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A tarde cai, enquanto  chove torrencialmente, lá fora. Pela primeira vez, este ano, me é concedido ficar a sós na sala de aula. Somente eu e as quarenta carteiras, perfeitamente enfileiradas.

Vejo pelo vidro da janela a chuva cair. O céu  azul, tom quase cinza, tenta penetrar por entre os galhos das árvores. Estou na última sala do corredor e, pelo vidro, vejo papoulas no jardim. Há um cheiro de terra umedecida. De encharcadas, as folhas pesam, adquirindo o jardim um tom misterioso.

Inverno em pleno verão. Sentimentos fora de estação...Aqui dentro, silêncio! Apenas algumas vozes vindas das salas mais próximas. Algum aluno tentando recuperar o tempo mal aproveitado. Lá fora, não há ninguém no jardim, mas posso ouvir os risos dos meninos a circularem a escola. Sequer as folhas e galhos bailam  nos braços do vento, o que seria comum nesta época do ano. Somente o barulho da chuva no telhado, a escorrer pela calçada, deslizando pelas folhas, caindo pelo chão. Momento ímpar, capaz de me fazer refletir no que tem sido o ato de ensinar, ou aprender?

Lembro-me dos tempos da faculdade. Enquanto por aquelas terras, imaginava jamais assumir uma sala de aula. Era essa, para mim, como um grande navio, repleto de tripulantes, com seus olhos arregalados, aguardando orientações; outros, piratas vestidos de marujos, prontos para dominar o navio. Sem falar dos que seguem pelos porões...

A primeira escola que me recebeu não foi esta. Na verdade, por duas vezes fui indicada para aqui atuar. Não sei explicar tamanho sentimento quer me invadia, e negava. Por curiosidade, aceitei. Fico agora imaginando, como iniciar o ano em outra escola. Dizem ser  todas iguais. Muda-se o diretor, a equipe pedagógica, os colegas de trabalho, mas alunos, esses são sempre iguais! Salvo algumas exceções... Não sei. Talvez, isso funciona quando aluno passa a ser tão somente um nome na chamada. Um menino mais ou menos interessado. Mas como esquecer dos que fizeram com que eu buscasse a cada dia mais conhecimento? Como ignorar os que me fizeram  colher lágrimas na madrugada, reconhecendo não ter sido  capaz de lhe causar interesse pelo conteúdo das aulas? Como esquecer daquele que, dia após dia, foi se adaptando, chegando a entristecer-se por não ter acertado a todas as questões?

Já é noite lá fora. Aqui dentro, somente eu e as carteiras vazias, perfeitamente enfileiradas.Um vento frio entra pelas janelas de vidro. Mesmo vazio, está ainda mais belo o jardim.

Risos pelo corredor. Já não estou mais sozinha. O tempo passou muito depressa e, embora sinta não ter feito tudo que a mim foi predestinado, percebo ser hora de virar mais uma página no grande livro da vida. Que outros escrevam suas histórias, porque a minha, se eternizará nas suaves lembranças. Fui chuva, proporcionei ao terreno condições de plantio.

Saudades, amigos! Saudades!





veronica eugenio
Enviado por veronica eugenio em 14/12/2005
Código do texto: T85751

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Sobre a autora
veronica eugenio
Cachoeiro de Itapemirim - Espírito Santo - Brasil, 55 anos
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veronica eugenio