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Um dia de tristeza

__ Olê, Olê... Meu amigo, se não fosse você não sei como seria essa coisa de mandar cartas, certamente não teria com quem dividir esses meus conflitos internos. Provavelmente elas ficariam perdidas em um dos cantos do meu velho e bombardeado armário. Tudo entre mim e minha musa estaria mais pobre e desgastado. Sei que você prefere esperar por minhas escritas para saber claramente o que escondo entre as ranhuras dos meus sentimentos. A amargura parece interminável;  as lágrimas,  um pêndulo que balança por um fio preso à alma, parece não querer cair, está por um triz, ainda assim, não abisma, não precipita. Fica como nódoa na névoa que cobre os meus olhos. Às vezes penso que a vida brinca comigo, que joga pesado demais, às vezes me sinto tão acorrentado que me agarro aos meus braços.

Ah meu caro, debaixo das cobertas, ali onde converso com Deus, o diálogo é franco, é pra gente grande, é pra quem tem na dor  o cálice mais profundo, é pra quem conhece as profundezas das águas densas, é pra quem constrói as raízes dos prédios e das casas que são plantadas em terrenos até então baldios. Não pense você que é fácil, não pense você que me sinto confortável aqui nesta cadeira de balanço. Só sei que estou vivo porque minhas carnes doem, porque os meus pés adormecem. Além do mais... Do meu quarto ouço, nitidamente,  o canto juvenil de um sabiá-laranjeira que não me perdoa; que não me deixa dormir durante a madrugada.

Ontem fui a um encontro imprevisível com minha musa. Não sabia quais armas levar, não sabia o que teria pela frente. Cheguei como quem retorna não sabe de onde. Desarmado, acuado por mim mesmo, me entreguei ao diálogo que mais parecia um dolorido monólogo. Minha voz fugiu de mim, me deixou só. Meus ouvidos e olhos, atentos, pareciam não acreditar nas verdades que iam se formando ao meu derredor, pareciam não acreditar nas imagens que eram concretizadas verbalmente e paulatinamente à luz do dia e dos meus entendimentos. Gigantesca esfinge aflorou dentro de mim, tão real e tão divina que ganhou nome e personalidade própria. Cheguei a tocá-la, cheguei a senti-la com vida. Bestificado, assustado, ensandecido, gritei: ANDA!!!

Minha musa, aos prantos, estava se desfazendo pelos reversos. Uma flor que se multiplicou desdobrando o próprio corpo, a própria essência - quando menos podia. Corpo e alma se desprendiam tão rapidamente como haviam se encontrado. Parecia que eu estava sonhando de olhos abertos, parecia que a dor tornava as horas mais lentas e os minutos mais vorazes. Naquele momento ímpar, foi que descobri que existem dois caminhos a serem percorridos: um que vai da alma à infinita dor sem passar por atalhos ou ribeirões de água doce, outro que nos leva aos confins dos mundos sem que ao menos caminhemos alguns trôpegos passos. É assim que a vida brinca com os que querem ser grandes.

Meu amigo me desculpe por não lhe contar tudo tão claramente. É melhor que alguma coisa permaneça oculta, que fique nas entrelinhas para que todos não saibam, mas se você quiser mesmo saber, são nelas que escrevo tudo, são elas que vão lhe revelar todos os meus segredos.

Ô amigo parece que a dor tomou conta de mim, estou sentindo que estou morto, que estou debaixo da terra, que as carnes me faltam. É por isto que estou lhe escrevendo, que é pra ver se você me responde, se você confirma a minha existência.

Um grande abraço,
Pedro Cardoso DF
Enviado por Pedro Cardoso DF em 09/10/2006
Reeditado em 09/10/2006
Código do texto: T260063
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Pedro Cardoso DF
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 68 anos
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Pedro Cardoso DF