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Cheguei aqui com dois corpos e estou na disposição de acabar com eles, um é o papel dum heterónimo outro terá sido o meu próprio papel. Liberto dos papeis, fico apenas com a alma e passo a assinar com um novo nome. Mantenho apenas o mais recente dos meus conhecimentos, já é histórico.
Do que me sobrou faço o que me apetecer, começo por não queimar nada, deixo arder a memória. O que te escrevi ontem serve-me para hoje começar vida nova.
OCEANO ATLÂNTICO
É natural que queiras saber como te vejo, desde já te aviso ires ficar desiludida. Nada acrescento ao que sei de ti, és mãe. Estás marcada pelo destino por ti escolhido ou inventado, quiseste ser mãe. Procuraste a inseminação artificial, não querias com a criança ter de ter um pai para ela e um homem para ti.
Assim foi, mandaram-te deixar de tomar a pílula e marcaram a consulta seguinte a dois meses de distância. Por essa altura aproximaste-te do marido duma amiga, com ele fizeste um filho. Na consulta o médico reconheceu já não necessitares dos seus préstimos de ensiminador artificial, quiseste pagar e cobrou-se apenas da consulta, mesmo se te forneceu os documentos necessários para teres filha só tua.
Não consegues agora prescindir do pai da filha, ele aceita a situação com naturalidade, a filha parece reconhecê-lo... embora pouco se vejam. Ele e a mulher também têm filhos, primeiro um, agora já são dois, adoptados. A vida passa a correr, eu também já te conheço à quinze dias e sou o amigo íntimo com quem dormes tendo de permeio uma enorme extensão de mar, o Oceano Atlântico.
Queres saber o que escrevi enquanto adormeceste ao meu lado?
A DANÇA
Nas tuas mãos é que sei para onde correm os rios, a geografia ganha corpo e o relevo do mundo começa a pedir a sua descrição de palavras capazes de nada dizer.
Entenda-se a descrição como um traço distinto, forma superior de afirmar uma presença onde o ritual não vive de hábitos, antes se procura na invenção duma resposta adequada a fazer sentir o interior dos gestos.
Dos gestos só a espessura das palavras me permite o escoar do silêncio em que te escrevo, escrevo a noite, escrevendo à noite.
Tenho no corpo o prazer muito de há pouco, é uma memória boa que agora deixo escrita de outro modo, dita onde se dita. Como se ditasse às mãos o movimento dum ditado, um bailado cujo fim não se rege por nada de mais presente, a presença do movimento... até fazer uma pirueta e parar - a dança - onde respiro a tua presença.
Amo-te para lá da razão, a razão não me chega, nunca me chegou e nem sei se a tenho: o que tenho ateio... como “uma tocha de fogo a arder”!
Ontem, se tivesse escrito, teria tido tempo para ser breve.
O CÃO E A GATA
O jogo do gato e do rato não serve, o jogo do cão e da gata é perfeito (sobre tudo se sobre tudo...). Eu sou o cão ela é o gato, eu deito e a minha gata vem me acariciar, ou, o cão pega a gata em qualquer lugar.
R
Francisco Coimbra
Enviado por Francisco Coimbra em 22/08/2005
Código do texto: T44284
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Sobre o autor
Francisco Coimbra
Portugal
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