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(COR)RESPONDÊNCIAS (QUASE) SECRETAS


               
Melhor começar já esclarecendo que você simplesmente não existe. Em verdade, é um personagem inventado por mim mesma, de forma a suprir uma necessidade minha e minhas próprias expectativas. Criar expectativas acerca de algo ou alguém que não existe é, sem sombra de dúvida, o caminho mais curto para a frustração e a decepção certeiras. Com isso, você está absolutamente isento de qualquer responsabilidade ou culpa por minha eventual frustração ou descontentamento, de vez que qualquer bobagem sua terá sido, como você, fruto de minha imaginação fértil. 
               Isto posto, segue que você está, a partir deste instante, alçado ao posto de grande amor jamais visto em minha vida, o que torna ainda mais fãcil a tarefa de escrever-lhe. Você, por não existir, poderá não me responder ou, de acordo com minha disposição, responderá ou não aquilo que desejo, dando-me o ensejo de grandes arroubos amorosos ou grandes esculachos públicos, o que não cria constrangimentos, já que você é apenas um pedaço meu que desloquei para efeito de criação. Algo como uma costela de Adão às avessas. 
                   Começo por lhe dizer da grande alegria de compartilhar com você que, neste exato instante, tenho o imenso e descabido prazer de poder dizer que amo você sem estar absolutamente preocupada com o que você pensa a respeito e tampouco se isso irá ou não constituir uma massagem de ego com as possíveis conseqüências negativas que isso traz. Sim, porque as pessoas têm este grave defeito: ao se saberem amadas e, mesmo amando de volta, tendem a dar tudo por garantido e imediatamente começam a agir de forma pouco conveniente no que diz respeito ao amor conquistado. Assim, não existindo de fato, pouco importa o que você pensará a respeito e terei toda a liberdade de expor a você o meu amor sem que isso se transforme numa arma a ser usada contra mim. Amo você , digo e está feito. Se você disser o mesmo de volta, também não me será preocupação, posto que serei eu mesma respondendo. 
                    Sigo dizendo que tua condição de pré-fabricado, construído pela enormidade de fios que se embolam no meu cérebro, facilita demasiado as coisas, uma vez que, ainda que fosse possível, isso não me tomará as energias, não podará os galhos desta flor que é minha exclusivamente, não tolherá meus movimentos e nem possibilitará que você, a qualquer momento, resolva fazer o famoso acordo do “você entra com a bunda e eu com o pé”, já que neste caso, todo controle está comigo. Coisa também bastante positiva. Nada como ser a proprietária exclusiva de um controle remoto, coisa impossível quando há um homem por perto. 
               Posso ainda dar-me ao luxo de dizer que me fazes uma enorme falta quando pense que preciso falar contigo e ao mesmo tempo, dizer que não me faz falta alguma naqueles momentos em que me agrada permanecer encastelada em mim mesma, desfrutando unicamente da melhor companhia que tenho: eu mesma. E sem que isso signifique um ressentimento da tua parte, gerando culpa imediata em mim. Livro-me, assim, do peso que acompanha todos os amores: um sempre espera algo do outro e quando não ocorre o esperado, salve-se quem puder. 
               Hoje, por um acaso, faz-me falta falar contigo (comigo, melhor dizendo...) e por isso te escrevo. Entre outras coisas, vi uma enorme lua no céu e, sendo eu a tua criadora e portanto,quem melhor te conhece, sei que vais adorar compartilhá-la, razão pela qual, peço-lhe que mire atentamente para o alto. E, evidentemente, lembre-se de mim ao fazê-lo. Também para dizer-lhe que apesar do frio que caiu sobre a cidade hoje, uma enormidade de buganvílias em flor aquecem os olhos e o coração. Sei, pela razão que já disse, que isso irá agradá-lo imensamente e estou certa que sairias tirando fotos de cada uma delas. 
               Creio que deverei escrever-lhe com alguma freqüência, já que esta nossa identificação pré-fabricada e construída sob medida, com certeza nos trará muito assunto a tratar, especialmente estes, de luas e buganvílias em flor, tão supérfluos a maioria das pessoas, ocupadas que vivemos entre trabalho, contas, problemas familiarese e pessoais e vamos deixando de lado como excedente o que na verdade é tão essencial. 
               Ah! Já me esquecia: ao tomar um expresso, resolvi tomar dois, por via das dúvidas, para que não ficasses com vontade, porque já que te criei, também sei do teu gosto pelo café, que, sendo você criatura, deriva imediatamente do meu próprio. 
               Com amor, despeço-me dizendo-lhe que sigas me permitindo amá-lo assim, despreocupada com o rumo dos acontecimentos.
beijos,
de mim, que te criei para meu próprio deleite. 

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 09/07/2006
Reeditado em 09/07/2006
Código do texto: T190836

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai