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Carta a um pai ausente

Carta a um pai ausente
Pai,
Quando eu cheguei você não estava lá. A pessoa que me acolheu me deu colo, carinho e alimento. Muitos já me aguardavam, mas não senti a sua presença naquele momento tão caloroso. Ali, todos já sabiam o meu nome, vi logo que era querido. Fui bem instalado num lugar muito especial da casa, uma leve   fragrância de flores do campo fazia daquele quartinho o meu porto seguro, mas você também não estava lá. Corri os olhos em cada canto, tinha sempre a estranha sensação de está procurando algo, mas logo a bondosa mulher que me recebeu enchia-me de carinho fazendo com que afastasse qualquer coisa que pudesse vir a me fazer sofrer. Durante dias recebi muitas visitas. Todos me olhavam com admiração, achando-me bonito, saudável e parecido com você, meu pai. Algumas daquelas pessoas perguntavam: " E o pai?" Minha protetora logo respondia que eu não era bem vindo para você.
 Ouvia tudo aquilo calado, não podia manifestar a minha dor pela sua rejeição. O tempo todo ficava me perguntando como poderia ser rejeitado se eu mesmo nem sabia como vim parar ali?!
O tempo foi passando... A cada dia ia me acostumando com tudo e com todos que me cercavam. Em nenhum momento me senti desprotegido. Porém, aquela sensação de que me faltava alguma coisa, continuava  incomodando. Chegou o meu primeiro dia de aula, você não estava lá... A minha primeira comunhão, você não esta lá... Minha formatura... Você também não estava lá!
Muitas vezes chamei por você meu pai, sempre falei para meus amiguinhos que iria chegar. E não falava da boca pra fora, tinha certeza que em algum lugar você deveria estar e a qualquer momento poderia aparecer no portão da escola.
Já homem feito,  enfrentei algumas dificuldades, ganhei e perdi amigos, sofri por amor, causei sofrimentos a outros, lutei e relutei. Em nenhum desses meus momentos você esteve lá. Contudo, o pedaço que me faltava continuava a incomodar.
Meu pai, mas a dor maior ainda estava por vir, a minha querida protetora, a minha mãe, de tanto lutar para cuidar sozinha da minha vida, acabou esquecendo-se de cuidar da sua. Um mal de saúde tomou conta do seu ser,  não demorou e Deus a levou para sua companhia. Foi o dia mais triste da minha vida meu pai, e novamente você não estava lá.
Sozinho, sem rumo, sem pai e agora sem mãe. Foi assim que me vi. Mas aí, o tempo mais uma vez colaborou comigo, minha convicção em vencer na vida me levou a conhecer uma pessoa maravilhosa, a mãe do meu filho.
Resolvi escrever- lhe esta carta porque hoje nasceu o meu filho, este é o dia mais feliz da minha vida, e de novo você não está comigo. Sabe pai, aquela sensação de que estava sempre me faltando algo, continua. Por isso meu querido  pai, peço-lhe, se algum dia ler esta minha carta publicada em algum mural, pense no vazio que foi a sua vida lhe faltando este pedacinho, eu.
Tenho  certeza meu pai, que sempre há tempo para se arrepender daquilo que não fizemos. Volte, te aguardo de braços abertos, não gostaria de ver o meu filho com a estranha sensação de estar sempre faltando alguém em sua vida, o vovô.



PS: Dedico esta carta aos meus inúmeros alunos que sentem esta estranha sensação de que lhes falta algo, o pai.
Renilda D Viana
Enviado por Renilda D Viana em 11/08/2011
Reeditado em 11/08/2013
Código do texto: T3154660
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Renilda D Viana
Iraquara - Bahia - Brasil
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Renilda D Viana



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