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Carta a um decifrador de ideogramas

Seria possível que sua facilidade em decifrar ideogramas, tirasse de você a sensibilidade de entender pessoas?Creio que os traços finos sobre as folhas de papel pareçam de menos complexa dominação do que sentimentos humanos. O medo de mergulhar em uma alma por estar apenas acostumado a por os pés onde há terra firme, fazem de você uma pessoa incapaz de tolerar a si mesmo. Você tem medo de saber quem você é, você tem medo de descobrir o que realmente deseja. Será que não vê? Não adianta mascarar coisas que não se podem controlar. Está desgastando-se em vão, tentando encobrir as brechas visíveis que denunciem que você ainda é um ser humano. Sim, você é um ser humano! Existe sangue correndo em seu corpo, ar em seus pulmões, pele quente encobrindo seus músculos...está biologicamente vivo. Digo biologicamente, pois não consigo ver fagulhas de vivacidade em seus olhos, não sinto a febre, que nos acomete quando exaltados, vindo de você. Só vejo paixão quando fala do admirável mundo de ideogramas em que se trancou. Não o critico por sentir-se bem com o que faz, apenas queria que entendesse, meu caro, que existe um mundo lá fora esperando sua presença ansiosamente.
Mentiria se falasse apenas de como o mundo é interessante, mas até mesmo para que você amadureça e seja um homem de verdade, é preciso que passe pelas experiências que o mundo está aberto a oferecer. Tenha certeza de que mesmo a condição mais dolorosa, e aparentemente insuportável, refletirá em algo que nunca vai esquecer futuramente. Haverá espinhos, pedras, caminhos escuros; Existirão as marcas que o lembrarão de cada uma dessas intempéries, e junto com elas, novos capítulos para sua história.
Querido, não se tranque em sua fortaleza urbana, não se tranque em seu corpo fechado. Quantas vezes mais terei que dizer, não esperamos de você perfeição, desejamos apenas que livre-se dessa prisão que criou para si mesmo, e por hábito mau, acostumou-se a ela. Não precisará deixar sua vida de decifrador de ideogramas para isso; os seres humanos são capazes de fazer e serem muitas coisas ao mesmo tempo. O que faz concentrando-se apenas em algo único, gera um desequilíbrio não natural, tornando-se algo prejudicial e doentio.
Sei que não posso dizer nada sobre sua insegurança inata, mas creio que ela advenha de um costume maléfico de sofrer por antecipação. Você espera mais de si mesmo do que as pessoas de fora, por mais que esteja convencido do contrário. Sua preocupação em ser alguém enfadonho, indesejável e desinteressante, acabou forçando você a tornar-se cada vez mais evasivo, e de maneira corrosiva, fez com que os outros gradativamente fossem acreditando que isso fosse verdade. Não deveria nunca se esquecer que acreditamos naquilo que queremos acreditar, e só fazemos as pessoas acreditarem no que queremos que elas acreditem. Logicamente, somos mais do que meras aparências, mas se não for capaz de ver as outras verdades que existem em você, pouquíssimas pessoas sensíveis o suficiente, o farão. Eu sei, e você sabe também, que é muito mais do que a pessoa indiferente que aparenta ser. Você tem bons sentimentos, que transparecem em seus olhos quando não está preocupado em disfarçar-se. Por favor, não deixe que o costume de esconder-se, acabe fazendo com que você esqueça quem você é.
Eu sei, e você sabe também, existe algo muito maior esperando por você.

Ursel Schwartzinger
Enviado por Ursel Schwartzinger em 15/10/2007
Código do texto: T695617

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Sobre a autora
Ursel Schwartzinger
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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