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Tanatologia

Embora já não seja surpresa para ninguém, ontem morreu o escritor que todos conheciam e acho-me no direito, mesmo diante das circunstâncias, em anunciar o que vi, já que passei com ele os seus últimos momentos e estive do seu lado no seu último suspiro.
O meu dever era estar com ele; para mim, era como uma tarefa de civilidade, mas, confesso, foi com estranheza que aceitei essa missão de estar ao seu lado em seus últimos momentos. De modo algum é natural estar ao lado de uma pessoa que, certamente - muito mais certamente que a lógica irrevogável da vida - morrerá, com um tempo e hora mais ou menos definidos.
Ele não me era totalmente estranho, mas prefiro não dar aqui as minhas impressões; ele próprio, no tempo que passamos juntos, não arranjou para si definição alguma; não era escritor, nem cientista, nem músico e nem pintor: agora era só humano... e morria.
Arrumei minhas coisas, uma quantidade pequena de roupas e alguns pertences, afinal, eu não me demoraria, mas por pena ou algum sentimento parecido, evitei pensar nisso. O meu lado cruel (ou realista) lembrou ainda de que eu logo voltaria ao lar e que a minha estadia ao lado dele seria bem curta.
Parti bem cedo, sem conhecer a localização exata da casa. Sentia medo... o meu espírito estava deprimido, esmagado por essa forte consciência do fim. Não pensava na morte dele, ou, antes, pensava na morte dele, mas via refletido em seu destino o meu próprio e inexorável futuro e isso me fazia pensar... Também achava estranho esse desejo. Deveria ser um homem sozinho. Nunca nos havíamos visto antes, mas, de alguma forma, eu precisava estar ali com ele quando tudo terminasse e por desejo dele, talvez para não se sentir sozinho, para ter alguém com quem conversar até que o tempo chegasse.
Achei a imensa casa de portas abertas e não havia ninguém, nem som algum e nem movimento... só um eco rebatia de volta o som dos meus passos enquanto eu atravessava com as malas por um longo e espaçoso hall. Esperava isso de um homem que morre; quase como por pressentimento, sabia que ele não estava na casa, pois eu não quererria estar dentro de uma casa se morresse. Fui para o jardim, onde era certo encontrá-lo e ele lá estava.
Para minha surpresa, embora eu sentisse muito tudo isso, ele era diferente do que eu imaginara. Estava sentado, cobria as pernas com uma manta, deixando umas chinelas aparecerem e era jovem. Quando cheguei sorriu um sorriso bonito, sem se levantar e sem dizer nada: já sabia, pelo visto quem eu era. Mostrou-me a cadeira em frente e só disse a primeira palavra depois que eu havia me sentado. Perguntou da viagem, perguntou meu nome. Falava baixo, sempre sorrindo, sempre o mesmo sorriso bonito que havia me mostrado antes de mais nada. Era um jardim ensolarado nesse dia.
A conversa inicial durou muitas horas, embora não tratássemos nada além de banalidades e o tempo corria frouxo, com alguns risos de ambos. Nenhum de nós falava sobre aquilo que ambos sabíamos muito bem. Ele sabia do seu destino, mas estava sereno e eu, ao contrário do que imaginei, mantive também a serenidade, mas não devido á minha natureza; era a constituição dele que havia me causado isso. O tempo todo me falou da vida, apontava para uma existência límpida, como se entendesse e quisesse me poupar cada segundo.
Todo o tempo que passamos, nenhum de nós tocou no assunto, pois não era necessário mais perder tempo com isso – agora eu entendia – e ele morreu numa manhã, ensinando-me também como morrer.
Henrique de Castro Silva Junior
Enviado por Henrique de Castro Silva Junior em 07/09/2007
Código do texto: T642061
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Henrique de Castro Silva Junior
Paracambi - Rio de Janeiro - Brasil, 38 anos
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Henrique de Castro Silva Junior