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(imagem Crete Caffe, www.kadifeli.com/vasil/mainWCG-5.html)

EXPRESSO DUPLO (da série " (cor) respondência (quase) secreta")


               Te escrevo hoje novamente, meu amor fabricado em meus neurônios em plena obediência a minha própria ISO 9999999, para dar-lhe conta de umas coisas que andam passando por aqui. Na cidade? Nao, que na cidade nao tenho tido muito que fazer visto que o trabalho me toma todo o tempo e mais um pouco. Até mesmo para chegar ao escritório, a distância é tao pouca que nao dá pra acontecer muita coisa. Na verdade, coisas que me vao acontecendo (e só pra que nao te percas, continuo perdida procurando o til deste teclado espanhol) e vou-me dando conta de pouco a pouco. 

               Dou-me conta de que por muito que falem outro idioma, sao tao parecidos com a gente que é quase um estar em casa estando em visita à casa alheia (ah, sim...também às vezes me perco com o cedilha, volta e meia). De todas as formas, mesmo vendo rostos de feiçoes tao diferentes, é como se fossem tao iguais a nós próprios. E dou-me conta que, por muito pequeno que seja este lugar, tem aqui e ali o charme da humildade e da simplicidade que torna as pessoas tao especiais. Até porque, os muito desenvolvidos e muito cheios de tecnologias e confortos que me perdoem, mas humildade é fundamental e lamentavelmente, é coisa que vamos perdendo tanto mais nos tornamos “desenvolvidos, progressistas, potências”. 

               Pode ser que você nao concorde muito comigo, porque quando te “desenhei” mentalmente, achei mais adequado para a finalidade a que eu te destinei, que tivesse aí uma ou outra ... “desafinidade”, chamemos assim. Caso contrário, seria um grande tédio e eu nao teria uma boa razao para discordar de você e assim, quem sabe, de vez em quando armarmos um bom barraco, indispensável para dar um certo ar de realidade a qualquer namoro. Namoro me soa melhor, já que "relacionamento" é coisa para psicanalistas ou para o amor que já virou um simples "bom dia". Como nos inventei há pouco tempo, é cedo demais até para "bons dias"...

               Também percebi, pelo muito que tenho tido que estar sozinha em meio a tanta gente, de vez que o trabalho me obriga, que estou num bom caminho de treinamento para minha carreira solo. Solo yo, nadie màs. Y es bueno, mi amor, muy bueno. Nao, por favor, nao se ofenda por isso. Que culpa alguém tem de amar tanto a própria companhia? Nao me culpe por algo que tanta gente tenta a vida inteira e, nao encontrando, despeja suas expectativas no primeiro que aparece para depois dizer-se enganada ou decepcionada.
 
               Está bem, se quiser emburrar, fique à vontade, mas brigar nem pensar. Lembre-se que sou a criadora e proprietária exclusiva do controle remoto. Te dou um “clic” e você morre do mesmo jeito como nasceu. Por ora, entretanto, ainda temos muito que conversar. 

               Vou cantando você em minhas linhas, assim, Sem Nome, sutil, neste anonimato azul (que a cor do céu e do mar caem bem aos amores como este), lenta e pacientemente. Porque é assim que sao construídas as coisas que queremos eternizar. Pretendo cantar este amor até mesmo depois do pó em que um dia, como tudo, retornará. Mas nao haverá ocaso. O ocaso é para as coisas reais. O que criamos, inventamos e parimos de nós próprios, nao tem permissao ou possibilidade de ocaso. Como depende de nós próprios, só haverá quando nosso cansaço real for mais forte do que nossa capacidade de sonhar. 

               Para que fiques mais contentinho, devo dizer que sigo tomando os cafés em dobro: um pra mim e outro pra você.
beijos, de mim que te criei e dispenso apresentaçoes.


Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 10/07/2006
Código do texto: T191438

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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