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CARTA PARA ZENAIDE.

ZENAIDE:
Que sentimento delicado esse que me veio, quando  abri o meu livro de visitas e descobri que você passou por aqui. Passou por aqui uma pessoa cuja expressão de beleza é capaz de perceber as mudanças que o tempo fez em mim. O período A.D. P. e o período D.D.P.   ( Antes do Paulo e depois do Paulo). Na verdade, foi Deus quem fez, mas Deus é o dono do tempo , e Ele usou esse tempo para gerar luz, através de um caminho de densas sombras.

Minha vida tem sido um período de claras e escuras metades. Tem amanhecido e tem anoitecido milhões de vezes, em menos de 24 horas. Às vezes, amanheço no escuro e na medida em que o sol se põe, recebo a luz e tudo fica claro. Outras vezes, ocorre o contrário.  Sou  luz no dia, e sombra na noite. Tenho usado a luz para ser um pouco feliz para mim,  e a sombra para compartilhar com os outros a parte eficaz do meu sofrimento.

Percebi que os períodos de sombra me fazem mais produtiva. Ser feliz para mim mesma é um processo um pouco egoísta, porque a felicidade pessoal nos absorve tanto, que o umbigo passa a ser o alvo das nossas mais infrutíferas divagações. Na sombra, rompemos a casca do ovo, deixamos de viver em torno de, aprendemos a transitar o caminho íngreme da verticalidade,  abrimos à força uma fenda  que nos faz espiar uma nesga de céu.

Descobri que o sofrimento é uma escada. Uma escada que permite a  Deus descer à terra dos homens.  E  permite aos homens subirem alguns degraus para estar mais perto de Deus.

 O sofrimento transcende e nos eleva a  um lugar intermediário entre a terra e o céu. Creio que foi isso que  o apóstolo Paulo quis ensinar, quando a divina inspiração o levou a registrar o conhecido versículo:  “quando sou fraco, então é que sou forte.”

Sem a dor, o mundo teria menos de Deus, e o céu teria menos dos homens.  Sem a dor, os sofrimentos de Cristo, de Maria, dos apóstolos, dos profetas,  seriam cada vez  menos lembrados. Sem essa lembrança, terapêutica e didática, a alegria imediata e o prazer momentâneo seriam a marca da escola do mundo. O “modus operandi” de todos os homens.

 Mas Cristo veio para marcar o mundo com a vergonha da cruz. E a vergonha da cruz nos faz mais humildes e mais dependentes da graça e da misericórdia de Deus.

 A verdade é que o mundo sofre dores de parto e precisa sofrer para fazer nascer o Cristo subjetivo, aquele que não quer ficar restrito ao  céu, mas quer habitar em cada coração.   Um Cristo coletivo não produz muito resultado. De que nos serviria  ter um Cristo exclusivamente no céu , na hora mais dolorida da nossa humanidade?  Não! Cristo precisa estar aqui conforme Ele prometeu que estaria,  até a consumação dos séculos. E tem cumprido a promessa, para aqueles que o recebem.

Há muita gente que sofre...! Mas o que fazemos com o  sofrimento de Cristo e com o nosso, o que fazemos com a mistura dos dois,  é que determina o resultado final da vida.

  Há os que sofrem,  mas usam a máscara do Arlequim. Vendem a idéia de que a vida é um eterno carnaval.
 Há os que se especializam em esconder os vestígios das emoções, sob grossas camadas de maquiagem.
Há os que apagam as pegadas tortas da vida, deixando só as evidências de um caminho reto, plano, sem curvas.
Há os que  camuflam  os menores vestígios do infortúnio, por causa de um orgulho desmesurado.

 É uma opção de vida, mas é uma opção menos útil à obra que Deus tem para realizar na terra.  E o homem que aceita tornar-se menos útil à  Deus, corre o risco de tornar-se inútil para Deus.

Por isso, decidi que se tal dor me foi concedida, tal dor que eu nunca desejei,  mas me foi  conferida, essa dor deveria ser consagrada ao serviço de Deus. Escancarei, joguei a máscara fora, assumi o fato de que, quer eu queira, quer não queira, tornou-se irreversível: sou uma mulher de dores. Está escrito na minha cara, no meu sorriso, no meu olhar,  na minha escrita, no meu jeito de ser feliz em doses homeopáticas.

É possível ser feliz, sendo uma mulher de dores? Claro que sim. Agora mesmo estou imbuída de uma sensação de felicidade que me faz desejar abraçar todos os seres do mundo. Principalmente, aqueles que sofrem. Sei que  você é uma mulher que sofre e que, em seu sofrimento particular, existe a submissão aos desígnios inescrutáveis de Deus.

