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A SAUDADE É IMENSA

A SAUDADE É IMENSA...
(Ivone Carvalho)

Não sou melhor do que ninguém, mas tenho que reconhecer que o Nosso Pai e Criador me privilegiou com muitas bênçãos que nem todos receberam.

Materialmente, nasci pobre, na verdadeira acepção da palavra. Um quartinho alugado, pago com muito sacrifício, foi a minha segunda moradia. A primeira, claro, foi o ventre materno.

Papai havia chegado em São Paulo, vindo de Visconde do Rio Branco, interiorzão de Minas Gerais, havia pouco mais de um ano, em busca da vida melhor tão sonhada por tantos brasileiros que acreditam que, longe de sua cidade natal, terão mais oportunidades de trabalho e de progresso.

Empregou-se logo que aqui chegou, mas o salário era aquele que todos nós conhecemos para quem não tem estudos (ele estudara até o terceiro ano primário – e sempre teve uma letra invejável, diga-se de passagem!) e traz, como experiência, apenas o trabalho na roça e como balconista de um armazém. Mesmo assim, foi trabalhar numa grande empresa que lhe deu a oportunidade tão desejada para começar sua nova vida na cidade grande.

 Morava numa pensão e decidiu se casar pouco depois de ter conhecido mamãe, uma menina de 15 anos, por quem se apaixonou à primeira vista, como ele sempre afirmou, e por quem sempre viveu, dedicando um lindo e intenso amor, por toda sua vida.

Quando nasci, ele contava 26 anos de idade e mamãe, 18.

Não tenho lembranças do primeiro quartinho onde morei ao nascer porque mudamos de lá quando eu tinha dois anos de idade. E foi nessa nova casa, que então já possuía uma pequena cozinha além do quarto, que nasceram os meus dois irmãos.

É dessa casa que guardo as recordações da primeira fase da minha infância e são essas recordações que me fazem afirmar que a criança guarda na memória tudo que acontece em sua vida a partir dos três anos de idade, pois creio que posso relatar cada acontecimento daquela época que marcou a minha vida, inclusive alguns fatos ocorridos ainda antes dos meus três anos. Coisas simples, coisas complexas, detalhes tão pequenos que até hoje mamãe não se conforma de eu ainda me lembrar.

Mas não quero falar de mim. Abri esta tela, nesta madrugada, para falar de papai. Comecei contando que recebi Bênçãos, nesta vida, que nem todos receberam e aqui me referia, especialmente, à bênção de ser filha de quem sou.

Eu não teria como enumerar os tantos presentes que recebi de Deus, nesta passagem terrena. Foram muitos! Presentes maravilhosos que me colocam, sem sombra de dúvida, no patamar dedicado às pessoas privilegiadas. Sei que temos tudo o que merecemos, tudo o que escolhemos ou aceitamos viver nesta vida, em busca da nossa evolução. Também sei que o nosso livre arbítrio muitas vezes é usado de forma a não concretizarmos o que nos dispusemos a concretizar antes da nossa vinda.

E por ter convicção de que as pessoas que cruzam as nossas vidas, não cruzam por acaso, é que não canso de agradecer ao Criador por ter me dado a oportunidade de nascer no seio de uma família como a minha.

Percorremos caminhos árduos. Graças a Deus, nunca passamos fome, mas o pãozinho foi sempre dividido entre todos quando não havia possibilidade de comprar mais do que um. Assim também o ovo, o leite, o refrigerante que só aparecia em nossa mesa no dia de Natal, a fruta, o doce, o arroz.

E a pobreza era apenas material. Espiritualmente sempre fomos riquíssimos! As minhas raízes, consolidadas no fértil terreno do amor, da fé, da caridade, da fraternidade, da amizade, da ternura, da união, da honestidade, da verdade, do respeito, terreno esse adubado com a sabedoria aparentemente simples, mas, realmente, ímpar, dos meus pais, fizeram de mim uma das pessoas mais abastadas deste planeta.

E é dessa riqueza que necessitamos. É ela que nos dá felicidade, que nos permite a evolução espiritual, que nos permite olhar os nossos irmãos como seres iguais a nós, estendendo as nossas mãos, apresentando o nosso ombro, proferindo, às vezes, uma única palavra, mas capaz de remover montanhas! É ela que nos conscientiza de que nunca estamos sós, porque sempre existirá alguém que também nos veja com os olhos de ver, sem vendas, sem máscaras, sem hipocrisia, sem prepotência, sem qualquer sentimento menor, nos julgando inferiores.

Toda essa riqueza foi o tema do nosso último diálogo. Exatamente neste horário (02:50horas), há exatos dois meses (24/07/2007), Deus me permitiu falar sobre tudo isso com papai. Os aparelhos que o ajudavam a respirar mal lhe deixavam exprimir as palavras de concordância a tudo que eu dizia, mas eu as entendia. Ao seu lado, no leito daquele hospital, além de mim, apenas Deus e a corrente de amigos espirituais que o aguardavam para acompanhá-lo no caminho para a vida que continuaria em outro plano. Com certeza, dentre eles, também estavam meus dois irmãos que partiram antes para esperar papai no outro plano.

Nesse diálogo, falamos de Deus, da vida, da família, da união, dos amigos, do amor, da natureza, da bondade Divina que sempre nos protegeu, nos incentivou, nos deu forças, nos permitiu praticar os Seus ensinamentos, nos tornando melhores do que éramos quando aqui chegamos.

Eu sentia que papai lutava para não partir e não tinha dúvidas de que a sua maior preocupação era deixar aquela menina que ele amou à primeira vista, quando então ela contava apenas quinze anos de idade. Nem poderia ser diferente, pois era por ela que ele perguntava freqüentemente, quando consciente, durante toda sua permanência naquele hospital. Afinal de contas, foram cinqüenta e sete anos de um casamento sólido!

Nosso último diálogo, no qual ele era apenas o ouvinte, respondendo com os olhos e o aperto na minha mão, permitiu-lhe serenar e partir com a certeza de ter cumprido sua missão terrena e ter deixado frutos sólidos, pois a árvore por ele plantada foi regada com responsabilidade e amor. Essa certeza, somada à convicção de que a vida continua após a morte do corpo, o tranqüilizou. E isso eu vi nos seus olhos!

A saudade é imensa! O vazio machuca! Mas a certeza de que brevemente estaremos juntos novamente, me dá força e coragem para continuar seguindo o seu exemplo, como sempre segui, entregando às minhas filhas, a maior herança que ele poderia me deixar.

Agradeço a Deus pela família que me recebeu nesta vida e por ter me permitido, até o fim, dizer e tentar demonstrar, para o papai, o quanto eu o amo, o quanto sempre o amei, embora eu também saiba que ele nunca duvidou disso!

Que seu caminho seja sempre de Luz e que o leve para bem pertinho de Jesus!

E, quanto à mamãe, o senhor sabe, também, o quanto a amo e que cuidarei dela por mim e pelo senhor!

Até breve, paizinho! Eu o amo mais do que sempre consegui demonstrar, tenha certeza disso!


24/09/2007

IVONE CARVALHO
Enviado por IVONE CARVALHO em 24/09/2007
Código do texto: T665727
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Sobre a autora
IVONE CARVALHO
São Paulo - São Paulo - Brasil, 65 anos
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IVONE CARVALHO