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A UM AMOR IMPOSSÍVEL

A UM AMOR IMPOSSÍVEL
 
 

Ao chegar na minha casa agora, trazendo o pensamento transtornado pelo seu beijo e furioso comigo mesmo. Conclui que para você, devo ter parecido bem tolo e pueril nesta noite. Senti-me um perfeito idiota.
Quando tudo que existe em mim impelia-me para você, quando os joelhos me vergavam de emoção e coração explodia e rebentava de tanto pulsar, quando me subiam aos lábios as palavras que eu, com força de minh'alma, desejava dizer-lhe, quando todo o meu ser, já não era senão a expressão de um desejo, de uma paixão avassaladora, fiquei mudo, corando de vergonha, sem querer me atrever a dirigir-lhe um olhar, a um gesto. Por isto, na luta entre o meu desejo e o meu respeito, venceu o desejo; e os meus lábios lhe furtaram um beijo. Agora, evocando-o neste silêncio, em vez de lhe pedir perdão, só anseio por lhe sacrificar alguma coisa, o que seja, a minha própria vida, contando que me seja dado tornar a beija-la. Se pudesse ver o que se passa em mim, se eu pudesse convence-la da qualidade do meu amor, talvez se mostrasse menos severa.
Quantas vezes esperei consolar-me, imaginando-a minha, somente minha! Sentia no meu rosto o milagre do seu, sobre os meus lábios a púrpura dos seus. Aconchegando ao meu corpo, o seu corpo palpitante, diabolicamente formoso. Saboreava a doçura de suas carícias e o meu pobre espírito dolorido sentia que se cicatrizavam todas as feridas, ao contato do bálsamo milagroso da sua ternura... Oh! A palavra humana é tão pobre para exprimir o que eu sentia – para deixar entrever pelo menos um reflexo da felicidade inefável que gozava – que renuncio a ela, como desisto de descrever o desespero do amanhecer em que todos os sonhos se esfumam e a realidade zombava impiedosamente da minha pobre mente, enferma de ilusão.
Queria então esquecer, aturdir-me, não pensar mais. Peço a misericórdia de um instante de paz, de calma, de esquecimento. E tudo que penso e faço, é em vão. Tenho a sua imagem estereotipada na retina, a sua lembrança gravada a fogo no coração, como uma dessas músicas que ouvida um vez, nunca saem do ouvido.
Oh! Minha querida! És uma feiticeira de condão perigoso, cujo poder mágico me transformou inteiramente. Nada mais existe dentro do meu peito, nada mais resta do homem que eu era ontem, das minhas paixões, dos meus afetos, das minhas ânsias, dos meus ódios... nada que não seja um desejo imenso, uma sede insaciável de você, uma angustia infinita de não ser minha, uma tortura de pressentir a vista do que ainda não vi, de imaginar o gozo que ainda não gozei.
Meu bem, minha amada, por você, pelo seu amor, pelo seu capricho, por uma das suas carícias, por um gesto seu, sinto ferver no sangue, o germe de todos os heroísmos e de todas as abjeções. Por você poderia ser um santo, ou um criminoso, porque a minha carne é sua como a minha alma. Oh! Se me amasse um pouco, se pudesse acender na sua alma a chama de um afeto, com que gozo eu arremessaria a ela para avivá-la e como holocausto, daria toda minha vida.
Não quero continuar. Sinto que enlouqueceria. Adeus! Perdoa-me se não soube como trata-la. É que a sinto tão minha, como se me pertencesse por direito, é como se você me fosse dada por Deus.

 
tancredo
Enviado por tancredo em 29/10/2005
Código do texto: T64999
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Sobre o autor
tancredo
Valença - Rio de Janeiro - Brasil, 76 anos
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