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Carta para o futuro

São Leopoldo, 15 de dezembro de 1999

Carta para o futuro.

Não sei para quem estou escrevendo esta carta, talvez para um túmulo ou uma urna de cinzas, ou, quem sabe, para um avô brincalhão que leva os netos para passear nos domingos ensolarados, ou para um velho rabugento e entediado de oitenta anos com dor na coluna, ou ainda para um... bem, realmente não sei para quem estou escrevendo, pois o futuro é incógnito. E só o que eu posso esclarecer, é que o remetente e o destinatário desta carta têm a mesma letra, o mesmo olhar, as mesmas lembranças “... da infância querida que os tempos não trazem mais” (Casimiro de Abreu), as mesmas façanhas da juventude, etc. Eles se diferem na vitalidade do corpo, na experiência da mente, talvez nos pensamentos e, com certeza, na dor da saudade dos entes que já se foram.
Estou escrevendo para saber como é que vão as coisas por aí. Como é que vai a economia do meu país? Se é que ele ainda é meu, certamente ainda somos uma colônia submissa às regras do primeiro mundo. Como é que vai a administração política? A conspurcação descarada continua impune? Hoje seis bilhões de almas  contemplam  o nascer do sol de um novo dia, e é bem verdade que mais da metade destas almas se conformam apenas com isso, mas e aí, esta realidade agravou-se muito com o passar do tempo?
Os futurólogos de hoje acertaram em dizer que em 2050 ultrapassaríamos o número de dez bilhões de seres humanos na terra? A vida continua valendo bem menos que o dinheiro? A distribuição de renda ainda é uma discrepância paradoxal?

Cada vez mais, exige-se da capacidade mental das gerações descendentes, e com certeza teremos um maior armazenamento de informações cognitivas, mas será que conseguiremos trabalhar simultaneamente, com os dois hemisférios cerebrais, unindo a razão e a emoção, a fim de amenizar o caos planetário? As músicas com que hoje me regozijo viraram lendas do passado, ou caíram no total esquecimento?
 Atualmente o relacionamento homem x mulher, e  outros, está cada vez mais promíscuo, a confusão da liberdade com a libertinagem é uma triste realidade. E com o passar destas longas décadas como é que está? O romantismo dos cachorros e das cadelas no cio superam o dos seres humanos? Ainda há a entrega dos corações apaixonados na reciprocidade de um amor?



São tantas perguntas, às vezes eu imagino uma carta de resposta mais ou menos assim:

...

(O nome de uma cidade que eu não posso prever), 21 de dezembro de 2059

Carta para o passado.

Sei muito bem para quem estou escrevendo esta carta. Escrevo para um jovem de vinte anos que sonha em ver um mundo melhor. Um jovem que gosta de ler para buscar uma intelectualização cultural, para tentar não apenas passar pela vida.
Apesar de estar com esta carta em minhas mãos, sei que ela nunca chegará as suas, pois somos a mesma carne e o mesmo espírito separados pelo tempo. A mão que redige estas linhas não tem a mesma firmeza de antes, suas veias parecem descrever um mapa hidrográfico de geografia, mesmo assim ela pode responder a todas estas perguntas, mas só o tempo lhe dará as respostas. Portanto, não te preocupes muito comigo, viva um dia e depois o outro, seja sempre um bom exemplo a ser seguido, e lutes com muita garra por tua felicidade.

É, dia 25 tá aí, então um feliz natal e um próspero ano novo e um grande abraço de Hermison Frazzon da Cunha
Hermison Frazzon da Cunha
Enviado por Hermison Frazzon da Cunha em 24/06/2005
Reeditado em 11/05/2013
Código do texto: T27469
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Hermison Frazzon da Cunha
São Leopoldo - Rio Grande do Sul - Brasil, 37 anos
103 textos (26993 leituras)
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Hermison Frazzon da Cunha