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Querido,

"Saiba que nunca me perdoarei. A culpa de nossa separação é minha, seria injusto ao extremo responsabilizá-lo por tal atrocidade. Abandonei-o, não por não lhe ter mais amor, isso nunca!, mas porque formou-se tal abismo entre nós que jamais conseguiría manter-me fiel ao seu lado. O que me resta é observá-lo friamente, contendo minhas mais primitivas emoções, sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu esôfago, devidamente engolidas, e esperar que se vá e seja feliz com outra, que irá lhe ter amor, mas nunca tanto quanto eu.

Meu amor, vê-lo partir é a confirmação da minha inexistência. Fui fraca, fui tão mesquinha a ponto de deixá-lo! Se pudesse voltar ao passado, sei que nada mudaria - minha mentalidade é limitada demais e eu cometeria o mesmo erro, pois ele vive em meu cerne, indissociável. Esse erro que me atormenta faz parte de mim a ponto de levá-lo comigo até a morte - e é capaz que ele me leve à morte também. Não digo a morte literal, e sim a morte de espírito. Serei fraca, eternamente. A primeira prova disso foi lhe deixar, eu repito.

E o mundo também não nos vê com bons olhos, meu amado. Jamais aceitariam nosso romance, novamente. No passado, talvez gostassem do nosso casal, mas hoje, tudo mudou. Querem-me grande, casada, tolhida e mãe. Querem-me mulher. Querem-me... querem-me... querem em mim uma igual. Somente. E eu nunca fui igual a elas, meu amor. Você sabe disso.

Que ao menos permaneçam as memórias doces do nosso passado feliz, em que nos meus braços você repousava horas a fio, e eu, nas noites frias, apertava-o com mais força, protegendo-o, salvando-o.

Que aquela que lhe receber ame-o menos do que eu, querido, pois se amar igual a mim, ou até mais do que eu, sofrerá também igualmente quando ela tiver que se despedir de você.

E que você seja sempre feliz, meu amor,
A."

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- Amanda?
- Que foi?
- Você... esteve chorando?
- Nã... claro que não, mãe!
- Bom... pode me ajudar a levar a caixa do Bilu até o orfanato? É uma longa caminhada até lá.
- Eu... claro... já estou indo.
- Certo - A mãe lhe deu um sorriso simples, enquanto Amanda corria de volta à escrivaninha e amassava inteiramente a carta, não antes de escrever um PS ao seu destinatário:

"Eu sempre vou visitá-lo, Bilu, meu amor"

E correu de volta à sala, aonde a caixa do pequeno urso já estava embalada com os laços coloridos do Natal.
Clodí
Enviado por Clodí em 14/10/2005
Código do texto: T59607
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Sobre a autora
Clodí
São Paulo - São Paulo - Brasil
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