AS PELADAS

Wagner gostava de assistir aquele futebol de várzea jogado aos sábados perto de sua casa. Mas futebol era uma qualificação insuficiente para todas as competições que o menino apreciava no local: um terreno cercado por dois metros de muro e que envolvia, não só o espaço destinado às partidas, mas também um matagal de mamonas que crescia ao lado.

Em outras palavras, naquela terra dividida, o termo futebol era inadequado, porque havia uma regra imponderável: a mata espessa de mamonas participava do jogo.

Sim, eram as mamonas que permitiam tudo até o futebol. Por que não? Wagner já encontrara no mato, perto do muro, sete velas de cera vermelha. “Macumba de fim de semana” - disseram. Já vira nascer, por ali, uma bola “Rivelino” novinha. Levara-a para casa. E aconteceu também a ninhada de sete gatos apedrejados por meninos da favela da rua de baixo.

Quando os gatos foram mortos, o menino percebeu: o matagal permitiria qualquer lance.

E foi um lance das mamonas que fez a tal mulher aparecer. Esta é a explicação. A explicação de Wagner.

O Caramuru Esporte Clube, dono do terreno, vencia a equipe inimiga por um tento a zero. O gol saíra de falha na ponta esquerda, próximo à trave. Wagner quis encontrar o erro. Examinou a colocação dos jogadores. Bem postados. Com certeza faltou categoria. O goleiro jogava adiantado. Os beques estavam fora de forma. As barrigas cresciam.

O Caramuru tinha até sua própria torcida e quando aquilo entrou em campo, rolado pelo vento, pareceu ser o pedaço da bandeira do time.

Não era o pavilhão do Caramuru. O colorido mostrava outro ícone de adoração: uma foto de mulher pelada. O menino abriu os olhos e lembrou-se das revistas que escondiam nas bancas porque criança não podia ver bunda de mulher.

Agarrou a página. Abriu a pelada. Ela destoava do futebol de várzea. Como compreendê-la sem as referências do jogo como a dos goleiros com a perna esfolada. Como entender a mulher ali, nua? Seria macumba de agradecimento, sobra de despacho amoroso? (Neste momento Wagner pensou na intervenção do matagal de mamonas para o aparecimento da mulher. Não tinha outra explicação).

Wagner esqueceu o jogo e reparou os detalhes. Página 35 da revista “Ele e Ela”. A pelada foi atriz de novela.

Enfiou a estampa no bolso, entrou no matagal e fulminou os olhos azuis da atriz. Loira “tesuda”. Coxas intactas. As mamonas do terreno nunca as feriram.

A mulher levantou o véu. Espalhou as pernas e braços no meio da mata. Completamente indefesa.

Wagner cogitou que outros braços e pernas e, principalmente, os peitos fotográficos da atriz estivessem no baque do jogo, na plena disputa das tabelas.

O peladeiro procurou as páginas restantes. Subiu o muro. Esquadrinhou todos os pontos da cancha futebolística. Viu as regiões glúteas da superjogadora na lateral direita.

Wagner quis entrar no campo, salvar o corpo da mulher, juntar seus pedaços... A vergonha foi imaginar a atrapalhação. Se descobrissem, ele seria o “peladeiro”. Não sabe jogar bola, mas sabe procurar revista de sacanagem.

Acompanhou as folhas coloridas. A atriz voou para o meio de campo. Local inacessível, ponto do chute inicial da partida, círculo somente disponível para uniformizados.

Pior agora. Como poderia invadir a sacrossanta área? Sentir-se-ia despido, sem chuteiras e com uma perna de mulher na mão. O jogo de pelada versus o menino pelado.

Decidiu sentar sobre o muro e esperar. O Caramuru Futebol Clube marcou o segundo gol. Os jogadores se abraçaram e, quando o goleiro chutou a bola, os peitos da atriz amorteceram a esfera. Bem em cima. Mulher boleira, cada parte uma taça.

O menino aproveitou o gol. Correu e pegou as fotos. Muitas fotos. Não olhou para a torcida. Saiu do terreno. Dobrou a esquina e dobrou as páginas. Colocou-as no bolso, quando então percebeu: somente ele vira a mulher. Descobrira a bola do jogo e ninguém fora mais rápido.

Ele se tornara o verdadeiro peladeiro do mundo.

Encheu-se pela constatação da vitória. Agradeceria ao matagal de mamonas. Não com um despacho que ele não era macumbeiro. Agradeceria simplesmente.

Resolveu examinar rapidamente a fruta da vitória. A jogadora estava ali e levantou os braços. Mostrou os lábios. Ela não era a boleira, mas a meta.

O vencedor chegou em casa, entrou no banheiro, fechou a porta. Sentou-se sobre o vaso sanitário e vislumbrou o corpo da mulher campo aberto sem marcas de cal. Ela agora estava longe das linhas divisórias. Soltava os cabelos.

O menino olhou, olhou, pensou, olhou... tudo fora um jogo.

Ele percebeu que deveria iniciar o segundo tempo. Seria o tempo da “punheta” que os meninos comentavam? Punheta de foto de mulher pelada? Falavam nela até mais do que sobre futebol. Contavam vantagem. “Bati punheta a noite inteira”. Seria agora? A etapa decisiva da pelada, jogo de várzea no banheiro.

Wagner pressentiu que o segundo tempo começaria, mas de que jeito, qual a técnica?Chutar de bica? Então percebeu que nascera sabendo. Era na mão, que parece ameaçar, mas volta.

A loira ria e ria para provocar. “Quero ver se você acerta”.

Tentou do jeito imaginado. Parou. Voltou. Insistiu. Repetiu. Encarou a pelada. Ela ganharia. De súbito veio um puxão na barriga. Parou. O que sentira? Tinha que ser daquela forma? Sabendo que a mulher da foto tinha olhos e boca... e formar tudo na cabeça. Não esquecer. Outro puxão e o que saiu, quase rasgou o menino ao meio. Não acreditou que podia.

Wagner percebeu ( mesmo depois de muitos anos) que não conseguiria ficar ali sem ação, de bobeira, vendo a mulher passar, driblar seus olhos. Correr a bunda redonda pela defesa.

Guardou as fotos para mais tarde. E quando foi repetindo as investidas percebeu que as pelejas tornaram-se um campeonato... com novas fotos, outras pernas, outras mulheres... sempre a mesma estratégia vitoriosa.

Organizou o calendário esportivo. Ejaculações as quartas, sábado e domingos. Toda semana.

Do livro:"As crianças do General Médici"

E-mail do autor: fontenelleph@gmail.com

Paulo Fontenelle de Araujo
Enviado por Paulo Fontenelle de Araujo em 08/02/2016
Reeditado em 23/11/2017
Código do texto: T5537046
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