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DELIRIUM TREMENS

Menino, 

Acabo de deixar-te para as asas do avião. As minhas permanecerão aqui imóveis, enquanto voas para o longe na geografia. Ainda que tentasses, não poderias voar para longe de mim, cuja geografia conheces perfeitamente e percorres sempre a passos lentos, saboreando a paisagem. É fato: não me agrada em nada a distância geográfica e acho a ciência uma coisa muito da burra. Por que, com mil milhas e distâncias, até hoje não conseguiram inventar um meio de nos teleportar fisicamente? Nesta minha ignorância científica, eu me teleporto constantemente, com todos os meus morros, vales e planícies para dentro de ti e vice-versa ( o vice-versa, então, é uma beleza).
Isto sem mencionar que, a despeito do que diz a tua amada Ciência, também prevejo o futuro. Antes mesmo que partisses, já previa claramente como seriam os dias por vir: sem sal, sem tempero. Já antevia as horas a (es)correr lentamente pelos números do relógio. Outra coisa em que deveriam pensar nossos dedicados cientistas: uma máquina que adiantasse o tempo para estarmos juntos ou que o paralisasse nestes momentos. Tu, sem nenhum acessório ou ajuda, fazes isso perfeitamente sempre que me tocas. E aí, pensar nisso, já me cria um outro problema: alguém terá que inventar algo que me permita desviar o pensamento. Estou com este vício terrível de pensar em ti todo o tempo e, sinto informá-lo, mas já penso logo com idéias pouco publicáveis. E o problema é este: temos aí à frente um período de dieta forçada.
Este tipo de dieta é extremamente pernicioso. Como minha tarja preta predileta e de uso contínuo, a suspensão assim repentina de minhas doses diárias de ti, estão a antecipar uma perigosa síndrome de abstinência. Já começo a sentir que meu humor vai ficar terrível e imagino que logo devem começar os delírios. Já me vejo sentindo tuas mãos na hora de deitar-me, teus lábios e todo o resto que nem vou mencionar sob pena de entrar na fase do delirium tremens.
Já que és o responsável direto por toda esta síndrome que me ameaça, recomendo-te fortemente que poupes todas as tuas energias. Pelo que já disse e pelo que já sabes, irás precisar de todas elas. E caso não as tenhas quando voltes, estejas preparado para voar pela janela.
A despeito do final catastrófico desta carta, amo-te. Sempre.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 26/08/2005
Código do texto: T45389

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai