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CARTA A UMA AMIGA

Cara amiga

Li seu e-mail de madrugada quando cheguei. Deixei para responder hoje de manhã. Li de novo. Há um comentário que me deixou triste. Não com você, é claro! Mas, por ser um comentário sobre mim que vem sendo recorrente. Algumas pessoas têm me falado isso com uma certa constância ultimamente. E, o que antes para mim era motivo de satisfação, hoje caiu um pouco a ficha! Não gostaria de ser diferente dos demais homens. Ou, como você disse "você é mesmo uma exceção". Hoje vi que, para mim, ser
diferente, ser exceção, tem me trazido mais dores que alegrias. Não pense que estou tendo crise depressiva. Você me conhece e sabe que sempre tive alto astral, sou otimista, brincalhão e estou sempre sorrindo. Mas, quer ver porque a ficha está começando a cair?

Recebi ontem um e-mail de uma antiga colega de trabalho, que não vejo há anos, que disse que sempre me admirou porque, dentre outras coisas, não importava o cargo que ocupava na empresa (e foram muitos e importantes) sempre a tratei da mesma forma como se fossemos iguais. Ela, na insignificância que disse ter tido em seus cargos, nunca notou nenhuma diferença no tratamento que dispensei a ela. Por que teria de tratar diferente? Mudei de tarefas, mudei de cargo, mudei o nível de responsabilidade, mas, dentro de mim, continuei gostando das pessoas que gostava antes e detestando as mesmas pessoas que detestava antes.

Tive um casamento difícil e, mesmo assim, mesmo tendo oportunidade de trair minha mulher (ex-mulher), nunca fiz, embora em seus delírios imaginasse que eu vivia rodeado de mulheres lindíssimas, porque chegava tarde em casa depois de um dia tenso de trabalho. As amigas e vizinhas, também inseguras em suas relações, faziam questão de botar lenha na fogueira, já que os maridos de algumas faziam exatamente isso. E, a certa altura da vida conjugal, a palavra da amiga-vizinha tem mais força do que a do ausente marido. "Homem não presta" é o refrão feminista (como se o homem, para trair, não precisasse de uma mulher para ajudá-lo).

Procurei ser um bom amigo, fiel aos meus amigos, um bom pai para meus filhos. Hoje vejo que muitos se aproximaram mais pela importância que tive profissionalmente que pela minha pessoa.

Poderia ter sido como outros homens, ter duas ou três mulheres como companheiras de cama, onde a conquista fácil é regra básica. Não tenho a compulsão de ver revistas com nús femininos como outros homens. Sei que são fotos retocadas, que fazem com que uma Hortência vire "sex-symbol". Sinceramente, chama-me mais atenção a moça que passa, às vezes nem bem vestida, com maquiagem ínfima, um pouco fora de forma física, mas com graça e jeito erótico de andar que não dariam sequer uma foto em nenhum tablóide de quinta categoria.

Lidei com milhões de dólares das empresas que trabalhei. Poderia ser como tantos outros e retido uma pequena porcentagem, como fizeram. Não achei direito.

Poderia ter sido ganancioso e não ter ajudado profissionalmente, financeiramente ou fraternalmente as pessoas que ajudei. Muitas nunca me pagaram e, pior, viraram-me as costas. Algumas vezes quando eu mais precisei delas, não tanto pelo dinheiro que deviam, mas pela mão amiga nas vezes em que a vida me deu rasteira. Levantei-me sempre sozinho.

As mulheres que gostaram de mim diziam que eu sou um homem diferente. "Às vezes me belisco para ter certeza que estou acordada e que você existe e não é um sonho" é o que dizia e escrevia M. Disseram C., R., G. e outras que namorei e que disseram ter gostado de mim. Admiravam meu caráter. No fundo, se eu pudesse ler os balõezinhos de seus pensamentos, como nas revistas em quadrinhos, não iria gostar do que leria. Pois, embora a maioria das pessoas admire certas virtudes, não é o que fazem na vida prática e não é o que procuram em seus amigos e amores. Traem e mentem, como se desejassem que fossem tratadas da mesma maneira.

De que adianta fazer um bom trabalho, preparar um bom curso, uma boa aula, se, descaradamente, o aluno vai colar na Internet a pesquisa que devia ter feito, o trabalho que devia ter escrito, o conhecimento que devia ter adquirido?

