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No jardim do paraíso

E aí meu amigo? Quanto tempo! Por aqui, as coisas vão caminhando lentamente. Um dia desses fui passear no parque com minha amada. Caminhamos por algumas horas sem nos preocuparmos com o clima que era chuvoso e frio, mas nada que não pudéssemos suportar. Tudo era festa para nós e para os que lá estavam. Vez por outra o sol dava uma caprichada, aparecia como quem não queria nada, oferecia o ar da graça e sumia.

Caminhamos lado a lado por algumas horas. Ela curiosa como uma gaivota, perguntava tudo, não deixava passar nada que lhe interessasse ou lhe chamasse a atenção: ora era uma árvore rara, ora era uma flor diferente, ora era uma casa de taipa, ora eram os pinos que faziam sombra por sobre os carros que lá estavam estacionados. A curiosidade era enorme, assim como minha disposição para explicar sobre o que eu conhecia, ou achava que conhecia! Na verdade era uma troca de informações. Algumas plantas eu nem conhecia, não sabia, sequer, qual era a sua utilidade.

O que mais me encantou no passeio não foram nem as árvores, nem sua curiosidade, foi algo corriqueiro e inusitado. Não imaginava que o fato de andarmos uns dez metros, no máximo, de mãos dadas, pudesse causar nela sobressaltos. Foi como se perguntasse: que negócio é este?! Confesso que segurei sua mão como se segura na mão de qualquer pessoa amada, não havia ali qualquer intenção... Escondida. É possível que ela não esperasse por tamanha “ousadia” de minha parte, até porque lá é um local público, não estávamos escondidos. Muitos já caminhavam para os seus carros e bicicletas. Já era meio tarde, a noite dava seus primeiros sinais de vida. Quando ela percebeu que eu estava segurando sua mão, se soltou como uma flecha que sai da corda do arco, como se houvesse assustado. Minha reação foi de riso, não consegui conter as gargalhadas. Logo em seguida fomos embora, cada qual para o seu destino, somos um casal moderno.

Quando virei as costas, fiquei só. Assim me flagrei pensando em voz baixa... Como a vida nos oferece surpresas! Fatos simplórios como esse, nos colocam em xeque-mate. É como se o nosso mundo virasse de cabeça para baixo. É o medo da “posse”. É como se nós fôssemos propriedades particulares de A ou B, registradas em cartório. Isto nos faz perder o direito à liberdade, mesmo não estando vigiados. Nos torna prisioneiros do nada, nos faz escravos de um possível prazer, coisa que, muitas vezes, só existe na nossa vã imaginação.

Às vezes nos tornamos cativos um do outro pelo simples fato de que um dia nós fizemos um compromisso de “amor eterno”. Daí acham que Deus irá nos castigar se não cumprirmos com aquelas juras que foram feitas diante do padre, juras que nem sempre são verdadeiras, até porque são promessas para a sociedade que ali está representada por nossos pais, padrinhos e amigos.

A vida não pode ser só o que nos ensinaram nas salas de aula ou em nossas casas durante toda a nossa existência. Ela tem que ter algo mais, ela tem que nos oferecer a felicidade, o prazer e a alegria. Se não for assim, fomos iludidos, estão nos enganando a cada instante. Se não for assim, a vida não me parece ter sentido lógico, tudo passa a ser anárquico e bestial.
 
Muitas vezes me peguei de mãos dadas comigo mesmo depois deste fato, muitas vezes me lembrei de Jesus Cristo quando ele nos disse: eu sou o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Ele nos deu o exemplo, mas nós traduzimos o seu ensinamento para: eu tenho a Posse, o Objeto, o Santo que o outro vê em mim.

A vida, meu amigo, é a própria morte se você fizer dela a razão dos seus fracassos e a desculpa para tudo, como fez minha doce amada quando se soltou de minhas mãos com receio de que os outros nos condenassem. Em tempo, ela é uma flor, mas às vezes se assusta com pequenos incidentes... Rindo demais.

Um grande abraço e até uma outra oportunidade.
Pedro Cardoso DF
Enviado por Pedro Cardoso DF em 10/08/2006
Reeditado em 10/08/2006
Código do texto: T213134
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Pedro Cardoso DF
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 68 anos
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Pedro Cardoso DF