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As Cartas

As Cartas

Talvez se você soubesse como me sinto, você não me abandonaria. Por tão pouco ou quase nada você deixou de me amar. Por coisas insignificantes que nunca te machucariam, mas que você levou tão a sério! Por minutos que deixaram uma lacuna em nossa existência. Por horas não contadas por você, mas, para mim pareciam uma eternidade. Por palavras não ditas ou porque foram ditas a mais. Sempre você tinha um motivo para desistir. Tudo era demais para você ou tudo era de menos. Quem sabe!
Eu já não saberia discernir qual seria exatamente a sua preferência. Porque desde a primeira discussão, o seu amor por mim morreu. Deixei de ser a encantada, o seu anjo ou a sua amada. Mas o que importa tudo isso agora?
Talvez, o primeiro olhar já tenha sido uma falha. Para mim foi algo encantador! Algo que me tocou profundamente, mas para você foi só um lapso de tempo. Uma cena repetida milhares de vezes por outros, que no momento coube a nós vivê-la. Quando você chegou e olhou para mim foi como o vislumbre da perfeição, mas, para você foi algo que calhou de acontecer naquele momento.
O seu jeito de levantar a cabeça lentamente para poder focalizar-me de frente deixava-me toda arrepiada! A sua maneira de andar quando me via e vinha em minha direção, era estonteante. Parecia-me que você flutuava numa camada de ar que o impelia para frente, sem ao menos tocar o chão. Porém, para você eram mais alguns metros que teria que andar. Era só a distância que nos separava.
Ao atravessar a rua você segurava a minha mão. Para mim esse ato era mais que um contato físico, era a troca de energia fazendo-se entre duas pessoas. Era a sensação de contato de uma parte que se aderia a outra se tornando uma só. Era o pulsar de suas veias em contato com as minhas, fazendo-me sentir viva. Para você não passava de um gesto de proteção, livrando-me do tráfego. Até o ar que respirávamos para você era algo simplesmente necessário. Para mim era a dádiva da vida, o fluído que tinha saído da boca de Deus.
Nos seus pequeninos gestos, eu podia sentir seu estado de espírito, do momento. Enquanto, esforçava-me ao máximo para demonstrar o que acontecia em meu coração, mas você nunca notou. Eu bem sei que houve um momento na vida em que você me amou. Não sei se você lembra-se disso. Mas eu lembro-me. Como me lembro! Esse momento está guardado numa redoma em meu coração. Ele penetrou em minha alma, invadiu meu espírito, tomou conta do meu ser. Ele fez-me feliz que valeu por uma eternidade. Talvez a quantidade não seja necessária estar presente, mas, sim a qualidade. Esse momento eu senti que foi perfeito. Foi imaculado, foi divino! Por ser tão puro, ele jamais aconteceu de novo. Tenho certeza disso.
Muitas vezes você chamou-me de sentimental. Eu sei que me lancei de corpo e alma em nosso relacionamento. Mas era tudo o que eu queria. Nunca fui de exigir muito, contudo, no pouco que eu tinha, eu queria o melhor. Naquele momento você era tudo o que eu desejava. Cheguei a abandonar muitas coisas que até então tinham sido prioridades em minha vida. Ou assumi comportamentos que jamais imaginei que assumiria, mas tudo para você e por você. Esqueci-me, anulei-me e até desisti de ser quem sempre almejei para te dar espaço. Agora eu me pergunto: Valeu a pena? Não saberia dizer! Se pudéssemos contar os minutos de felicidades e de tristezas vividos juntos, penso que o último ganharia com grande vantagem. Mas mesmo assim eu não trocaria um minuto de felicidade com você, por um ano vivido com outro. Mas por quê esse sentimentalismo agora? Não sei, talvez porque quero esquecer-me de você. Ou quem sabe fazer um play-back de tudo o que aconteceu conosco e nada mais! Mas, eu tinha que te escrever! Para você saber.
...Eu parei no tempo! Sentia-me estático, sem ação. Algo estava acontecendo que eu não queria admitir. Uma sensação de abandono tomou conta de mim. Sentia-me machucado e ferido por dentro, como se algo tivesse sido arrancado de mim.
Talvez, eu nunca tenha dito, mas apaixonei-me por você desde o primeiro olhar. Às vezes eu queria desesperadamente ficar olhando para você, mas, minha timidez impedia-me. Quando levantava a cabeça para olhar para você, seus olhos encontravam-me eu ficava sem ação, estático no tempo. Todas às vezes que eu ia encontrar-me com você, tinha a impressão que você era um anjo à minha espera.
Sei que muitas vezes eu te magoei. Não fui quem você desejava que eu fosse, mas, sempre te amei! Estou ciente que você abriu mão de muitas coisas por mim. Você pode até pensar que eu nunca notei, mas, sempre percebi seu sacrifício, sua bondade, sua dedicação.
Muitas vezes te chamei de sentimental, mas no fundo eu te invejava pela capacidade de expressar seus sentimentos. Coisa que eu nunca faria, talvez por medo de você me achar fraco ou medo de perder o controle. Quantas vezes eu tive vontade de dizer que você era tudo o que eu desejava, mas, faltavam-me palavras. Se eu tivesse dito para você o que acabo de escrever, tudo poderia ter sido diferente. Oh como poderia ser diferente! Analisando, agora, eu diria: que o caminho poderia ser plano. A estrada, uma reta só e o sol não tostar minha pele. A noite não ser tão negra e o céu estar coberto de estrelas. Tudo poderia ser diferente! Se eu pudesse contar com você, ainda que nas pequeninas coisas, já seria o suficiente. Você me traria um copo de água. Ajeitaria meu travesseiro. Colocaria um cobertor sobre minhas pernas, sentaria ao meu lado, tomaria a minha mão e sorriria para mim. Tenho certeza que a noite já não seria tão negra. Eu deixaria de ouvir o vento gemendo, as portas batendo, o frio entrando e tomando conta de mim. Eu poderia até ler seus pensamentos! Entender a linguagem de seus olhos, ler nas entrelinhas do diálogo não dito, tecer a trama do seu pensamento. Sim, eu poderia aconchegar-me ao seu lado! Eu colocaria minha mão em seu peito, sentiria seu coração palpitar e poderíamos dormir desse jeito. No transcorrer das horas, nossos corpos aquecendo-se, nossas almas entrelaçando-se, nossos lábios unindo-se, nossos corpos se fundido. Tenho certeza que eu poderia vencer, se tivesse você!



Ester Machado Endo

mendo
Enviado por mendo em 13/02/2005
Código do texto: T4294
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Sobre a autora
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