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O SOPRO DA VIDA TEM LIMITES

(— Ainda não me disse, SOU POETA, não estou preparado, ainda... Espero em breve. Por isso, não me cadastrei no Recanto das Letras. O soneto, eu o coloquei no comentário do teu poema Diálogo Marinho. Se puderes comentá-lo, ficarei grato. Reginaldo Costa, 03Out2005).

Reginaldo, amigo!

Ser poeta não é coisa de pessoalidade. Não é o próprio autor que se auto-cataloga, são os leitores, admiradores que vamos criando no decorrer do tempo. Alguns nunca terão rosto nem medida. Estás certo, em princípio. Deixa que os outros, como eu, reclamem a tua verve em poesia.

É só isto que estou pedindo. "Poeta nascitur, escriba fit", algo assim, diziam os latinos, ou seja, "o poeta nasce, o escritor se faz". É conceito de mais de dois mil anos, intemerato.

Mas não concordo no total, literalmente. Talvez os latinos quisessem sacramentar a tal de inspiração, cujo conceito popular enche a cabeça dos desavisados e dos diletantes, comprometendo a idéia que me parece mais correta, a de que é necessário muito estudo, exercício.  Aquilo que comumente se diz: fulano tem o dom de poetar. Vale dizer, tem pacto com o Divino. Auras de iluminuras ornam a sua cabeça...

Esta corrente sacramenta que o poeta é Criador e criado. Consagra-se, em princípio, a divinização do escritor, eleva-se o poeta aos páramos da divindade. Mitifica-se o pobre mortal. Mas isto tudo está, a meu ver, ultrapassado pelo tempo.

O poeta também “se faz”, porque não há como se chegar à METÁFORA sem muita leitura, dedicação e mediana inteligência. Sempre fruto sazonado de muita perseverança, além de uma entrega absoluta ao outro, ao coletivo.

A solidariedade é a pedra-de-toque. Só assim se respira a fraternidade, se haure o inconsciente coletivo. Luta-se pelo solidarismo.

Bebe-se na mesma fonte em que todos tomam a pureza e o medo. Até cicuta, como a engoliu Sócrates, na antiga Grécia. Com o veneno, ele se martirizava para a história, sempre dizendo “não” aos poderosos, aos que pretendiam dirigir os destinos do mundo de então. Ele cometera o delito de “lesa-majestade”, a discórdia nas questões de Estado.

Na verdade, como Getúlio Vargas no Brasil da Petrobrás, década de 50, Sócrates saía da vida pra entrar na história do pensamento humano, bradando por Liberdade.

Este sim, sagrado valor que, geralmente flui da boca dos verdadeiros poetas. Veja-se a estúpida morte de Federico Garcia Lorca frente às balas dos fuzis do Generalíssimo Franco, na década de 30 do último século. E já vão tantos anos... Tantas lições pra quem quiser ver e pensar...

Entendo que o Recanto das Letras (na escrivaninha individual de cada autor) é o local onde se pode exercitar, exercer a interatividade. Medir-se o gosto dos leitores, que ficam absolutamente livres para opinar, mesmo que fujam do exame mais percuciente, mais profundo. Mas a palavra é livre, sem limitações, democrático exercício.

Que bela juventude espiritual se fortalece pelo exercício da palavra, pelo exercício da fala, do dizer sem constrangimentos! Sem temores!

Para um país que lê, em média, menos de um livro/ano por habitante, e no qual, politicamente, a regra é o golpe, e a exceção é a democracia, que considerável avanço!

Pensa nisto, parece ser hora de "botar a cabeça pra fora do casco". Tartaruguinhas levam algum tempo pra andar e, para isto, precisam desnudar a cabeça ao predador. E o tempo não pára.

Mantenho o pedido feito com muito apreço, devido à qualidade do soneto de tua lavra.

Vocês, meus queridos oficineiros de Campo Grande, fazem parte de um grupo permanente de oficinação.

A Web (Net) é o instrumento, a grande sala de discussão. Depois do livro impresso, de Guttenberg, é o que há de mais importante para os condenados a pensar e a escrever. O livro é caro, de difícil aquisição, o virtual é barato e vai muito longe. Caminha-se por trilhas nunca dantes percorridas.

Modernizemo-nos, com pressa. O tempo urge.  Somos veteranos, o sopro da vida tem limites.

– Do livro CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre a Prosa e a Poesia, 2006.
http://www.recantodasletras.com.br/cartas/56156
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 03/10/2005
Reeditado em 21/05/2008
Código do texto: T56156
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709652 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 12:29)
Joaquim Moncks