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FICAR VELHA ATÉ QUE É BOM, MÃE

ESCREVI ISSO PARA MINHA MÃE E BOTEI ALGO LEGAL LÁ NO SITE A RESPEITO... PASSEM POR LÁ. VOCÊS VÃO GOSTAR
BJOS
D

Mãe,
  Acho que estou ficando velha. Lógico que isto é mais que óbvio. O tempo não perdoa e passa para todos nós. É a segunda coisa mais democrática, chega para quase todos. Mais democrática que o tempo é a morte, que não se esquece de ninguém. A certeza da velhice que vem vindo aos poucos (às vezes, muito mais rápida do que desejamos) não foi anunciada por rugas, por doenças, dores ou algo assim tão físico. Anunciou-se com uma repentina compreensão de você e de meu pai. Compreender mais facilmente coisas que, jovem, eu não alcançava. Compreender a importância de ter pai e mãe.
Esta certeza chegou ontem feito um tapa, junto com uma gripe dos diabos. Junto com a gripe, febre e dores por todo o lado. E uma vontade imensa, mãe, de comer aquelas montanhas de coisas que você traz quando a gente fica doente, acompanhada daquela cara de falsa brava, que esconde tua preocupação e dando a bronca de sempre: “Também, você não se alimenta direito, menina...Quando é que você vai largar esse cigarro?”
Ontem, mãe, tudo que eu queria era me esconder da humanidade embaixo do cobertor. Exceto de você, mãe. Tudo que eu queria era ficar no seu colo. E comer a sua comida, que só o cheiro já cura a gente. Foi aí que pensei: estou velha, mesmo. Porque a grande verdade, mãe, é que a gente só sabe como é bom ter mãe quando vai ficando velha. E quando a gente já ficou mãe também e repete com teus netos quase tudo do jeitinho que você fazia.
Estou ficando velha, mãe. Mas fiquei imensamente agradecida pela velhice que aponta lá detrás da montanha dos anos que vem vindo, porque junto com a velhice detrás da montanha eu vejo o sol com a tua imagem.
Mãe, eu sou teimosa feito uma mula. Você e meu pai disseram isso a vida inteira. Empaco e sou dura de sair do lugar. Também tenho um geninho de cão, eu sei. Vocês também disseram isso. Mas tem uma coisa que vocês sabem, mas nunca me contaram: sou mole feito manteiga. Vocês nunca foram de muitas palavras e a gente tinha um baita medo de desrespeitar os dois porque era castigo na certa. Igualmente acho que não aprendemos a dizer com todas as letras o que vai dentro da gente, escondido junto com o respeito. Amo muito vocês. Viu mãe, ficar velha até que é bom...
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 18/07/2005
Reeditado em 18/07/2005
Código do texto: T35458

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai