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À Diretoria.

Prezados Diretores,

Já faz algum tempo que eu queria conversar com os senhores sobre o assunto que irei tratar abaixo, mas não tive oportunidade ainda, felizmente (ou infelizmente) chegou a hora.
Como sabem os senhores, tive alguns problemas familiares e estou muito próximo de concluir o curso (indicado pelos senhores), com o qual tenho aprendido bastante, e isso tem me mostrado excelentes oportunidades no mercado, além de finalmente estar chegando a hora de eu poder colocar em prática tudo o que aprendi.
Entendo que a diretoria já tem muitos problemas para resolver e para se preocupar, além dos aborrecimentos com alguns atrasos na entrega de determinados produtos e serviços do nosso setor, algumas vezes com razão e outras (a maioria) por desconhecimento de causa, mas antes de continuar e para evitar todo aquele ritual de reclamações e discussões que acontecem nesse tipo de situação, eu sugiro que os senhores se sentem, de preferência em um local confortável e arejado.
Sei que não apreciam muito ler textos longos, pois acham que é “bobagem” e/ou perda de tempo, porém eu lhes peço, por favor, para que leiam até o final, é do total interesse de vocês, acreditem.
Trabalhamos juntos há algum tempo e isso me rendeu ótimos aprendizados (e alguns traumas), que contribuíram inegavelmente para a minha formação como profissional e como pessoa.
Há uma série de coisas que eu venho tentando falar e demonstrar (sem sucesso) ao longo do tempo, porém a minha relativa incapacidade em lidar com pessoas (ao contrário das máquinas), não permitiu que eu a fizesse de forma adequada, e nessa carta tentarei resumir tudo, acrescentando algumas novidades (ótimas para mim e não tão agradáveis para os senhores e para a empresa).
Gostaria de começar ressaltando que as pessoas que trabalham na empresa não lhes respeitam como os senhores imaginam, elas têm medo - o que é bem diferente -, por isso não falam quando a “diretoria faz perguntas”. Sinto que eles (colaboradores) estão aqui pelo dinheiro e não porque acreditam e têm comprometimento com a instituição. A “rádio peão” dificilmente falha, se é que me compreendem.
As pessoas não gostam de ser tratadas como números, valores, custo, estatísticas e resultados, talvez seja essa a razão do descomprometimento, penso eu.
Percebo que todas as frases (visão, missão e valores) bonitas e bem elaboradas contidas nos folder's e nas apresentações eletrônicas da empresa, não foram (infelizmente) internalizadas pelos colaboradores e o pior: nem mesmo pelos senhores, os responsáveis pelo negócio. Uma coisa é pensar, outra é agir. A oração é importante, mas o que vale é a ação.
O que tenho aprendido no curso indica que a empresa está seguindo de maneira totalmente equivoca em relação ao caminho que deveria tomar, e isso poderá provavelmente levá-la à ruína dentro de algum tempo, todavia não serei eu quem irá mudar a forma de pensar dos senhores, pois os senhores sempre têm "uma velha opinião formada sobre tudo", já sabem “tudo", já fizeram algum curso, leram em algum lugar ou ouviram alguém comentar, o que é pior.
A outra questão é sobre a forma como são feitas as cobranças: "... E ai?... Está pronto?... Cadê?... Ainda não?...". E tudo regado a muita fúria e desdém.
Sem querer me passar por vítima (longe disso), digo que além de constrangedor, sim constrangedor, pois soa como se fosse proposital o atraso, para justificar algum erro. Além de a situação ser muito cansativa (e desnecessária) é, sobretudo desestimulante...
Já dizia uma pessoa bem mais sábia que nós que, o que faz realmente a diferença é a forma de se dizer e não o que se diz propriamente. Sugestão: procurem tentar abordar melhor, com um pouco mais de paciência e respeito, as próximas pessoas que vierem trabalhar para os senhores, já que nunca se sabem que motivos as levarão a deixar a empresa, e provavelmente será tarde para dizer: "... a partir de hoje nós vamos mudar...". É como num relacionamento entre homem e mulher, só se tenta adquirir uma nova postura ou se arrepende do que fez quando é tarde demais.
