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(Imagem "Partir", de Maria Amaral)

SHOULD I STAY OR SHOULD I GO?

If I go there will be trouble, if I stay it will be double
So come on and let me know
This indecision's bugging me (...)
If you don't want me, set me free (...)
Just who the fuck am I supposed to be?
(I think you'll find that you are friendly)
Don't even know which clothes'll fit me (...)
So come on and let me know (...)
Should I cool it or should I blow (...)
(from the song Should I stay or should I go? ,J. Strummer, M. Jones; originally performed by The Clash) 

     É, minha cara amiga. Acabo de voltar o telefone depois de ouvir toda sua história. Ironias da vida à parte, lá ia eu escutando o último cd que comprei: uma coletânea bem feitinha de músicas dos 80 com arranjos jazzísticos interessantes e no ar uma voz feminina e bem felina perguntando “should I stay or should I go?”. A mesma pergunta que você se fazia e de certa forma passava a batata quente pra mim pelo fio do Graham Bell.   
   
     Pra mim? Criatura, eu sou a pior pessoa pra te responder isso. É só dar uma olhadinha no meu currículo: devo ter me perguntado isso um milhão de vezes. Sempre me vem essa parte “if I stay there will be trouble and if I stay it will be double”… Nunca é muito fácil. Tenho esta incrível habilidade de me meter em encrenca mesmo quando saio delas (ou penso que). Se eu vou, problema em dobro... Sou uma artista nisso. 

     Dizer o quê? Te dar respostas? Eu sou mestra, como você disse, mas é em FAZER perguntas e ainda de quebra, quebro as convicções alheias além de botar todas as minhas no fio da navalha. Te deixei a mais importante: se alguém não sabe responder o que quer e tampouco o que não quer, quem é você pra convencer quem quer que seja de alguma coisa? Mas pode começar convencendo a si mesma do que é bom ou mau pra você. 
     
     Castelos lindos? Têm ratos no porão sempre, como eu te disse. Príncipes? Viram sapos com uma rapidez inimaginável quando a realidade em números e cotidianos, em roupas sujas e xícaras quebradas se abate sobre os sonhos. Contos de fadas? Lamento, os de bruxas são bem mais interessantes. Ao menos a ação é menos óbvia e o final, menos previsível.

      Tempo? É coisa de relógio. Se o teu tempo não é importante... well, so you should stay. Mas esqueça prognósticos positivos. Quem pede tempo, na verdade está te mandando o recado claro do YOU MUST GO. Não esqueça que este tempo parado não volta. Se você quiser ficar, bem... a escolha é sua e neste caso, você não está se escolhendo.Está pacientemente esperando que alguém lhe dê "a honra" de te escolher quando estiver sem nada pra fazer ou pra comer. Se você acha boa a condição de Regra 3, vá em frente.

     Não queria te desanimar muito e me calei a maior parte do tempo. Ouvi tua narrativa tentando não parecer impressionada ou indignada. Tentei não atrapalhar suas esperanças com meu espírito às vezes excessivamente prático. 

     Espero mesmo que você nem leia isso, mas fiquei aqui com esse “should I stay or should I go” que sempre gostei e que depois de te ouvir soa como uma daquelas coisas de dor de corno, pensando no teu coração cheio de suposições impossíveis e tentativas de passar uma tinta dourada nesta pílula amarga que te deram. Esta coisa de “não é bem assim, deve estar acontecendo alguma coisa com ele...” 

     Você está certa. Algo está acontecendo sim: você não está bem dos olhos e pelo jeito seria bom apurar os ouvidos. Não há perguntas e a resposta é simples: GO! 

     E, de preferência, enterre tudo. Sem olhar para trás e com uma boa pedra em cima. E como diz a música, se você ficar, it will be double. For you, dear friend.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 03/06/2006
Reeditado em 03/06/2006
Código do texto: T168878

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154025 leituras)
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Débora Denadai