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Carta ao jovem poeta

São Leopoldo, 13 de Julho de 2006.

Ao jovem poeta

Parece que foi ontem que escreveste aquela carta para aquele nosso íntimo desconhecido. Cara quanta coisa se passou!! Não me contive e resolvi escrever pra ti algumas novidades. Mesmo sabendo que não vais me responder, pois conheço bem a premissa das nossas cartas.
Não tens noção do quanto eu aprendi durante este tempo. Fiz da dor, da ilusão e da decepção tônicos para o meu fortalecimento. Aprendi a não atribuir aos outros a culpa das minhas frustrações pessoais. Demorei, mas aprendi que as vigas do engano não sustentam nenhum castelo.
Rapaz! O teu interesse pela literatura e pela filosofia enriqueceu muito a cabeça desse cara te escreve. Percebi que o não questionamento sobre valores pré-estabelecidos torna o indivíduo míope e incapaz de dialogar e lutar por uma nova realidade. Porém, esta visualização das ilusões que acomodam a sociedade traz uma náusea difícil de suportar.
Sobre as tuas indagações sobre o mundo, sinto não trazer boas notícias. O planeta assistiu a genuflexão da ONU perante um louco presidente americano que forjou um motivo qualquer para atacar um país rico em petróleo. Milhares de Ruanenses morreram esfaqueados em uma torpe guerra civil aprovada pelo silêncio de todas as nações. A fome continua matando milhares de inocentes pelo mundo. A temperatura da Terra continua a subir devido a não adaptabilidade do ser humano com a natureza. O progresso forjado em arquétipos de evolução continua mantendo nosso modelo econômico irresponsável. Milhares de brasileiros realimentaram suas esperanças ao eleger um novo governo para o poder. Mas, apesar dos gráficos da economia serem satisfatórios, continuamos a ver a miserabilidade, a violência e a nossa desorganização.
 Bem eu poderia enumerar os problemas que nos aflige até as veias da minha mão parecerem um mapa hidrográfico de geografia hehe. Contudo aprendi mais uma coisa: Aprendi a tentar resolver os problemas que estão ao meu redor! Talvez pense que isto seja uma coisa simplista, mas hoje te digo que martirizar-se sem ação prática é inútil. Não quero com isto desabonar o pensamento contemplativo, apenas tornei-me mais prático.
Por falar em prático, terias orgulho de mim! Tirem vários textos da gaveta que tinham as traças como público e os publiquei em jornais, livros e revistas. Todavia não se foge das traças, pois elas comerão os jornais, os livros e as revistas...
Meu poeta eu não te escreveria com tanta plenitude e serenidade se não tivesse encontrado uma filósofa que me completa. Aprendi que o amor acontece!! A ansiedade em encontra-lo só o afasta. Percebi que amar é ser paciente, amigo, cúmplice... Amar-se é pressuposto para ser amado. Deixei de procurar um porto quando me tornei um. Sobre a tua pergunta se ainda existe a entrega de corações apaixonados na reciprocidade de um amor eu respondo, particularmente, que sim.
Aprendi a ser menos severo ao analisar o comportamento das pessoas à minha volta. Pois o meu julgamento é só um julgamento e não o julgamento. Sê olho também sou olhado. Hoje vejo que o importante é que as pessoas joguem as mesmas regras e não se enganem nas suas relações, sejam elas quais forem.
Meu caro! Durante este tempo vivenciei uma experiência complicada. O velho Dr. Cunha, que tinha entregado os pontos, resolveu enfrentar os seus problemas de saúde de frente. Com isto o meu pai reconquistou a minha admiração. A Dona Delci também deu um susto grande. Cara não é fácil ter a sua mãe no colo sofrendo um Acidente Isquêmico Transitório. Ainda bem que deu tudo certo! Confesso sinceramente que tive medo. Com isto aprendi que os nossos heróis não são eternos. Nosso ilustre amigo lá da frente deve saber melhor do que nós. Bem, pulemos esta parte, pois minhas convicções céticas não são nem um pouco reconfortantes.
Ah, meu jovem poeta. Invejo o tempo que tinhas para a leitura e reflexão. Hoje as coisas estão bem mais corridas, contudo não reclamo. Vivo os meus momentos do presente com intensidade. Mas não esqueço uma coisa, lembro-me muito bem de quando escreveste do alto dos teus 20 anos dizendo: -“Sonho em ver um mundo melhor!” Meu caro, quanta gente o chamou de rapaz bobo e ingênuo, não é? Pois é meu jovem, mesmo tendo eu enumerado algumas coisas que aprendi durante este tempo, eu não deixei de ser esse cara bobo e ingênuo das nossas cartas.



Fraterno abraço
Hermison Frazzon da Cunha
Hermison Frazzon da Cunha
Enviado por Hermison Frazzon da Cunha em 23/06/2006
Código do texto: T181026
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Sobre o autor
Hermison Frazzon da Cunha
São Leopoldo - Rio Grande do Sul - Brasil, 37 anos
103 textos (27007 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 19:57)
Hermison Frazzon da Cunha