Esses dias conversando pelo MSN com uma amiga que passou por idêntica situação, contei-lhe a minha escolha pessoal a respeito da dor que nos é comum. Ela me disse, bem humorada, que ninguém jamais verá uma lágrima em seu rosto, mesmo que ela “trupique” na rua e perca a unha do dedão do pé, sem anestesia. Ela é uma pessoa forte, forte, forte. Que eu amo, independente dessa  aparente fortaleza. Às vezes, eu desejaria ser como ela. Mas do estofo de que fui feita, não há lugar para a dureza do aço. Então sigo, sendo essa mesma que sou.

É uma escolha ou um destino? Não sei.  Só sei que  Deus precisa de homens e mulheres que assumam o sofrimento, sublimando a sua presença sobre o sofrimento. O sofrimento sem Deus é inútil. Deus deseja ser reverenciado sobre todo sofrimento, Deus necessita estar acima do sofrimento, Deus carece ocupar um  espaço grande, profundo e permanente na criação de qualquer evento, objetivo ou subjetivo. Sem isso, Deus não tem caminho para atuar.
 
Na criação do mundo, o registro: “ Havia trevas sobre a  face do abismo e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.” Trevas, abismo, águas e Deus. Nada parece ser mais dissonante aos olhos humanos, e no entanto, assim  não é, aos olhos de Deus. Deus se move sobre o abismo, guarde bem isso que estou lhe dizendo agora, de uma forma pessoal. É palavra Rhema e  o Espírito de Deus lhe dará entendimento em tudo.

No abismo e nas trevas, Deus se move.   Nada pode deter o mover de Deus.  Deus é mais, sempre mais. Deus é mais do que a dor, Deus é mais do que  a morte, Deus é mais do que a tristeza, Deus é mais do que a maior das frustrações,  Deus é mais do que os  sonhos de felicidade, daquela espécie de felicidade que o humanismo valoriza tanto. Deus é mais.

E porque Deus é mais, tenho sido feliz como me é possível ser, em períodos de luz e sombra. Na luz, Deus resplandece em mim, nas sombras, eu desapareço enquanto Ele aparece,  e dessa forma, juntos, temos feito uma parceria que dura as 24 horas de um dia que nunca acabou.

Porque  aquele dia, nunca acabou. Sei que aqui na terra  jamais vai acabar. Mas Deus é mais do que  aquele dia. E porque Deus é mais, criei alguns mecanismos de defesa, para me fazer lembrada dessa Presença que é mais.

  Entre esses mecanismos, está  esse site.

O que escrevo tem feito bem a muitas pessoas, inclusive a mim. Às vezes, escrevo para mim. Tanto já foi escrito nesse mundo e, tão bem escrito, e no entanto, constatei que o que me foi dado escrever,  ainda faz falta.  Aqui do meu “monastério particular” procuro escrever como se estivesse falando com uma única pessoa. Como se ela e eu, estivéssemos sentadas no sofá de casa. Procuro a individualidade no coletivo. Porque a dor  é única, mas é também universal.

Este é  um site para glorificar a Deus até nas linhas que denunciam a tristeza, a saudade e a perplexidade . Que Deus me livre de tudo o que seja fútil. Tenho medo da futilidade porque  me conheço um pouco e percebo que gosto  da glória dos homens até quando digo que não a desejo para a minha vida.  Que Deus me perdoe por isso.

 A minha oração a Deus é para que,  cada pessoa que entrar aqui, perceba não somente a mim, mas o Deus que habita  em mim.

Obrigada por você ter existido de forma eficaz  em minha vida, num tempo tão necessário. Obrigada pelo carinho que sempre me devotou.

Que a lembrança de tudo quanto vivemos juntas, seja forte  e bela como  a  vida.  Que a nossa  fé comum nos faça viver, nestes últimos tempos, sabendo que morrer é apenas andar um degrau acima da pedra, da dificuldade, dos obstáculos. Não é tão difícil assim, porque  Deus está conosco.

  E nesse sentido, que Deus nos permita morrer um pouco a cada dia. Para que aquela hora não nos encontre vivas demais.

E que assim seja, porque efetivamente assim o é.

Abraço você nesse instante com toda a força do meu sentimento.

Ana Maria.
Ana Ribas
Enviado por Ana Ribas em 16/10/2007
Reeditado em 16/10/2007
Código do texto: T696169

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Sobre a autora
Ana Ribas
Cruzeiro do Oeste - Paraná - Brasil
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