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Lamento de Gaia

Lamento de Gaia

Eu inventei a gravidade para tê-los junto a mim, próximos ao meu seio, grudados no meu solo.
Criei os rios para limparem seus pecados e invariavelmente lançá-los anônimos nos oceanos, mas vocês os poluíram, represaram e egoisticamente prenderam-nos , deixando-os sem espaço, claustrofóbicos e doentes.
Disponibilizei a diversidade para apresentá-los ao conhecimento pleno , aproximando-os da divindade e vocês em vez de se irmanarem e procurarem o convívio harmônico, iniciaram uma luta sem fim pelo domínio ilusório, expondo-se a serem vencidos por bactérias e vírus que sequer possuem a capacidade de ver, muitos menos de entender e combater.
Gerei ambientes de testes para total adaptação em polos e desertos, preparei-os para situações limites, até mostrei-lhes a sapiência muda da hibernação.
Presenteei-os com praias cristalinas, ilhas afrodisíacas, montanhas mágicas e natureza exuberante, associei-me ao sol & a lua para ensinar-lhes o valor da luz e os mistérios da escuridão, alguns resolvidos nas sombras, outros não.
Fiz equilibrar a balança com a imensa variedade de espécimes , seus hábitos e ciclos alimentares diferentes, com sua adaptabilidade, habitats naturais, predadores e vocês, os caçaram impiedosamente, trocaram de ambiente, prenderam em jaulas mínimas, criaram clones, fizeram testes e experiências, brincaram de Deus e descobriram e extinção e desequilibraram irreversivelmente o meio ambiente.
Criei a camada de ozônio para protegê-los da inclemência do sol, mas vocês encheram-na de furos , mirando o céu e atingindo os próprios pés, expondo-se à radiações e doenças/consequências subsequentes.
Poderia ficar horas e horas falando de suas atitudes destrutivas, mas não posso mais perder tempo, estou definhando assustadoramente rápido, morrendo lentamente e se seus atos não podem mais me curar, pelo menos dêem-me uma morte digna e tentem prolongar minha existência , afinal, sem mim, vocês perecerão junto pela absoluta incapacidade de sobreviverem sem minhas benesses e concessões, embora eu, lhes tenha dado todos os recursos e meios para tantos, todos desperdiçados infantilmente.
A situação é desesperadora, mas talvez ainda encontrem na quase esquecida caixinha de Pandora, bem lá no fundo, alguém que ainda possa lhes ajudar , a invencível e persistente Esperança, agarrem-se a ela e não desistam antes  oúltimo suspiro.
Sinceramente, gostaria muito que tudo fosse bem diferente e vocês realmente soubessem desfrutar a melhor versão do Paraíso que pude lhes dar, eu deixei que usufruíssem do meu corpo, da minha alma e bebessem a minha essência, mas vocês só me profanaram, macularam e me cobriram de cicatrizes irreversíveis, numa inimaginável tortura, num imperdoável matricídio.
As tsunamis, tempestades e inundações recentes são só o jorro do meu sangue que não consigo mais estancar tal a quantidade de ferimentos.
Dói muito e o pior é que sem que ainda tenham se apercebido, vai doer mais em vocês.
Carinhosamente,
Gaia.

Leonardo Andrade
Leonardo Andrade
Enviado por Leonardo Andrade em 24/10/2007
Reeditado em 24/10/2007
Código do texto: T707683

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Sobre o autor
Leonardo Andrade
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