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O Segredo da Vida

Depois de muitas semanas, a água voltava a cair diante dos meus olhos, escorregando pelo telhado da velha igreja de São Pedro. Lugar que em outrora serviu de palco para grandes missas e inúmeras comemorações, agora abandonado pelos seus fieis que diziam que o lugar nao era abençoado e que o mesmo era a razão de toda a discordia, o homem havia acabado com a vida dentro do templo, não havia mais brigas porque as pessoas nao se reuniam mais, não havia traiçoes, porque as pessoas nao se envolviam mais, não havia vida porque as pessoas nao viviam mais naquele lugar, logo então a vida morreu naquele tempo. e com o tempo passou a ser o lar de centenas de pombos, enfim a vida encontrou seu caminho e ressurgiu por entre pedras, ferros e pedaços de vidro espalhados por todo o salão; Amontoados de graveto e capim seco denunciavam os pequenos ninhos espalhados, que cresciam como ramos por entre as vigas de madeira que sem muito esforço sustentavam o teto do templo.
Já não havia bancos, só apenas um pequeno pilar de tijolo sustentando duas enormes mãos de pedra que se juntavam parando a água que caia de uma bica, num velho álbum de família pôde ver uma foto de um batismo, em baixo dizia: o batizado do nosso primeiro filho, a criança na foto era o meu pai. Tudo que se podia queimar fora levado menos a grande porta na entrada, reza a historia que foram necessários doze homens para erguê-la seu tamanho e peso transformava as idéias dos engraçadinhos em gigantescos fardos e nem que quisessem eram poucos os que tinham em si tais pensamentos.
O silêncio do único sino no alto da torre selou o fim das brincadeiras, desde que Martinho quebrou o braço ao tentar subir pela corda do sino jamais uma criança voltou a brincar naquele lugar, a única coisa que víamos entrar eram as pedras atiradas nas janelas, destruindo a pouca beleza que ainda restava, os desenhos feitos com pedaços de vidros iam deixando de existir na medida em que o tempo passava.
Os braços de uma enorme castanheira invadiam o telhado e as janelas como que se estivesse dispensando toda a sua força para empurrar o velho templo para fora dali, já que suas raízes, não mais fizeram do que abrir enormes fendas por todo o piso, era como se os dois velhos habitantes daquele lugar estivessem em guerra um querendo tomar o lugar do outro.
Pelos cantos e quartos pequenos camundongos, que para muitas senhoras eram grandes ratazanas, corriam de um lado para o outro como se ali fosse à cidade deles, um pedaço do pequeno mundo que conheciam um espaço que dividiam com uma preguiçosa coruja que encontrou nos destroços um paraíso, ali tinha a paz e o sossego para dormir durante o dia e um banquete a noite. E mais uma vez havia vida novamente dentro daquelas paredes, sendo renovada sempre, pelo sol e pela chuva que sempre se faziam presente quando mais era necessário, o que para as muitos não passava de ruínas para outros era a vida nascendo e crescendo para, um dia, voltar a morrer quando novamente o homem sentir a necessidade de melhorar alguma coisa que não seja ele mesmo.
Ricardo Barbosa
Enviado por Ricardo Barbosa em 30/10/2007
Código do texto: T716597
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Sobre o autor
Ricardo Barbosa
Governador Valadares - Minas Gerais - Brasil, 39 anos
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Ricardo Barbosa