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Uma epístola para Ronaldo Torres   


Lavras, 25 de outubro de 2007

Ronaldo:

          Como sempre você publica um texto primoroso, mas tenho que confessar: lí porque era seu. As Epístolas, se fosse escrito por um desconhecido, não chamaria a minha atenção. É texto para gente versada nos Evangelhos. Não é texto para alcançar as cem mil postagens. Você conseguiria isso se tivesse colocado como título - Como escrever cartas anônimas. Seria o maior sucesso do Recanto. Essa é uma das coisas que tenho aprendido desde que abri a minha Escrivanhia. Mas, tal como você, não dá para fabricar títulos. Só consigo escrever o que realmente está em meu coração ( ou na cabeça, sei lá).Os títulos que coloco  não são lá tão atraentes assim  mas refletem a realidade do conteúdo.  
             
Um grande espanto: alguém ensinando como escrever cartas anônimas. E exatamente um jornalista chamado Gutemberg. Como o pai dele (ou a mãe) adivinhou que ele iria abraçar exatamente essa profissão, tão condizente com o nome? Fiquei uns minutinhos pensando que os pais, se fossem sábios, escolheriam para seus filhos nomes que já fossem pre-determinantes do destino. Assim, se alguém quer um filho médico, que o chame de Lucas, Esculápio ou Hipócrates. Se quer um filho político, pode chamá-lo, antecipando os fatos, de Hipócrita, ou de acordo com as últimas modas, de Renan. Lamento que meus pais tenham me chamado de Olímpia, viver em um mundo mitológico não dá muita renda. Gostaria  que meu nome fosse Gisele, pois se assim fosse, em vez de estar aqui digitando esta carta, estaria dando autógrafos.

            Mas a razão desta, o momento em que a idéia surgiu, foi quando comecei a ler o terceiro parágrafo de seu artigo: você pergunta se ainda se usa carta anônima. Respondo: sim, usa-se e muito.  Minha cidade há pouco tempo foi assolada por uma avalanche de cartas anônimas e sinceramente temo que isso volte a acontecer. No período eleitoral parece que vale tudo para se conseguir o poder. Tem um rapaz que trabalha comigo que está sendo bombardeado há uma semana por mensagens anônimas em seu celular. Pode não ser uma carta anônima, mas acredite, uma mensagem anônima faz o mesmo efeito. Ele está devastado.

          Eu sou uma grande escrevinhadora de cartas. Eu me tornei uma grande escrevinhadora de cartas desde que aprendi a usar o computador e a internet. Se você der uma olhada no meu diário  vai encontrar muitas cartas lá. Escrevo para todo o mundo. No entanto odeio escrever empunhando uma caneta, um lápis e até um giz. Esta minha dificuldade se tornou uma virtude: eu fui uma boa professora. Inovei. Nada de passar matéria no quadro para aluno copiar. Escrever a caneta? Nem pensar. Odeio letra feia e então para escrever qualquer coisa eu levo uma vida. Letra bonita e caprichada. Você vai conhecê-la quando eu lhe mandar um cartão de Natal. Que é  a minha única concessão ao manuscrito. Na datilografia, a coisa melhorou com a máquina de escrever.Mas  não resolveu o meu problema: errava, lata de lixo. A ecologia que me desculpe, mas eu destruí muitas árvores. Com o computador, eu estou no céu. Escrevo, corto, colo, corrijo, enfeito. E respondo as cartas que recebo. A minha amiga Tamar, adora escrever cartas manuscritas. Eu respondo por aqui. Você está certo sobre o cheiro. O cheiro é muito importante para as relações humanas, mas o que fazer? Perde-se aqui, ganha-se ali. Quando escrevo manuscritamente quero acabar logo. Como não consigo acabar logo porque fico desenhando as letras, escrevo pouco e não digo quase nada. Mas aqui! Aqui eu me realizo. Olha a letrinha que escolhi para escrever esta carta!. Quer letra mais feminina do que esta? É quase tão bonita quanto a minha. Não abrevio. Escreva as palavras por inteiro. E errando, você pode me apontar o erro que eu volto e corrijo. Mas, se a carta fosse manuscrita, o erro estaria indelevelmente marcado.Para sempre. Estou seguindo o seu conselho. Estou escrevendo uma carta, exatamente uma carta para você. Não sei se está aflorando a escritora que vive em mim, mas a escrevinhadora eu garanto que está. 

               De qualquer forma eu tenho algumas experiências com cartas manuscritas. Na adolescência eu escrevi muitas  para correspondentes estrangeiros. Em inglês. Sempre tive facilidade para ler essa língua, mas não para falar ou escrever. Então, eu vivia fazendo colagens. Tirava de uma e passava para outra. E também, já escrevi muitas cartas para os namorados de minhas amigas. Posso garantir, muita gente se encantou pelo que eu escrevia e se queixava comigo:Como ela pode ser tão diferente das cartas que escreve?Tenho histórias hilariantes para contar a esse respeito, mas a discrição me impede. Afinal, sei lá quem vai ler esta carta.  
           
           Você tem tanto tempo assim disponível? Eu não. Tenho dois trabalhos distintos para fazer e obrigações pessoais que as vezes consomem minha vida. Paciência eu tenho e pelo jeito você também. Mas a grana de tio Patinhas, para que eu preciso dela para me comunicar pela internet? 


                                              Um carinhoso abraço virtual
                                                             da
                                                                       Merô. 
                 

Maria Olimpia Alves de Melo
Enviado por Maria Olimpia Alves de Melo em 25/10/2007
Reeditado em 25/10/2007
Código do texto: T709976

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Sobre a autora
Maria Olimpia Alves de Melo
Lavras - Minas Gerais - Brasil
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Maria Olimpia Alves de Melo