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Ao Camilo Castelo Branco

Petrolina, 02 de maio de 2003.

Saudações!!

Espero que esta lhe encontre gozando de muita saúde e paz no plano espiritual!

Senhor Castelo, eu sou uma jovem de 27 anos, tenho um grande amor que mora a muitos, muitos quilômetros de mim. Quando conto pras pessoas do amor que nos une, elas simplesmente sorriem, ou, se forem muito amigas, me olham com aquele olhar de quem olha pra uma criança que diz ter recebido o presente diretamente das mãos do Papai Noel.

Sabe, isso muito me incomoda, tanto que tenho evitado comentar sobre a minha vida amorosa com tais pessoas. Elas são muito descrentes e eu não entendo isso. Como pode alguém viver sem acreditar num amor incondicional? Sem acreditar que por amor somos capazes de tudo, inclusive de confiar nos sentimentos de alguém que mora em outro continente? Onde está a magia da vida se você não tem alguém por quem abriria mão de sua própria existência? Por que acreditar que há distância entre dois corações que se amam loucamente?

Ah, Sr. Castelo! Como gostaria de ter convivido em vosso tempo. Como gostaria de ter sido uma das vossas personagens. Como teria sido feliz se vivesse apenas 27 anos, mas vivesse amando louca e intensamente todos os instantes de tão curta existência!

Sabe, Sr. Castelo, não é que as pessoas de hoje não sejam românticas, ou não morram por amor, mas é que elas, a maioria delas, mascara esse sentimento, assume que sofre por tudo, menos por amor. O que me parece é que amar tornou-se algo vergonhoso. Os homens não assumem suas paixões e mergulham em ilusões que lhes causam nada além de sofrimentos; as mulheres por acreditarem numa “igualdade” com o sexo oposto, mergulham juntamente com os homens nesse mar de desencontros, desenganos e máscaras.

Imagine Sr. Castelo se o senhor pudesse estar aqui pra presenciar o caos em que está o nosso mundo hoje. Diziam que os seguidores do romantismo eram dominados pelo “Mal do Século”, porque matavam-se, entregavam-se à morte como um bebê entrega-se à vida; ora Sr. Castelo, ao menos eles morriam por amor, por amar tanto, e não escondiam isso de ninguém. Hoje as pessoas também morrem, temos nos EUA (o ápice do maldito capitalismo) um dos maiores índices de suicídio da história, e sabe porque eles se matam? Por solidão, por não conversarem com ninguém, por não terem um amigo que os diga: Eu te amo! Por temerem falar do amor que habita em seu peito, por achar cafona mandar flores ao ser amado, por achar brega fazer uma serenata na janela daquela pessoa que tanto lhes estimula a vida. É como se no seu tempo as pessoas morressem por quererem sugar todo o amor, vive-lo intensamente; hoje, elas morrem por quererem renunciar esse amor, mas o sentem, ele continua vivo.

É um absurdo o que nos acomete, Sr. Castelo! Ah, se o senhor pudesse estar aqui! Talvez me escutasse, talvez eu pudesse lhe contar dos anseios dessa minha paixão, talvez pudéssemos trocar idéias sobre como devo fazer pra que o meu amado sinta-se cada vez mais amado.

O amor existe Sr. Castelo, da mesma forma que existia em seu tempo, o que mudou foi a
forma de como as pessoas lidam com esse amor.

Sua leitora,
Cinthya Leal

(Carta apresentada na aula de Literatua Portuguesa, escrita em tom homorístico.)
Cinthya Danielle dos Reis Leal
Enviado por Cinthya Danielle dos Reis Leal em 19/05/2005
Código do texto: T17960
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Sobre a autora
Cinthya Danielle dos Reis Leal
Petrolina - Pernambuco - Brasil, 40 anos
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Cinthya Danielle dos Reis Leal