esta Flor do Tempo – está com um viço sempre formoso! Sinto-me honrado e agradecido.

Quanto ao Dr. José Moreira da Silva e sua poesia, é necessário concelebrarmos em algumas linhas. Ótimo que estejas mergulhando em sua obra, principalmente no poema "De Casas, Ranchos e Senzalas", que é um de meus prediletos em sua longa e versátil obra ainda pouco conhecida.

O Zé Moreira é uma pessoa pura, fácil de se escrever sobre ele. Há um eu poético que tem a mesma cara do autor. Habita o seu corpo um outro que é um espírito mais sábio, mais exigente do que o que vemos todos os dias.

É talvez, parafraseando o mestre da heteronímia, o nosso querido pai do pré-modernismo lusófono, Fernando Pessoa,  o seu alter ego filosófico. O outro eu, o amigo íntimo em que se pode confiar tanto como em si mesmo. Sábio, capaz de insondáveis mergulhos e de alguma crítica antinômica, capaz de produzir – dialeticamente – alguma contribuição ao seu interlocutor.

É este o personagem poético de quem mais gosto. E com que mestria ele se sai na poesia materializada no poema! É um bólido. Rápido, um colosso desconjuntador de idéias, remontador de cenários, proponente de novas situações que, longe de se adaptarem ao real completamente, formulam o novo.

Este é o parâmetro comparativo, na fauna vária com quem convivo, há mais de trinta anos. Ele possui o equipamento de uso especial pra quem quer pensar como um bardo. O vate verdadeiramente capaz de antever o futuro, a prospecção deste, sem fórmulas prontas e acabadas.

Em José Moreira, o homem do lugar comum da vida é de uma largada bonomia, sem reticências, uníssono como o canto sertanejo. Capaz de ser entendido por todos os que fruem de sua convivência, mesmo que de uma aparente simplicidade frente à história da palavra culta. A língua doce e mastigada do povo, como queria o também pernambucano Manuel Bandeira.

Estes dois vultos dos sótãos do mistério (de viver) do Moreira são os meus cotidianos fraternos, a sólida irmandade de quem bebe água na fonte. Feliz de quem pode haurir água boa.

Eu posso dizer, depor aos contemporâneos que tenho a minha fonte de água pura. Líquido que veio do Nordeste Brasileiro, fluido na pedra, benzido e decantado pelo correr dos anos.

Desde 1987 não tenho nesta margem da vida o meu velho pai. Trespassou-se para além do Rio Profundo. José recebeu o cajado histórico que seria de meu veterano pai. Ambos sabem do perfume das acácias...

Quando ele cambaleia, tem as minhas pernas para andar, suportar o peso. Quando dobro os joelhos, tenho no horizonte os braços abertos do companheiro, confrade, mestre de humanidades.

Preciso dizer mais sobre esta figura de amor e múltipla paciência?

– Do livro CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre a Prosa e a Poesia, 2006.
http://www.recantodasletras.com.br/cartas/160429
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 21/05/2006
Reeditado em 05/05/2008
Código do texto: T160429
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709701 leituras)
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Joaquim Moncks