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NOTA FÚNEBRE 

“Aquele dia arrepiante, cheio de ferrugens inimigas. Lá ia Jesus carregando o lenho pesado, após ter sido espezinhado, chicoteado, levado ao mais humilhante dos castigos que há por de baixo de todo chão dos homens. Caminhava até ao Gólgota para ser crucificado. Muito sangue na face daquele menino que mal nenhum fizera. Mas não lhe deram trégua os malfeitores e o açoitavam pelo inglorioso caminho. Descalço, a carne viva pisava o pedregoso terreno, o corpo todo dolorido tombava aqui e ali. Jesus se arrastava, vezes e vezes o rosto se ralou pelo chão.

Cuspiram em você Jesus; a multidão de Jerusalém e arredores zombava de você. Era insabido o que faziam, mas riam de seu fim lastimoso.

O assassinato mais assombroso da humanidade!

Chega ao alto da montanha e ainda não é o bastante. As marteladas soam prazerosas, mais e mais o esmagam, quebram-lhe os ossos, os ombros, as costas, tudo é uma ferida. Enquanto você geme as dores, Maria sofre e chora, quer chegar mais perto, quer chorar mais perto, quer abraçá-lo, quer morrer por você e quer salvá-lo.

Meu filho, não façam isso, com meu filho!

Sofrimento descomunal no coração da mãe. Era apenas o seu menino, o seu rapaz, e o matavam diante de seus olhos. Quanta dor, meu Deus, se acomodava no coração de Maria. Imensurável, inexplicável.

Agora erguem a cruz e o magoado, ferido, ensangüentado, os ossos quebrados, esmigalhados. Jesus chora, sente dor, sente muita dor o filho de Deus.

Eu quero um pouco de água. Diz os olhos com lágrimas de sangue. Eu tenho muita sede!

O fel, o vinagre para que essa sede aumente é o que lhe obrigam.

Eu tenho muita sede, minha mãe!

A lança lhe invade a carne, depois lhe quebram as pernas, os pregos rasgam-lhe o tecido das mãos e dos pés. Oh, Jesus assassinado em atos lentos de barbárie. Jesus coroado de espinhos, enquanto as flores enfeitavam o palácio dos poderosos que se banqueteavam com suas concubinas, tomando vinho e dançando à antepassada música.

Jesus chorava, se lamentava tanto o menino.

Por que fui abandonado?

Jesus chora por todos até reclinar a cabeça e não mais suportar a dor. Morre aquele rapaz.

Meus Deus, meu Deus! Que dia terrível! Nunca, jamais, em tempo algum esqueceremos aquele dia. Que pecado!”


Não havia quem contivesse as lágrimas ao ouvir esta homilia, na missa do Lava-pés. Era assim sempre proferida com a voz pesada, dolente, voz de raiva, de pena e de amor. Era assim. Homilia ímpar. Mas nunca mais será.

Esta semana, o sacerdote que pelo meio do sermão pronunciava gritos em latim, levando todos a dobrarem os joelhos. Esse sacerdote que se chamava Padre Silvio Corpetti, um homem que veio do Sul e cá do Norte se negava a retornar. No sábado, pouco antes de chegar a hora de celebrar a missa, jantou uma sopa delicada. Depois, sentou-se em sua cadeira de embalo. Após ter balbuciado algumas palavras, reclinou a cabeça. Um aparente cochilo.

Foram lhe chamar para o sacrifício do corpo e Sangue. Deram por conta que Padre Silvio, silenciosamente havia saído para se encontrar com Jesus.

Eu também chorei.

Edmir CARVALHO BEZERRA
Enviado por Edmir CARVALHO BEZERRA em 24/11/2005
Código do texto: T75909
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Sobre o autor
Edmir CARVALHO BEZERRA
Belém - Pará - Brasil
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Edmir CARVALHO BEZERRA