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Carta a Genoveva

Fazenda Imbuzeiros, junho de 1834

Minha cara Genoveva, paz e bem.
Cheguei ontem à noitinha aqui no arraial de Cruz das Almas. Nem bem me instalei e vejo o muito que terei que fazer por aqui.
O coronel Diocleciano Tavares arrematou uma leva de negros cabindas vindos do Zaire a bom preço por cabeça.
São fortes, mas, estão cobertos de doenças trazidas do cativeiro antes da viagem e depois adquiridas também nos porões dos negreiros, além do abatimento pelos meses de viagem através do Atlântico. Tivemos dois que foram sacrificados na estrada que leva ao arraial porque não conseguiam continuar a viagem e ninguém também se interessava em comprá-los, mesmo pela metade do preço pago na feira de negros do porto de São Severo.
Como sabes fui contratado para educar todos os cativos da fazenda na fé cristã, mas já percebi a dificuldade que terei. São como animais, de natureza que desconhece o pejo e andam nus como índios, falam o idioma nagô, mas, não terei como entendê-los. O único que poderia traduzi-los seria o Capitão do Mato Severiano Lumumba, negro livre que presta serviço aos fazendeiros da região,
mas, Lumumba está desaparecido desde a última investida dos tupinambás contra a vila .
Bem, querida e amada Genoveva, terei que ficar muito tempo nestas terras, vais ficar longe da minha vista, do meu coração, mas, o que me conforta é que nosso amor é real e me despreocupo.
Na verdade, dentro de mim, o coração me diz que deverias estar ao meu lado, saibas que, mesmo estando longe, minha alma está contigo. Próximo ou distante, sem você todas as distâncias são iguais.
Quando nos despedimos, naquela noite na quinta da Boa Ajuda, percebi que estavas amargurada com minha partida.
Não sabes o que eu faria por tão grande amor, minha doce Genoveva, quisera que naquela noite nossas mãos não se desunissem...
Pois bem, quando estiver terminado por aqui já terei o suficiente para comprarmos aquele sobradinho que tanto gostas lá na Rua dos Latoeiros e então poderemos finalmente nos unir.
Também soube que o Imperador sancionou lei que autoriza o refino do óleo de milho na província e bem sabes que com isto poderemos iniciar nossa independência, cá entre nós sabes que domino a muito esta técnica, venderemos óleo aos barris e criaremos nossos filhos na opulência. Bem sabes também que não estou sonhando.
Poderia ficar muito tempo escrevendo aqui, mas, o azeite de minha lamparina está acabando e ainda é noite alta.
Na verdade Genoveva, meu amor, Uma profunda tristeza se abate sobre mim e estou muito angustiado.
Se não fosse pelo objetivo que procuro alcançar eu estaria muito longe daqui. Não conseguirei dormir por muitas noites porque sinto na minha alma o sofrimento daqueles deserdados de Deus, esparramados como porcos na senzala do Coronel.
São para mais de duzentos negros das mais diversas etnias, com muitos dialetos, mas, parece um só coração.
Ouve-se muito longe o triste lamento daquelas pobres criaturas.
Se para mim que estou tão perto de ti já sofro na carne e no coração a distância que nos separa, mesmo estando na minha terra, imagine o que aqueles infelizes estão passando!
Foram arrancados da sua mãe terra, separados de suas mulheres, de seus filhos, de tudo que amavam e vieram aportar em terra estranha, à mercê dos corações endurecidos e profanos dos seus algozes...
Aqui de meus aposentos ouço com tristeza o som rítmico dos seus tambores e o choro dos mais fracos, a voz da mãe África a falar pela boca de seus desterrados...
Isso tudo aumenta minha saudade de ti, minha querida Genoveva, e faço o lamento negro como meu próprio lamento. Nossos netos não verão tamanho horror, em breve nenhum navio terá em seu tombadilho o sangue destes guerreiros.
Preciso terminar agora. Tenho que colocar esta missiva que agora te envio no alforje do estafeta que já tarda a sair por minha causa.
Espero que ela te encontre gozando de muita saúde com a proteção de Nossa Senhora dos Viajantes
Paz e bem , minha doce Genoveva...
( Continua com "Resposta a Adamastor" )
Paulo de Tarso
Enviado por Paulo de Tarso em 31/05/2006
Reeditado em 12/09/2012
Código do texto: T166864
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Paulo de Tarso
São Paulo - São Paulo - Brasil, 60 anos
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Paulo de Tarso