Por isso hoje estou tão descrente e um pouco fora do rumo. Não quero plagiar letra de música de ninguém, que por sua vez foi inspirada em um grande poema, mas não há outra forma de dizer:

Devia ter sido mais ganancioso. Estaria rico!

Devia ter sido mais volúvel e safado. Estaria com um séquito de mulheres à minha volta, pois, fora honrosas excessões, a maioria das mulheres que a gente encontra por aí gosta mais dos safados e volúveis que dos certinhos. Os safados não são bons maridos, mas são procurados por serem divertidos, boas companhias e bons amantes.

Devia ter sido mau caráter. O mau caráter pode até ser odiado, mas todos o respeitam de uma certa forma. Se não o fazem pela admiração, fazem-no pelo medo!

Devia ter sido desonesto. Ter sido honesto não garantiu que os outros tivessem sido honestos comigo.

Devia ter sido um péssimo marido e péssimo namorado. Pois, quando o amor se vai, ser bom ou péssimo marido ou namorado, tanto faz, sobram os mesmos ranços e mágoas.

Devia ter tido todos os vícios. Já reparou que as pessoas que têm vícios são sempre recompensadas com carinho, compreensão e desculpas pelos seus erros? Os que fazem tudo certinho não podem cometer um único erro que logo são condenados a pagar por ele pelo resto da vida.

Devia ter feito mais coisas erradas do que certas. Ter feito o certo só me trouxe problemas pois, é muito fácil errar, difícil é não errar.

Devia ter rompido a palavra quando percebia que, em sustentando, iria me prejudicar. Mas, sempre sustentei o que prometi para que o outro não fosse prejudicado, enquanto fui prejudicado porque os outros não sustentaram a
palavra quando viam que iriam ter mais a perder, sustentando.

Deveria ser menos romântico. O romantismo dura apenas um ciclo para o outro e dura eternamente para a gente. Ser prático, pés no chão e pragmático são o que vale hoje no mundo.

Devia ter praticado o esporte da escalada social. São tantas pessoas vazias que chegam lá e, ao contrário do que muita gente pensa, dormem tranqüilas em seus travesseiros de penas de ganso e se divertem em seus carros da moda e lanchas potentes, ao contrário do que diz a ignorância popular.

Devia ter aparecido nos jornais. Ter a vida vasculhada. Faria parte dos comentários do dia a dia das pessoas que, como eu, não aparecem e vivem anonimamente.

Deveria ter o corpo malhado, com tatuagem nos braços e peito, piercing na orelha. Quem sabe seria fotografado, não pelo que sou, mas pelo personagem que querem ver. Se fosse mulher, tingiria os cabelos de loiro, cultivaria seios e nadegas, ou mandaria esculpir, para que aparecessem chacoalhando no Faustão. Teria fã-clube garantido.

Devia ter sido jogador de futebol. Teria tanto a dizer sobre solucionática, sobre o "professor" e o juiz, mais do que o especialista-analista coerente e atento. Poderia não ser tão culto e estudado, mas teria sempre uma Maria-Chuteira por perto, os flashs dos fotógrafos, a histeria das fãs e a mansão na Espanha.

Devia ter me esforçado para ser o presidente do meu clube, o líder das associações e comunidades que me filiei, mesmo que para isso tivesse que praticar politicagem, mentido, roubado, dividido e enganado.

É isso, devia ter sido político. Roubam, enganam e sempre são mantidos no poder pelo povo ignorante. Tudo prometem mas não são capazes de traçar um plano decente de desenvolvimento do país para os próximos 50 anos, promovendo a reforma que nossas instituições e sociedade precisam, alicerçando o futuro das próximas gerações.

Deveria parar de escrever poemas que ninguém lê. Ter mais os pés no chão. Escrever textos técnicos que alavancassem a minha profissão. Os poetas são lidos, mas deixados de lado porque só mesmo um coração poeta vê poesia na vida, tão cheia de desigualdades e carências. Os teóricos que vivem escrevendo com outras palavras as mesmas teorias que os verdadeiros descobridores tão bem formularam, dão entrevistas no rádio e tevê, escrevem e vendem livros de auto-ajuda empresarial, dão novos nomes às mesmas coisas velhas.

