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                 Viva Fidel

                                Rosa Pena

 

 Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 2006

 

Meritíssimo Juiz

 

Eu sou má, muito má. Eu sempre tratei minha empregada doméstica como empregada assalariada e não como uma coitada. Eu sempre paguei dois salários mínimos mensais, religiosamente, dia 5 de cada mês. Idem para a passagem diária, independentemente ou não da necessidade de condução e não descontei alimentação, pois não senti necessidade e não por bondade. Sou má. Fiz uma carga horária de seis horas diárias, com duas folgas semanais para minha funcionária. Contribuí para a Previdência com a parte que cabe ao empregador, dei décimo terceiro e férias com adicional dentro da lei, não exigi presença em feriados, mas também não dei roupas usadas fim de festa, nem comida vencida. Não descarreguei as velharias de meu armário no dela, para aliviar minha consciência, pois não senti peso. Sempre a tratei de forma educada, sempre disse bom-dia a cada chegada e obrigada a cada ida, mas não me vesti de Xuxa para fazê-la sorrir. Não sou favorável a pão e circo. Ah! Eu exigi recibos dos pagamentos. Que filha da puta que eu sou!

Matriculei-a num colégio gratuito, mas não a ajudei a aprender tabuada na hora de sua jornada de trabalho. Ela não era minha filha, era só minha empregada e eu não aspiro ser vereadora.

Não quis ser madrinha do filho dela, pois este laço de afeto eu não senti pelo menino, pois só o vi duas vezes. Dei pacotes de fraldas, porém não fiz bilu bilu. Sou mais que má! Até porque ganho mais que dois salários, tenho empregada e fiz faculdade. Sacanagem eu não ter feito bilu bilu para o guri. Não admiti que ninguém a discriminasse como pessoa, mas não a coloquei na mesa para almoçar comigo, aliás, nunca almocei na casa do meu chefe, donde se conclui que ele é um cara pior do que eu. Estranho demais, pois sempre o considerei justo e legal. Enfim, confesso que nunca toquei piano para ela e acredito realmente que esta seja a minha maior maldade.

Sim! Este é o motivo que encontrei para a Justiça do Trabalho dar ganho de causa a uma empregada que faltou 14 vezes no mês de agosto, sem avisar e, conseqüentemente, teve rescisão de contrato com aviso prévio dado pelo empregador, euzinha, a víbora.

Estou realmente convencida de que o Bush é fichinha em ruindades perto de mim. Ele toca piano, li em algum lugar, eu não sei tocar.

Sem mais, despeço-me com o compromisso de ser uma cidadã mais justa socialmente. O primeiro passo vai ser dado agora. Entro numa escola de música e mais...

Viva Fidel!

 


 




LIVRO UI!
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 03/01/2006
Reeditado em 21/10/2008
Código do texto: T93900
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
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