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Fragmentos de uma carta anunciada #2

Não fosse ela a maior prova de afeto – essa tal de saudade, estaria eu ardendo de inconformismo.

Saudades da gente perambulando: sem objetivos e sem ter com o que se preocupar;
da gente na correria: com metas e tendo muito com o que se preocupar;
da gente na calmaria: com alvos atingidos e acostumados a ter com o que se preocupar.

Saudades da gente: da nossa hora e da nossa necessidade da gente.

Sol, aqui, também nasce às cinco, na mesma hora, mas vejo mais graça desse sol arvorando a ser dia não.
Gosto mais é da lua: durmo assim que ela dá as caras.

Minha alegria é não ter mais insônia.
Minha tristeza são os finais de tarde: doloridos.

Do que mais gosto é a correria desenfreada em que corro os dias.
Do que menos gosto é da falta de tempo para o gosto pela rede, pelo rádio, pelo tédio.

Tédio aqui só no domingo, um tédio que sufoca de tanta saudade sufocante.
Aí eu invento de fazer um exercício de afrouxamento de coração já que mar cá não tem: respiro fundo.
Encho o pulmão bem muito; quando solto o ar, ele vem tão rápido, tão urgente, tão ansioso que se mistura com um choro que eu quero chorar, mas que eu não consigo chorar.
Dói é mais.

Do que não tenho medo é os reencontrar.
Do que tenho medo é não voltar.

Eu estou tão assim, dentro de mim.
Cristina Carneiro
Enviado por Cristina Carneiro em 02/10/2005
Código do texto: T55871
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Sobre a autora
Cristina Carneiro
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
56 textos (2431 leituras)
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Cristina Carneiro