Com relação às novidades, comunico-lhes formalmente que fui convidado por um concorrente direto de vocês (em negociação já há algum tempo) para fazer algo semelhante ao que estamos fazendo, só que irei receber quase o quádruplo do valor que ganho aqui (trabalhando em casa e com visitas programadas periódicas à matriz), nada mais justo e proporcional ao conhecimento que detenho, ao título que estou preste a receber, às inovações que faço e à agregação de valor que sou capaz de oferecer, e digo isso sem falsa modéstia, pois nunca esperei para ouvir que sou "competente", os resultados falam por si. Já dizia um antigo compositor: “... quem sabe faz a hora, não espera acontecer ...”. Além do mais, eles (o concorrente) aceitaram a minha sugestão de trabalhar por projetos (como eu havia sugerido aqui há algum tempo, já que se trata de uma tendência do mercado) e estão abertos para colocar em prática de fato todas a sugestões que eu vier a dar como "orientador dos negócios" (previsto em contrato). Já me adiantaram 30% do valor total do projeto, e as notícias não param por ai, mesmo sabendo que o setor em que me encontro será em um futuro próximo o grande responsável pelo faturamento da empresa, vou “levar” o melhor e mais dedicado colaborador (os senhores sabem quem é) dessa área para ganhar pelo menos duas vezes e meio a mais do que ganha (mais participação), afinal além de conhecer boa parte do projeto e do negócio, ele também está precisando, não só de boa remuneração, mas de um pouco de reconhecimento pelo colaborador (com anos de casa) dedicado que é. Conversei com ele e o mesmo aceitou o convite de imediato. Deve conversar com os senhores em breve.
E por fim, gostaria de sugerir aos senhores que ouçam um pouco mais as pessoas, não importando quem seja, o grau de conhecimento que a pessoa possua, a cultura ou a idade que ela tenha, por mais que os senhores pensem que já sabem de tudo - e não sabem, pois ninguém é dono da verdade absoluta -, e que elas não tenham nada a lhes acrescentar, que saibam o que elas vão dizer, escutem, apenas escutem o que elas têm a dizer, esse é o meu último pedido, pois quem não sabe ouvir não pode ensinar e só serão verdadeiros líderes aqueles que são eternos aprendizes, e os senhores, estão parados no tempo, sem se reciclar...
Já tomei todas as providências com relação ao mencionado e por aqui vou me despedindo.
Agora que os senhores já sabem de tudo (literalmente) e devem estar decepcionados com a minha decisão, já posso dizer: a verdade é que as pessoas lhes respeitam sim (e muito)!; que a visão, missão e valores da empresa são ótimos, embora nem sempre possam ser colocados em prática; que a organização está no caminho certo, embora também necessite de ajustes, como qualquer outra; e que não há empresa concorrente nenhuma querendo me contratar e que eu não vou sair, embora receba alguns convites de outras organizações, porque eu gosto de trabalhar aqui, e mais do que isso, acredito no que faço; e que o melhor e mais fiel colaborador de vocês não vai para lugar nenhum, ele daria a “vida” pela empresa, porém às vezes parece que somente os senhores não percebem isso...
Escrevi tudo isso para tentar lhes mostrar que existem coisas bem piores e bem mais graves em potencial (podem acontecer), em uma organização do que o atraso de uma determinada parte do projeto. E se "permito" como coordenador da área que isso ocorra, é para que o resultado final seja o melhor para a empresa, mas principalmente para o nosso cliente, que é a nossa razão de existir.
Espero que esse texto traga aos senhores e aos que o lerem, além de "tormento e alívio", um pouco de reflexão sobre a “vida corporativa” e o comportamento pessoal.

Cordialmente,

Um futuro gestor que tenta se colocar no lugar dos colaboradores que pretende um dia liderar bem.

p.s.: Se eu não for realmente demitido por tentar lhes alertar como parceiro que me considero, e um dia os senhores quiserem conversar sobre os assuntos abordados, estou à disposição.
Anaxi
Enviado por Anaxi em 29/09/2005
Código do texto: T54843

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Sobre o autor
Anaxi
Fortaleza - Ceará - Brasil, 40 anos
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