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DEUS, O QUE TE PEÇO?

Oh, Deus! Estou eu em frente a estes castiçais antigos, meus joelhos se dobram no mármore frio. Vim dá conta de meu abandono, num relato breve e natural. Foi assim, do jeito que ela me veio, você sabe. Como se foi, nem eu, Deus. Um bilhete no fim da tarde vou para a casa de meus pais para vê se me encontro, porque esse amor esta me fazendo perdida dentro de você’. Ando com isso no bolso, procuro entender que fiz a ela para que as coisas ficassem tão sem conserto.

Ela volta um dia, Deus?

Nossa senhora tão bondosa, aqui ao meu lado. Mãe de Deus incensa o véu e enxuga meu rosto.

- Sabe que choro tanto, Senhora? Tanto quanto naquele dia tu choravas ao pé da cruz, tanto quanto teu filho chorou ao dizer, Jerusalém, Jerusalém... O que fiz a ela?

Um dia a tarde se desertava e longe, bem além, eu vi o arco-íris. Segurei nas pontas daquela fita colorida, fiz um laço e pus embaixo do sol e o céu ficou tão calmo e belo, ela me olhou, dei-lhe o primeiro beijo, entrelacei meus dedos aos dela, depois um arminho verde me caiu na mão, fiz uma paisagem na janela da casa onde ela morava. Fiz um para-peito de chocolate branco, quatro vaga-lumes, um em cada canto, pedi ao beija-flor que fizesse ali seu ninho. A janela ficou linda.

Tudo eu podia por aquele amor, Senhora santa. Certa vez, acendi uma vela, coloquei no fundo do rio, mas a vela não se apagou e mostrei a ela. Olha, essa é a chama do meu amor!

Será que a incomodou tanto o meu dom de guardar silêncios em caixas de sapatos? a minha pobre vontade de costurar asas de borboletas roídas? não se deu por feliz por não haver aves no meu quintal? só um jaboti preguiçoso. Mas tenho uma varanda tão cheia de flores, a minha rua possui uma fileira de árvores, tem um jacarandá alto que dá uma sombra tão perfeita, parecendo uma saia rendada e meu tapete ao pé da porta, todo de algodão doce, de canforina e retalhos de meias de uma bailarina.

Essas coisas, dizia ela, são tão comuns que me enfeitiçam. Ligávamos o rádio baixinho à meia-noite em alguma estação estrangeira, era delicioso se amar ouvindo alguém falando grego, um padre rezando um sermão em latim, ou vendo o rádio derramar o sangue de um bandoleron argentino. Era tudo tão simples.

O pão que comíamos não tinha margarina. A cor negra dos olhos dela, os cílios arrebitados, as marcas de catapora lhe deram sinais de estimação. Três pintas no rosto e eu as chamava de minha trindade. Era tudo tão simples.

O meu amor é tanto, é tão grande a miséria que aqui estou devolvendo a minha fé a Deus. Tome-a em suas mãos, entregue a Ele, Nossa senhora. Leve junto dois pedidos, um primeiro de perdão, outro que me faça por caridade e que se quiser, depois devolvo-lhe até a vida, mas suplique a Ele que molhe o meu peito com ao menos duas ou três gotas de lágrimas de seu nervo de aço.

Edmir CARVALHO BEZERRA
Enviado por Edmir CARVALHO BEZERRA em 21/11/2005
Reeditado em 21/11/2005
Código do texto: T74580
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Sobre o autor
Edmir CARVALHO BEZERRA
Belém - Pará - Brasil
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Edmir CARVALHO BEZERRA