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Hoje foi assim, um dia em que dei por mim. Pensei em tantas coisas. Pensei no que sou.

Eu sou um comunista na concepção bíblica da palavra, um socialista por apreciar Rosa de Luxemburgo, Leon Trostky, admirar Olga Benário. Mas sou sobretudo um militante da justiça e da paz, da vida em abundância.

Eu sou aquele que numa biblioteca encontrou Mariana Alcoforado e suas cartas de amor e me apaixonei pela epistolografia. Canto o amor desde que ouvi os cantos do Rei Salomão. Sou também o deserto, a solidão.

Procuro vida nas coisas. No balcão velho da mercearia, ficam sempre marcas de cotovelos. Há histórias nessas marcas. Reparo os comportamentos dos homens, não com uma pretenção psicológica, mas sociológica. Sim, porque me compadeço dos que tão pouco pensam e dos que pensam que pensam demais.

Eu trago perguntas fáceis: como alguém cerca quilometros de terra e se diz dono? pensar uma terra produtiva, é dizer um largo espaço do planeta produz para enriquecer um? Isso não é ser produtiva é ser concentrativa. Por que a terra não é distributiva?

Dizer que uma tal coisa é fruto do meu trabalho, não será o mesmo que dizer que a árvore que não produz frutos não tem serventia?

Havia um tempo em que festeja meu aniversário rodeado de amigos. Hoje, um apenas telefonou. Será que os abandonei tanto assim?

Ainda a pouco me pus a contemplar olhares na minha pequena galeria. Vi pela sombra do chapéu, por dentros dos óculos, os olhos tímidos de Fernando Pessoa; vi João Cabral de Melo Neto olhando longe, os olhos de Carlos Drummonde de Andrade são tão franzinos, vi os olhos de minha velhinha preferida, Cora Coralina, olhinhos que estão sempre sorrindo. Mário Quintana procurando nosso século, Ariano Suassuna tem olhos de rei, e é mesmo. Max martins tem uns olhos de desdém de si mesmo. Como quem diz, eu não tenho nada a ver comigo; Pablo Neruda com os olhos que nos olham de frente, posudo, bonito, cheios de amor. Os olhos de Mário Fautino procurando um avião. Sentado na cadeira de palha Benedito Nunes com aqueles olhos de filósofo (privilégio meu, semana que vem terei um encontro com ele).

Fiquei pensando nos olhos tristes do meu pai, 85 anos de idade, 50 anos de casamento, agora um viúvo. Vive com os olhos lacrimejando, o meu pai. Foi à guerra, foi soldado, combateu na Itália, na Espanha, sobreviveu, foi carteiro, relojoeiro, ourives, teve muitos filhos, sou o penúltimo. Se você pegar uma foto dele antiga, sou eu. Ele me disse: ´Perdi todos os medos´. Agora meu pai é uma fazedor de silêncios.

Tem uns livros aqui ao meu lado: "O homem e sua Hora", "Confesso que vivi", "Sentimentos Divinos", "João dos Passos", "Covernant", esse do poeta norte-americano Robert Stock que viveu aqui por Belém. Estou traduzindo devagar, preguiçosamente, como se deve traduzir poesias. Maria Carpi me olha, pedindo-me para ler "A força de não ter força". Acho que Saramago reclama por não retomar a leitura de "A Caverna".

Como se vê, nesse silêncio, nessa ausência, há gente me olhando.

Um garimpeiro muito pobre
encontrou uma pepita de ouro
o ourives fez uma linda corrente
o joalheiro me vendeu
dei de presente a uma paixão minha
ficou tão embaraçada
sem saber pra que serve o ouro
pra ser jóia
pra que serve a jóia
serve pra enriquecer o joalheiro
mas nada
fiquei imaginando os olhos do pobre garimpeiro.

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Edmir CARVALHO BEZERRA
Enviado por Edmir CARVALHO BEZERRA em 04/12/2005
Código do texto: T80752
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Sobre o autor
Edmir CARVALHO BEZERRA
Belém - Pará - Brasil
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Edmir CARVALHO BEZERRA