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Carta de Camille Claudel ao sr. Rodin, por intermédio de Piazzola


Já corri em círculos. Repetidos, incessantes. Vejo tua face a cada segundo. Cada vez maior. É preciso que eu grite agora ou nunca mais o farei. Ridículo é aquele que se esconde de si mesmo. Aqui estou!!! Não vês?! Não vês que me roubaste a vida pouco a pouco? Que deste em troca a superfície do que já não tinhas? Estou farta. Enfartei-me de ti. Meu coração não suporta mais. Vou gritar à sua porta até que me escute. Pra que os vizinhos escutem. Pra que o teu publico escute. Quero vaias! Ladrão! Direi alto. Pra que minha voz percorra tua cama, invada seus sonhos, transforme em pesadelo. Vou dizer. E não poderás fugir. Tão alto que não poderá se esconder. Que não poderei me esconder de minha própria dor. Farei com que perceba o mal que fizeste. Estas cego e só enxerga a ti mesmo. O espelho só reflete tua imagem. Estou cega e perdi-me por detrás dela. Agora escuta! É como a geada que destrói todo o verde, sugando a vida, pouco a pouco. Cruel. Assassino de alma. E eu que dei tanto! E eu que dei tudo. Até não restar mais nada. Criminoso. Egoísmo sanguinário.
Vejo as pessoas que te cercam, rostos felizes, cores. Vejo teu sorriso. Odeio teu sorriso! Odeio a cor que tem! A cor que era minha! Por que fizeste isso comigo?! Os senhores são capazes de enxergar que não sou eu?! É ele! Ele é culpado! E no entanto sorri, sua imagem intocada, admirada. Santo. Assassino! Cruel, calculista. Cínico. Esta aqui, não está? Responde! Que teu silencio é o que tens de pior. E este olhar calado! Que mais quer de mim?! Por que levaste tudo?! Porque não me levaste contigo também?! Se tenho tudo que podias precisar! Não haveria mais ninguém que pudesse tanto! Que o compreendesse tanto! Não haverá jamais. Ouve! Recusaste arrogantemente. Apaga este sorriso! Como pode ainda sorrir sabendo da destruição que causaste?! E foi apenas você! Não se isente, não podes! Percebe! Percebe a culpa que te cabe! Assuma. Se entregue. Mas é tão claro! Percebe que não fui só eu! Que estive sim, porque quis. Mas poderias ter evitado. Não quiseste evitar. Preferiu o seu prazer. O seu e apenas seu. Tudo gira em torno de ti. Não quero mais rodar. Vou cair. Ainda resta tempo. Se quiser me segurar. Escuta agora! Ainda resta tempo se quiser me segurar! Antes que eu caia de vez! Olhe para mim! Não vês que nada poderia ser mais certo?! Como podes preferir não estar?! E eu que te amo?! E eu que entreguei tudo?! Era eu quem merecia! Era eu quem deveria...Não há mais motivos para fingir nada. Escuta! Vem buscar-me, por favor! Não posso mais ficar! Não posso mais rodar! Vem que ainda é tempo! Vem que ainda resta um facho de luz...Quando escurecer nem mais teu sorriso odiado verei. Nem mais teu sorriso tão amado.
Elle Henriques
Enviado por Elle Henriques em 23/10/2007
Código do texto: T706735
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Sobre a autora
Elle Henriques
São Paulo - São Paulo - Brasil, 31 anos
48 textos (2695 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/08/17 18:38)
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