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CARTA À MINHA SOBRINHA

Minha linda sobrinha,

Sua comparação de deus com o papai Noel ou coelhinho da páscoa não faz muito sentido, pense bem. Em nosso mundo e em nossa sociedade a ideia-deus é vista e tratada de forma muitíssimo diferente das ideias de papai Noel, coelhinho da páscoa, duendes e até anjos.

VOCÊ não bombardeia as pessoas com informações a respeito da sua fé, mas há um verdadeiro e imenso exército de crentes (e uso a palavra crente aqui no sentido de “aqueles que crêem”) que o fazem. Talvez justamente por acreditar você nem se dê conta disso e nem se sinta incomodada em nenhum momento, mas eu me dou conta e algumas vezes me sinto incomodada, e muito, com esse bombardeio.

Quer um exemplo? procure no Orkut as comunidades ateístas e as religiosas. Eu não fiz isso mas apostaria que as religiosas estão em maior número. Procure blogs ateus e blogs religiosos, procure sites ateus e sites religiosos. Tenho quase certeza de que em todos os casos os religiosos ganham disparado.

Resisti muito a, seguindo o conselho do Daniel e de um monte de alunos, aceitar entrar no Orkut e criar um blog porque avisei sempre que não seria uma boa idéia porque na internet eu não abriria mão de dizer o que penso e isso ia dar encrenca, pergunte pro seu priminho quantas vezes eu disse isso pra ele. Insistiram, acabei entrando e, embora no meu dia a dia evite sempre e, se não for provocada, nem toco no assunto religião, na net não poupo a “língua” porque os crentes não o fazem. Veja no meu blog, vários dos textos que publico são respostas a pregações ou ofensas que recebi ou então comentários de textos religiosos absurdos que me chegaram por e-mail.

Quer mais? Você talvez não esteja exposta a isso ou talvez, por ser uma crente não se sinta incomodada mas, veja: se estou zapeando a televisão nunca tem menos de três canais com pregação ou missa, se saio na rua em minhas longas caminhadas dificilmente deixo de ser abordada por um crente entregando papelzinho, jornal, panfleto ou interrompendo meu caminho para “pregar a palavra”, quando não estão em lugar estratégico, armados de bíblias e auto-falantes, xingando o capeta e conclamando todos os que passam para “aceitar Jesus”, se entro num ônibus ou trem é comum, quando estou sossegada no meu banco com a cara enfiada num livro, ouvir o crente que entrou com a bíblia na mão e dana a gritar que tenho que “aceitar Jesus”, se na escola em que trabalho tem uma reunião pedagógica ela sempre começa ou termina, ou as duas coisas, com o diretor, o coordenador ou um dos professores constrangendo-me a ficar em pé, dar as mãos em rodinha e rezar o padre nosso, como sempre recuso e fico sentada no meu canto ou vou embora sou olhada como bicho do outro mundo, muitos dos meus alunos são ensinados pelos pais que homossexuais são uma aberração porque é o que diz a bíblia e, quando faço um trabalho contra preconceito tenho que ouvir essa justificativa e levo bronca na direção porque digo em sala de aula que não se deve usar a bíblia para justificar preconceito e os pais dos alunos vão à diretoria reclamar que eu estou destruindo toda uma educação religiosa que eles vem dando aos filhos desde sempre.

Verdadeiros exércitos de religiosos conseguem até entrar no meu prédio e andar pelos corredores enfiando papeizinhos por baixo da porta ou até tocando a campainha e me incomodando o sossego para me convidar para o culto não sei das quantas que acontecerá não sei onde a tal hora. Eles entram por estarem falando de religião, os porteiros permitem porque vem “espalhar a palavra” e, portanto, são bons, é difícil convencer esses porteiros e síndicos de que isso é até mesmo um atentado contra a segurança do prédio.

Enfim, querida, são muitas invasões, são muitas imposições, são muitas opiniões esdrúxulas que me chegam ligadas à religião e que me incomodam, em alguns casos bastante. Você sabia, por exemplo, que estão batalhando para impor que nós, professores, ensinemos em sala de aula o criacionismo juntamente com o evolucionismo como sendo ambos verdades? Nas escolas do Estado do Rio de Janeiro tem aula de ensino religioso e em geral os professores dessa matéria comemoram com os alunos o dia a bíblia mas nem sabem se existe o dia do talmude ou do alcorão, explicam a profundidade do sentido religioso da páscoa mas nada dizem do dia e Yemanjá, e depois afirmam que estão respeitando igualmente todas as religiões e não estão propriamente dando aula de religião mas sim de cidadania.

É, portanto, minha linda, por essas e outras que eu falo tanto a respeito e contra religião e esse culto a deus. Não combato deus porque ele não existe, mas combato a ideia deus porque ela existe, incomoda e está se tornando cada vez mais invasiva e incômoda. Pense nisso.

Beijos!

Divina
Divina de Jesus Scarpim
Enviado por Divina de Jesus Scarpim em 08/12/2009
Código do texto: T1966842
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Divina de Jesus Scarpim
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 55 anos
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Divina de Jesus Scarpim



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