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FARDO PESADO : A UM (DES) CONHECIDO VIRTUAL

        Ele me escreve do alto da ingenuidade (no melhor sentido) própria da idade. Discorre poeticamente a meu respeito. Leio tudo de novo porque não estou bem certa de que esteja falando de mim. Com certeza, devo ter compreendido algo errado. Não consigo me ler naquela descrição.
        Fala o meu amigo de uma criatura que é nada menos que...a Mulher Maravilha ou algo do gênero e ainda por cima, com toda certeza, um ser irretocável. Não, amigo, definitivamente esta de quem falas com tanta certeza, não é esta pobre mortal que aqui escreve.
        “Beleza a um tempo estonteante e natural, simples”...bem, questão de gosto. O meu espelho me diz enfaticamente que a coisa não é lá tão otimista. De qualquer forma, a vaidade agradece, embora saiba que não mereça tanto. E não, não sou modesta há muito tempo. No máximo, realista. Você não teve ainda a “grata” oportunidade de me ver quando acordo...Não menciono os cabelos, que estes são, por livre escolha, sempre despenteados. Mas a minha cara pela manhã não é algo animador. Definitivamente, o que tens é uma imagem desenhada pelos lápis de teus sonhos.
        Falas da minha personalidade como quem fala de uma fortaleza inexpugnável. Amigo querido, tenho novamente que desapontar-te. Sou fragilíssima. Leia com mais atenção e olhos menos benevolentes. Sou uma folha que o vento leva. Um cristal frágil que se quebra sozinho sem o menor toque, pelo simples fato de ficar guardado sem uso por longo tempo, esquecido por descaso ou descuido, como quiser. Não, esta força toda não sou eu. Guerreira, talvez. Forte? Não. Troque por ...persistente, teimosa até a raiz dos cabelos.
        Falas de olhos transparentes. Hummm...? Not sure. Se quiser ver dentro deles, será preciso muito mais do que uma fotografia. E ainda assim, será necessária uma conexão a cabo. Nem ADSL consegue isso com rapidez. Cabo de alma. Devo admitir que embora nada transparentes, eles realmente costumam penetrar os escudos alheios para perscrutar-lhes a alma. Pura mania. Gosto pelo outro, pelo ser humano. Nada além.
         Assim é, meu amigo, que não recomendo que permaneças sonhando com esta que não existe. Tua amiga aqui é carne e osso (atualmente mais carne que osso), dúvidas, tristezas, fraquezas aos montes, fragilidades sem limites e tem uma certa dose de chatice, que só gostando muito pra agüentar. Sugiro, amigo, que, lendo-me, não me penses ou imagines. Apenas leia. E se for bom, terei cumprido meu intento. Leia-me, contudo, não me sonhes ou cries uma imagem sobre mim. É um fardo demasiado pesado.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 14/12/2005
Código do texto: T85926

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154036 leituras)
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Débora Denadai

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