811-MENSAGEM À MINHA AMADA -

Sim, meu amigo e irmão de aventuras, sei que você dará longa volta por terras estranhas, a fim de chegar à nossa vila nas montanhas. Não poderá levar consigo nenhuma mensagem escrita, pois será revistado minuciosamente pelas patrulhas dos sanguinários dominadores desta região, que me condenaram injustamente por crime que me foi imputado mais por ser eu estrangeiro e não comungar sua religião.

Meu destino está selado. Por isso lhe peço que encontre minha adorada esposa e lhe diga que, mesmo preso nesta infecta cadeia, a sua suave lembrança ameniza todos os instantes de meu sofrimento, e que, quando a corda apertar minha garganta, meu pensamento voará até ela e com ela ficarei eternamente.

Sim, sei que você não a conhece, jamais a viu, mas vou descrevê-la para que você a reconheça assim que lhe colocar os olhos.

Encontrará facilmente a bela morena de cabelos negros como uma noite sem lua, que despencam pelos ombros e faz na testa uma franja ondulada. Os olhos castanhos são vivos e inquietos, estarão sorrindo para você numa demonstração de afeto e carinho, como sorriem para todas as pessoas.

O porte esguio e caminhar lânguido, como uma palmeira ondulada pelo vento leste. Quando dela você se aproximar, sentirá o doce aroma das alfazemas em flor.

E quando com ela falar, sentirá que toda sua atenção será fixada em você, pois ela é gentil e atenciosa como nunca ninguém foi assim. E seus lábios se abrirão num sorriso brilhante e acolhedor. Ao falar, ouvira a música de sua voz, que nenhum instrumento, nenhuma orquestra, conseguirá imitar seus acordes.

Ela tem a suavidade da brisa e a doçura do mel. A meiguice de uma criança e o encantamento de uma fada.

Ela irá abraçá-lo como a um irmão, e deixará que você lhe beije as mãos. Ouvirá a mensagem de sua boca, meu amigo, e não o interromperá. E ao final, não estranhe se ela não mostrar comoção ou desespero, pois, discreta que é, irá derramar suas lágrimas deitada no leito que compartilhamos nossa felicidade.

Assim é minha esposa. Minha descrição é imperfeita, deixa muito a desejar, mas acredito que você a encontrará e lhe dirá que sempre a amarei, por toda a eternidade.

Adeus, meu amigo e irmão.

Vaya com Diós.

ANTONIO ROQUE GOBBO

Belo Horizonte, 11 de novembro de 2013

Conto # 811 da Série Milistórias

(Para-casa do curso “Amor a Dois”)

Antonio Roque Gobbo
Enviado por Antonio Roque Gobbo em 25/05/2015
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