Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Excessos de uma Jovem

Penso que uma introdução não é necessária, visto ir falar de situações, coisas, e mais coisas passadas. Como tudo tem de começar em algum sítio porque não aqui.

Neste momento ouço música. Nova era para as mulheres, poder a eclodir pelas costuras, é engraçado como o tempo passa e muitas mentes não evoluem, como bombas explodem e ninguém se apercebe. É ridículo pensar que tudo é importante, que tudo tem de ser vivido, que tudo tem de ser o máximo. Nem todos somos altos, magros e belos, nem todos temos habilidades extremas, ou até, mesmo capazes de fazer um pouco de tudo. Tal e qual os pais, todos esperam que os filhos sejam os maiores, superiores aos filhos dos outros, melhores que os da nossa vizinha, é ridículo! Cada qual é como é, tem a sua mente e evolui consoante a vida que vai vivendo, bem, nem todos, alguns preferem ficar no meio, não evoluir, não crescer, preferem perder-se no turbilhão. Como o meu primo, preferiu sempre uma vida fácil, talvez porque nunca a teve, tudo teve e perdeu, tinha tudo para ser alguém e acabou no nada. Neste momento está algures no Norte do país a fazer uma cura, se a podemos chamar assim, de desintoxicação, excesso de drogas, excesso de tudo de mau, só excessos.

Um dia, sem que ninguém desse por isso cresci, decidi trabalhar, estudar. Um erro, o maior erro que já cometi. Os meus pais nada fizeram, deixaram, simplesmente não tiveram palavras, palavras para quê?

Nunca senti nada de anormal nos meus pensamentos, sempre me achei normal, não tanto como os outros, mas ninguém tem que optar sempre por uma vida medíocre? Ver novelas, ir ao clube de vídeo ou até ao cinema, casar com o primeiro homem que nos tirou a virgindade, ter filhos, educá-los, ir do trabalho para casa, casa e trabalho. Nem tudo tem que ser baixo, a nossa mente pode querer mais, não querer ficar acomodada, criar fantasias, não é anormal! Criar sonhos não é ser diferente! Tê-los é muito saudável, mais difícil pô-los em prática, mas, se não fosse assim, todos eram iguais, todos lutavam pelo mesmo, todos queriam o mesmo, todos, e lá se ia o lema ”Todos diferentes, todos iguais!”. Não existem cores, é tudo a preto e branco, tudo seria triste. Muitas são as vezes em que prefiro sonhar a viver um pouco mais, em que prefiro a mentira à verdade.

A vida é uma ironia, tudo à nossa volta é um cenário, fazemos parte de um filme, de uma longa metragem, onde o fim é quando nós queremos, quando deixamos de sonhar, quando perdemos a esperança, quando já é tarde e só queremos ir para a cama dormir. Quando a vivência com a sociedade depende de drogas, excitantes ou calmantes, dependendo do clima onde se vive, onde se trabalha, onde se está. Vais para casa, o cão ladra, o pássaro canta, a tua mãe não se cala com as histórias do costume (“o teu pai tem uma amante, já não é o mesmo, está diferente, deve de ser a outra gaja!”), a tua irmã está naquela fase de crescimento, e tu cais de pára-quedas no meio do filme, e só te apetece um ”Xanax”, um “Bromalex”, qualquer coisa que te inerte, te coloque K.O.. E deixes de ouvir, deixes de lá estar e acalmes o espírito, mesmo que seja com mentiras. Vais para o trabalho, o teu chefe chateia-te com a limpeza e organização da loja, embirras com algum colega, tens conversas parvas, existe sempre um colega que te quer fazer falar mais do que queres dizer, tentas conviver com as raparigas da tua idade, em que a vida é “o louro que conheceram na noite anterior na discoteca”, na queca que deram com o namorado da melhor amiga, de como é bom fazer “sexo”. Ter dois namorados é super moda, como é tudo “bué da fixe!”, e colocas cor no cabelo, para os calar. Tentas falar idêntico, mas, nada saí, só te apetece gritar, refugiares-te no W.C. com o teu “Xanax”, o teu “Bromalex”, sais e logo tudo é fácil, consegues enfrentar as “tias”, os “tios”, a desorganização, o aglomerado de clientela presunçosa e o teu colega que quer ser um macho, e não passa de um cobarde. É frustrante, cansativo, mas acima de tudo é agonizante, quem me dera poder pegar num repelente, sempre que alguma coisa me chateasse ou simplesmente existisse.
Isabel Fontes
Enviado por Isabel Fontes em 15/09/2006
Código do texto: T241117

Copyright © 2006. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Isabel Fontes
Portugal, 41 anos
417 textos (61606 leituras)
9 áudios (676 audições)
3 e-livros (266 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 14:11)
Isabel Fontes