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A carta que ficou no fundo do armário

BsB, 20 de junho de 2006.

Meu ilustre amigo de datas tão distantes, como vai você? Espero que esteja melhor do que eu. Por aqui as coisas vão caminhando para aclives incertos e perigosos. Nenhuma notícia razoável; todas estão na contra-mão.

Descobri que minha amada tem recebido todos os meus recados, todas as minhas cartas, todos os meus iluminados sinais de fumaça. Esta dura realidade me deixou meio que desvairado, fez com que eu recordasse de um fato concreto que estava adormecido em minha mente por um longo período de primavera boreal - A última conversa que travamos.

Hoje ela tem um significado completamente diferente. Naquela ocasião não dei o devido valor ao que ela tanto me dizia com gestos e palavras nuas. Tudo parecia uma questão de momento, nada que pudesse fazer com que eu acreditasse que algo não ia bem. Eram palavras doces, mas de uma dureza incalculável, eram sinais delicados... Uma realidade sem tamanho! As lágrimas brotavam de seus olhos como uma mina d’água que nasce lá na derradeira curva do velho e sereno rio - um veio cristalino, transparente, que riscava sua face abrindo sulcos profundos, era uma verdadeira quilha rasgando seu delicado rosto. Suas mãos, trêmulas e aflitas, acarinhavam meu peito como se dissesse aos deuses do Olímpio: “dê a ele o meu corpo, o meu amor e minha alma”. Neste exato momento estou sentindo naqueles toques de outrora, o calor dos seus dedos, a vibração do seu corpo - restos vitais que estavam aos berros. Nada poderia ser mais gratificante, nem mais encantador. É simplesmente divino re_viver aquele quadro, aquela obra de arte que se desenhava nas linhas daquele ser tão entregue e tão somente meu.

Ah meu amigo, parece que estou vivendo coisas de outros mundos, de outras galáxias, mas que nada!!!... Tudo é tão real, tão visível e tão desumano. Eu queria administrar o meu futuro como quem cuida da minha conta bancária, do meu carro e da minha casa. Achava que era possível levar a vida a dois, sem de fato, conquistar o todo, sem resolver a equação amorosa onde Dois tem que ser sempre igual a Um. Muitas vezes somos levados a acreditar que somos infalíveis, que somos os melhores, os mais amados e os mais bonitos. É aí que caímos do cavalo, é aí que deixamos os frutos maduros escorrerem pelos ralos dos dedos. Chega a ser inacreditável que dois ou três segundos de silêncio possam me levar à lona por mais de cinco minutos.

Agora eu sei que o amor é como uma borboleta que voa lentamente em busca da flor mais reluzente, mais-que-perfeita. De nada adianta querer que ela voe mais rápido ou mais alto, de nada adianta querer que ela mude o seu destino, o seu norte. O amor é uma conquista árdua, sofrida, desmedida, e se não fosse assim, não seria amor. Hoje ela me disse não, mas quem sabe amanhã ela me diga um sim do tamanho que sonho, mas se nada acontecer, se nada mudar, guardarei para sempre esse momento que acabo de lhe descrever com tanta realidade.

Um grande abraço, meu amigo.
Pedro Cardoso DF
Enviado por Pedro Cardoso DF em 20/06/2006
Reeditado em 07/02/2015
Código do texto: T178968
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Pedro Cardoso DF
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 68 anos
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