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UMA CARTA PARA DEUS

Caro Deus,

Não sei se é assim que se deve começar uma carta para Deus...em todo caso vou seguir as regras gramaticais que conheço. Também não sei se deveria escrever em português ou em outra língua. Poderia escrever em Inglês, Italiano talvez. Espanhol seria um risco definitivamente. Meu Espanhol é muito pobre e além do mais dizem que Deus é Brasileiro então...estou no caminho certo.

Escrevo essa carta porque não tenho mais a quem recorrer. Passaram-se tantos milhões de anos e o Homem ainda não se deu conta do estrago que faz no mundo. È isso mesmo...não quero parecer rude, mal educada mas devo dizer a verdade. Essa carta não é para o Papai Noel...não preciso fingir ser uma boa menina. Devo contar o que vejo, dizer o que sinto e para me expressar com clareza terei que lançar mão de uma linguagem não muito formal. O Homem destrói o mundo a cada dia. Novos gases poluentes, negros e densos saem diariamente de chaminés gigantescas de indústrias de sei-lá-o-que. Essas mesmas fumaças fazem seu caminho rumo ao azul do céu; saindo dos escapamentos de milhões de carros que assolam e entopem ruas, estradas e avenidas do mundo. Sem contar os sprays que são lançados no mercado a cada dia...sprays para as mais variadas funções...fixadores de cabelos, inseticidas, desodorantes que duram 72 horas, perfumando os sovacos espalhados por aí. Tudo isso é custoso demais para a nossa atmosfera. Sabe Deus, você não mora aqui embaixo, não faz idéia do calor fora de época, das inversões climáticas e temperaturas drásticas a que somos submetidos. Um verdadeiro caos. Essa tal  camada de ozônio está sendo completamente destruída e sem ela...vamos virar churrasquinho de gato...de Humano para ser mais exata.

Deus, você vê daí de cima as guerras que travamos? Para te dizer a verdade a maioria delas leva seu nome. No Ocidente e no Oriente, pessoas se matam pela salvação, uma salvação que os Humanos inventaram. Dizem por aí que estarão sentados do seu lado e que você andou prometendo o paraíso, sombra e água fresca. Sabe, você tem nomes diferentes ao redor do mundo, mas tenho certeza que você é um só. Difícil é saber se todo o sangue derramado vai trazer mesmo o paraíso a tantas pessoas. Não acredito que nos matarmos, por mais nobre que seja a causa, seja uma solução viável para os problemas mundiais. Se somos todos seus filhos, porque nos destes o direito de tirarmos nossas vidas e a vida de nossos irmãos? Porque nos permite tais massacres e tantas injustiças? Porque destes tanto a alguns e tão pouco a tantos outros? Porque te chamam de nomes diferentes e porque distorcem seus ensinamentos?

Poxa vida Deus...tenho tantas dúvidas e não sei responder nem a metade delas. Recorro a ti porque seus intermediários são omissos. Não há sequer um  de seus porta-vozes, aqui embaixo, que responda minhas perguntas. Sem falar em escritos. Todos eles codificados, metafóricos, parabólicos. Literatura da mais alta qualidade, rebuscada e ambígua, que nem mesmo toda a sabedoria do mundo conseguiria decifrar. É por isso que te escrevo. Não sei ao certo se receberás minha carta, não sei ao certo para onde enviá-la. Deixo, no entanto, minhas palavras ao vento. Te chamo de Deus porque esse é o nome que usamos para você aqui no meu país. Te escrevo em Português porque essa é a língua que o meu coração fala. Resposta? Talvez nunca chegue, mas esperarei.

17/08/2006

* Essa carta é fictícia e não pretende insultar ou ofender nenhuma religião. Aos leitores: Leiam com olhos desprovidos de preconceito ou religosidade. A fantasia está além de crenças e credos.

Mari Mérola
Enviado por Mari Mérola em 15/08/2006
Reeditado em 15/08/2006
Código do texto: T217172
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Sobre a autora
Mari Mérola
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Mari Mérola