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CARTA PARA AIRTON

Airton:

Não há nenhum caminho mais curto para tocar o coração de uma pessoa do que chamá-la pelo nome. O nome encerra a idéia. Quando alguém nos chama pelo nome, tem o caminho e a porta. E já que você   passou pela porta e entrou, percorra agora, junto comigo, algumas avenidas milenares.

A figura de linguagem que você citou faz parte da natureza do escritor. O escritor sente tudo em tamanho amplificado. Se tivesse que qualificá-lo,  eu diria, sem medo de errar, pelas duas vezes em que tive contato com seus textos,  que o Airton é uma pessoa de intensa cerebração ( de cérebro), de amplos e variados conhecimentos, de interesses ecléticos, e um domínio excepcional da palavra. Junte-se a isso a sensibilidade exacerbada e temos aí, no mínimo, um escritor.

  A riqueza que  você viu é derivada da dor. A minha e a dos outros. Não concebo um escritor que não tenha experimentado a dor. Todos os demais sentimentos são desejáveis, mas a dor é imprescindível. A dor nos identifica e nos aproxima.  A inspiração no passado deriva daí. Não creio que seja com a finalidade de aprender, mas de suportar.

 Estive em Corinto e as ruínas me contaram que, um dia, todas as angústias existenciais acabarão. Naquele lugar eu vi. Vi como poucos seres humanos conseguem ver. Sou uma pessoa de paisagens, mas a geografia humana me atrai muito mais do que a topografia. Caminhando por entre aquelas ruínas, senti falta das pessoas que viveram ali. Senti falta da brincadeira das crianças e do labor dos adultos. Senti falta dos velhos sentados nas portas, distribuindo sabedoria,  apoiados sobre os bordões. Sobre os bordões se encontra a síntese da existência. Um bordão é uma bengala. Uma bengala é um apoio. O apoio só pode vir do Alto. Há uma fase na vida, em que o apoio só pode vir daí. Estive em Corinto e as ruínas me contaram.

Quantas coisas as ruínas me contaram! Aquelas ruas por onde passavam as riquezas da Grécia antiga, também abrigaram os sonhos dos homens. Para onde foram os homens de Corinto? Os escombros das edificações estão ali. Mas as pessoas passaram. Para onde foram? Para onde foram os sonhos, as perplexidades, os problemas, as angústias e os medos?

Eles vieram todos para nós. Atravessaram os séculos e aportaram em nós. Depositaram sobre os nossos ombros uma carga atávica. Alguns,  recusam-se a levá-la. Rejeitam o legado, fecham  os olhos para o que existe de mais profundo.  Outros, voluntariamente, oferecem os ombros para carregá-lo.

Faço parte desse último grupo.  Em algumas manhãs, eu acordo e digo para mim mesma: “amanhece o dia em Corinto.” Essa frase, de alguma maneira, me conforta e eu cobro alento para prosseguir. Portanto, sinto decepcioná-lo, mas creio que existe sim,  uma postura nostálgica nessa inspiração. Os  personagens do passado me ensinam a viver, mas o que mais gosto de aprender com eles está em outra esfera. Na esfera de uma vida mais ampla, além desta dimensão.

Sou apaixonada pelo antigo porque o antigo me remete ao Alpha e o Ômega. Deus é antigo e é novo, é  ancestral e é futurista. Como não tenho acesso ao futuro, circulo pelo passado, na esperança de encontrar algum vestígio que me remeta diretamente ao futuro. Não ao futuro imediato, mas ao futuro apocalíptico e eterno.
 
Assisti a um filme onde o personagem principal ensinava a um jovem. Era um sábio. E ele dizia: felicidade é a jornada e não o destino. Mas o homem é um ser de destino. Ele tem dentro de si a ansiedade dos que almejam chegar. Há muitas necessidades dentro de nós, mas nesse momento, quero identificar duas que considero fundamentais: para viver, precisamos pertencer; e para morrer, precisamos ser destinados. Se pertencemos, nos inserimos, fazemos parte de um grupo social, nos identificamos,  e isso nos faz feliz, nesta vida. Mas se não nos destinarmos, perdemos a última finalidade.

