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to you, my former private teacher...

REGRESSO INESPERADO

               Que sensação estranha essa de te “rever” depois de tantos anos passados. Tanto tempo longe, eventuais conversas por e-mail, longos períodos sem se saber muito o que tem andado na vida de cada um e de repente, voilà: você aparece num e-mail do tipo “estou voltando e olha como eu estou”ou um quase “vai se preparando que eu to voltando”, meio Chico Buarque assim. Confesso que a foto me deixou meio sem fala. Também confesso que a maturidade (prefiro esta palavra à idade ou passagem do tempo) deve ter mesmo lhe feito um grande bem que está estampado no seu rosto. Ficaria ainda mais contente se você não estivesse usando óculos escuros. Lembro-me que você tem belos olhos. 

               Mais e-mails trocados, alguns poucos detalhes de como vai a vida e reminiscências de quando nos conhecemos. Foi uma viagem e tanto, principalmente pelo grande carinho que tive por ti. Ainda me lembro da tua cara quando te chamei de “pão-duro” e você certamente não deve ter gostado da minha sinceridade tão crua. Também lembro do café no aeroporto, da conversa meio sem jeito e do silêncio que queria ser preenchido por outras coisas que não palavras. Lembro dos teus olhos serem belos, não exatamente por serem isoladamente belos, mas porque me olharam de uma maneira bela. E confesso, fiquei muito sem saber o que fazer com aquele carinho que vi neles. 

               Por razões várias, cada um seguiu seu caminho, que nem sempre nos permitiu cruzamentos. Também admito que eu barrei os cruzamentos várias vezes. Não saberia dizer ao certo a razão. Eu era outra pessoa, muito diferente dessa que agora conversa contigo. E , se não fiquei sem jeito agora, é porque há uma tela entre nós. É lógico que isso facilita muito as coisas, mas não sei o que será quando você “pop up here” (lembro que você usou essa expressão nas nossas primeiras conversas). Sei lá o que vai acontecer quando a gente se esbarrar sem telas no caminho, não sei o que vou fazer com as mãos sem o teclado para me salvar.

                Sinceramente, não sei se foi esse reaparecimento súbito, essa foto de você bem mais maduro, com uns indícios de branco no cabelo (e eu adoro isso), se as coisas que conversamos, mas a verdade é que foi como de repente alguma coisa subir à tona do nada. Será que eu afoguei alguma coisa com uma pedra para não pensar e agora ela se desamarrou e ressurgiu? Não tenho a resposta. A verdade é que fiquei meio mexida. 

               É mais fácil falar daquilo que não nos toca, falar de sentimentos dos outros, falar de histórias que ouvimos, mas a emoção nossa mesmo emudece e espalha as palavras de tal maneira que a gente fica mudo e sem achar o verbo certo. E a gente termina no óbvio: você está muito bonito mesmo. E suspeito que, debaixo dos óculos, os olhos estejam ainda mais bonitos. Não porque eu apenas ache , mas pelo mesmo tom carinhoso da retomada das conversas. Pelo jeito, você não mudou. Ou melhor, deu um senhor upgrade. Eu é que vou ter que pensar o que fazer com isso... Você ainda não regressou, mas isso tudo já voltou sem que você chegasse...

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 04/09/2006
Código do texto: T232623

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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