Deveria escrever literatura de massa. Escolher a linha dos temas insólitos e esotéricos, como é moda nesse início de milênio. Criar um personagem bruxo, passar um estágio no hospício e sair para ser alquimista de escrivaninha e publicar histórias sobre isso. Talvez tivesse vaga na Academia Brasileira de Letras. Não pela qualidade da literatura, mas pela vendagem e pelo sucesso que a ignorante cultura de massas valoriza.

Devia ter sido menos idealista. O homem está mais interessado em si próprio que numa sociedade mais equilibrada e justa.

Devia ter prometido a mim mesmo e aos que me amaram, um pouco menos da felicidade suprema que eu achava que existia. Ninguém está interessado em ser feliz da forma que idealizei. Pelo menos, não sem antes ter o prato de arroz com feijão garantido em sua mesa, o carro novo na garagem ou, suas conquistas sociais e carreira terem alcançado o nível mínimo que tanto perseguem, mesmo pagando o preço da própria infelicidade.

Devia ter amado as mulheres certas: as erradas. As mulheres que a gente chama de "erradas" são as que vivem uma vida mais emocionante, como as heroínas-vilãs dos folhetins das oito. As certinhas são tão previsíveis, tão bobinhas, tão exigentes com suas regras de retidão, que tornam a vida insossa e monótona.

Será um grande sacrifício me reformular para que essa nova pessoa nasça dentro de mim. Teria de mudar os valores, mudar o foco da vida, mudar as companhias, mudar o interior e, mais importante, tudo isso durante esta vida. Pois, com tanta iniqüidade, mentiras e riqueza nas mãos dos líderes religiosos, como acreditar que a vida após a vida (se é que verdadeiramente existe)será melhor?

Como se faz para mudar o DNA da gente? O código genético? Aquele programazinho que nasce antes da gente nascer e faz com que a gente se torne o que é? Somos mais filhos das nossas escolhas que do nosso destino.

O que explica tantas pessoas terem sorte na vida mesmo fazendo as coisas que a gente chama de erradas, enquanto outras não têm a mesma sorte, mesmo fazendo tudo direitinho?

Não me venha dizer que a explicação está na neurolinguística, na força mental do pensamento, no Plano Divino, no resgate das vidas passadas, ou na visão otimista/pessimista do mundo e das coisas. Já li e estudei tudo isso, seja por curiosidade, seja por aprimoramento.

Ter pensamentos bons e sadios deviam sempre levar ao bom resultado. Não levam.

Ter força mental no pensamento, ser otimista em relação às coisas e pessoas não isentam a gente das decepções, apenas as magnificam.

Se já vivemos outras vidas e as vidas passadas têm alguma influência no que fazemos e somos hoje, então estamos condenados a repetir os mesmos erros, com pequenos acertos que vão nos trazer de volta para corrigir os erros que ficaram?

Sem essa de livre-arbítrio. Pense como a religião judaico-cristã criou esse conceito do nada, tornou um dogma. Portanto, as pessoas têm de aceitar e nunca questionar. No entanto, se você pensar bem no assunto, é a explicação mais furada que os formuladores das doutrinas religiosas puderam criar. E, que raio de Plano Divino é esse que colocou no mesmo planeta toda sorte de assassinos, psicopatas, pedófilos, criminosos de guerra, bomba nuclear, massacres, corruptos, crime organizado, aberrações sociais e sexuais, sem falar nos pequenos crimes do dia-a-dia, enquanto o trabalho de voluntários anônimos para reconstruir o planeta, reconstruir a dignidade humana, dar agasalho e comida ao necessitado, está sempre com poucos recursos e sendo "detonado", mesmo que o presidente que nada vê e nada sabe diga que nunca um governo fez tanto pelo pobre desde que o Brasil foi descoberto?

Talvez a minha leitura de mundo e das pessoas tenha mesmo de ser reformulada. Ou, está na hora de vestir a camisa de força e começar a babar.

Por isso, não quero mais que me digam que sou diferente ou exceção. Vou tentar ser e viver como todo mundo!

Do seu amigo,

P.S.
Paulo Sergio Medeiros Carneiro
Enviado por Paulo Sergio Medeiros Carneiro em 22/10/2006
Reeditado em 23/10/2006
Código do texto: T270417
Classificação de conteúdo: seguro

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Paulo Sergio Medeiros Carneiro
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