Eu quero ser destinada. Para mim, ser destinada é mais importante do que pertencer. O destino é meu lugar de permanência. Pertencer é efêmero. Um dia, há muitos anos atrás, eu queria uma casa. E aí, como boa marqueteira, criei uma idéia muito feliz para convencer o Ivo a construir  a nossa casa. Eu disse a ele: “morar é verbo definitivo.”  E de tal maneira arredondei a idéia que nos pareceu a coisa mais excelente a ser feita.   Ele comprou a idéia e eu ganhei a casa, do jeito que queria. Mas aonde morar seria um verbo definitivo?

Certamente, não neste mundo. E de que maneira eu descobri isso?  Da pior forma possível!  Não há nada definitivo neste mundo. Tudo aqui tem o selo do provisório.  Desde então, pertencer passou a ser uma necessidade menor. Meu marido, às vezes,  diz em tom de brincadeira,( e eu sei que toda brincadeira tem um fundo de verdade),  que eu deveria ter sido monja porque gosto de viver isolada. E talvez eu viva mesmo em um monastério particular, ainda que circule pelo mundo dos vivos.

Para descontrair, para que você não pense que sou profundamente nostálgica ( só um pouco) quero manifestar  a minha alegria por ter encontrado o Recanto das Letras. Um lugar onde eu olho em volta para não dizer mais: “sou só eu, cadê os outros?” Se o mundo fosse um grande galinheiro, eu diria que o Recanto é uma incubadora de pintos, alguns maiores, outros menores, alguns com pena, outros sem pena, alguns resolutos, outros titubeantes, mas todos profundamente assustados, perplexos e alarmados com o mundo dos homens. Há uma indignação que nos é comum e a palavra nos liberta. Nessa incubadora existem aqueles cujas asas maiores oferecem abrigo. Um lugar quentinho, para nos abrigarmos do medo.  E para lá corremos todos. Aqui há um pouco de  riso e alegria, mas  há também  suspiros e ais. Por isso, creio que seria mais apropriado definir o Recanto como  a UTI de  um grande hospital , repleta   de agonizados e agonizantes. Não tem jeito, a palavra corta, fere, machuca e só salva e liberta quando é liberada. Nesse sentido, agonizamos, para nos salvar uns aos outros.

Às vezes, uma frase nos salva. Quando meu filho completou 5 anos fizemos para ele uma festa de aniversário. Nessa festa, ele ganhou muitos presentes. E entre eles, um  marcou a minha vida. Não pelo presente, mas pela frase que acompanhou o presente. Um menino o presenteara com um par de meias. E ele, na inocência de uma criança, abraçou o coleguinha e disse para mim: “olha, mãe, ele me trouxe um par de meias.” Foi só isso mas a entonação de voz fez o outro perceber o sentimento de pena. Então, para se defender, o que trouxera a meia disse: “É só um par de meias, mas tem um cabidinho.”

As meias estavam em um cabide. Até hoje, procuro nas meias um cabidinho. E sempre encontro. Seja nas situações, ou nas pessoas. Mas isso, só se consegue pertencendo. Pertencer é relacional, destinar é muito solitário.

Obrigada por analisar o meu perfil. Fernando Pessoa também foi analisado. E quando o material para análise estava muito amplo, ele não coube em si e precisou se desmembrar em outros personagens.

Espero que, de alguma forma, a riqueza que existe em mim, se misture à sua riqueza, e a minha miséria, e a sua miséria, saiam mais diluídas desse contato. Sei que assim será porque já está sendo assim.

Em tempo: não sei o que é uma mulher schubertiana. Mas Schubert além de gênio, não era meio louco?  Acho que sei o que é uma mulher schubertiana.  Sim, devo sê-lo. E que seja para a honra e glória do meu Deus.

Um abraço,  é bom estar com vocês.

Ana Maria



Ana Ribas
Enviado por Ana Ribas em 01/10/2007
Reeditado em 01/10/2007
Código do texto: T675627

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Sobre a autora
Ana Ribas
Cruzeiro do Oeste - Paraná - Brasil
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