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Um dia de louco

BsB, 10 de novembro de 2006.

É meu amigo a vida está passando por mim, como um trator de esteira que trabalha vinte e quatro horas na lida com a terra bruta; ora arrancando árvores velhas, ora revirando raízes nas profundezas dos sulcos da solidão. E ninguém faz nada! Nem mesmo o sacristão, o mais carola da minha Paróquia, é capaz de pedir ao seu Deus que pare o mundo, que interrompa sua trajetória elíptica, para que eu possa descer. Enquanto isto não acontece, vou por aí feito uma barata voadora que voa da lata de lixo em disparada, em verdadeiros vôos rasantes. Além de tudo isto, eu vou bem... Na medida do possível e do palpável... Eu vou muito, muito bem!

Há dias não como nada, não penso nada, não brigo por nada. Quando me vejo assim, desvairado, sinto que estou falido, mas na verdade, estou em transe, em fase de crescimento, acho que sou um irrequieto mutante. Permaneço imóvel por longos períodos de tempo, por horas intermináveis, por dias sem fim. Mas minha musa cuida de mim nesses momentos confusos: ora me telefona, me chama para passear, acalenta os meus intrincados mimos, quando mais preciso. Enquanto isso e por outro lado, minha mãe me põe no colo, me dá dinheiro, diz que sou um amor de criatura.

Meus sentimentos andam jogados por todos os cantos da sala; cada pedaço parece uma ferida - uma porta entreaberta com ferrolhos que não trancam. Tenho tentado juntá-los, recuperá-los para que o meu ser permaneça intacto e coeso. Às vezes sinto que estou em um baile de máscaras, que a minha face não é esta que vejo todos os dias em confronto com o espelho, que minhas vestes não são estas que uso para trabalhar de segunda a sexta-feira. Acho que desejaria, do fundo da minha alma, ser uma besta inútil, um paquiderme eqüino ou mesmo um animal rastejante. Certamente tudo seria mais fácil e menos obtuso.

Putz meu caro amigo, estou aqui escrevendo pra você, mas nem sei se terei coragem para lhe mandar esta carta, não sei se você merece “ouvir” de mim, todas estas minhas desavenças existenciais. Nem sei por que levantei hoje e peguei esta joça de lápis e papel que, infelizmente, aceita qualquer coisa. Pior é que estava chovendo, tudo conspirava para que eu ficasse prostrado em minha cama feito um anjo que teve as asas partidas no meio de uma escuridão. Mas que nada! Levantei com as minhas pernas, com todas as forças dos meus pulmões, como sempre faço. Às sete horas da manhã. Fui para o trabalho para ver se me distraía um pouco. Contudo, havia coisas demais para fazer, trabalho por metro, reuniões às pencas. Minha mente ficou atabalhoada com tantos problemas, com tantas bravatas que meus ouvidos captaram mesmo sem querer. Penso que estava drogado, sem sequer usar um único baseado, uma única substância química. Sentia que poderia morrer de over-dose se não fizesse qualquer coisa mais interessante.

Sabe o que foi que eu fiz? Ah, não sabe! Mas vou lhe contar. Peguei minha amada pelas mãos e fui para o Jardim Botânico comer pipoca, jogar comida para os peixes, correr atrás das borboletas. Sabe o que foi que aconteceu? Ah, não sabe! O zelador do jardim, o vigia cuidadoso, ao nos ver ali, debaixo daquela chuva intensa, correndo de um lado ao outro tentando pegar os pingos de chuva, imaginou que se tratava de dois malucos foragidos de um manicômio. Não teve dúvida... Chamou a polícia que nos levou para a delegacia. Fomos felizes da vida. De mãos dadas, sentados no chão do camburão que mais parecia um caminhão de carregar bichos. No meio do caminho a policial olhou para o seu colega e disse: __Coitados, tão jovens e tão loucos!!!

Aquela foi, sem qualquer medo de errar, a nossa melhor viagem.

Se você não sabia que sou doido, agora ficou sabendo. Se você não sabia que o homem apaixonado é mais louco que os outros, agora ficou sabendo. Se você não sabia que o amor é um desejo, agora ficou sabendo. Infelizmente, na delegacia, perceberam que a nossa loucura estava diretamente ligada ao “sopro da vida”.

Quando fui saindo da delegacia, olhei para o delegado e disse: “sinta-se convidado ao banquete de Platão. Ainda que não saiba definir o amor, que sorva cada gota de seu néctar, experimente de todos os seus pratos e participe da alegria dos presentes”.

Abraços,
Pedro Cardoso DF
Enviado por Pedro Cardoso DF em 10/11/2006
Reeditado em 13/11/2006
Código do texto: T287575
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Pedro Cardoso DF
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 68 anos
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Pedro Cardoso DF