A VIDA É MESMO SURPREENDENTE

Parafuso era uma figura folclórica, querida por toda a população da pequena cidade onde nascera sem pai, sabe-se lá há quantos anos. Essa condição, todavia, não o incomodava, até porque, embora adulto no visual, era, na essência, uma criança, simples e humilde. Vivia sozinho com a mãe numa casinha muito pequena, escondida lá num cantinho da cidade.

Quando alguma senhora precisava de alguém para uma tarefa simples, como capinar o quintal, ir à venda, comprar algo rápido e pequeno, por exemplo, chamava Parafuso. Ele fazia tudo ligeirinho e com alegria.

Todos o Festejavam, até os cachorros de rua, que o adoravam.

Era uma alma boa, Parafuso.

“Não passa de uma criança, educada e prestativa, presa em um corpo grande, diziam”.

Nunca teve outo nome. Que se lembre, fora sempre Parafuso. Para ele estava bom. Gostava.

Aos sábados, passou a visitar a cidade vizinha, de onde voltava ainda mais feliz.

- Que alegria é essa, Parafuso? perguntou-lhe, um dia, dona Célia.

- Ah, dona Célia, isso é a felicidade. Estou namorando.

- É mesmo? Quem é ela? Eu a conheço?

- Acho que não. Ela mora na outra cidade. É loira, de olhos azuis, linda como uma princesa e disse que gosta de mim. O nome dela é Lívia.

- Muito bonito, o nome de tua namorada. Tomara que goste mesmo de ti e que nunca te machuque.

- Não se preocupe, dona Célia, ela gosta mesmo de mim, fala isso para todo mundo escutar, lá na lanchonete. Daqui para frente, vou trabalhar ainda mais, todos os dias e quando tiver bastante dinheiro, construo uma casinha bem bonita, no lugar daquela em que moro com minha mãe e, então, convido Lívia para casar comigo. A senhora vai ver.

Lívia era, mesmo, uma garota bonita, simpática e muito brincalhona, atendente em uma lanchonete. Um dia Parafuso apareceu para fazer um lanche e foi atendido por ela, que, ao se dar conta de que estava diante de uma pessoa extremamente ingênua, resolveu brincar. Perguntou seu nome, onde morava e acrescentou, exibindo seu melhor sorriso, que simpatizara com ele, por isso iria preparar-lhe o lanche especial da casa.

Pronto! Lívia já tinha os ingredientes necessários para divertir a plateia.

Parafuso terminou o lanche e a chamou, queria dizer-lhe alguma coisa, mas não sabia exatamente o quê, estava atrapalhado. Gaguejou e disse apenas que queria pagar para ir embora. Ela lamentou que ele fosse tão cedo, mas pegou o dinheiro, despediu-se, dando-lhe a mão, beijou-o no rosto e pediu-lhe que voltasse logo, para que ela não morresse de saudade. A assistência aplaudiu e gargalhou.

Parafuso deixou o local aturdido, não pelas gargalhadas dos espectadores, mas por acreditar que, enfim, encontrara alguém que o amaria e a partir desse dia, jamais deixou de visitar Lívia, sempre aos sábados.

Estava apaixonado.

Tudo, na vida dele, em razão desse amor mágico, tornara-se lindo e encantado. Quando lhe pediam para que realizasse um serviço qualquer, respondia que a vontade era de fazer tudo sem cobrar, de tão feliz, mas precisava do dinheiro para comprar as alianças e construir a casa, só por isso cobrava.

Durante nove meses, precisamente o tempo em que o ventre materno lhe dera guarida, sua vida foi assim, um encantamento. Então, avaliou que já possuía dinheiro suficiente para tornar realidade o sonho de amor. Comprou um par de alianças e partiu para o encontro com sua princesa.

Era sábado à tarde e, como sempre, a casa de lanches estava repleta, dir-se-ia esperando o espetáculo a ser protagonizado pelo simplório Parafuso e pela divertidíssima Lívia.

-Como está meu amado? De roupa nova, cheiroso! Hummm! Saudou-o Lívia, ao vê-lo e a plateia aplaudiu.

- Já tenho dinheiro, Lívia, podemos casar. Olha, aqui estão as alianças. Comprei-as hoje pela manhã e vim logo.

Abriu a caixinha e mostrou o símbolo de seu amor àquela que se tornara a razão de seus dias. Só, então, foi que ela percebeu o quanto o rapaz estava levando a sério aquilo que, para ela, não passava de uma brincadeira, com a qual se divertia e divertia a plateia.

- Meu amigo, não sei, realmente, o que dizer, porque, da minha parte, tudo nunca passou de brincadeira; infeliz, percebo agora, mas brincadeira. Até gosto de ti, mas não é amor. Guarda essa aliança para alguém que, um dia, te ame de verdade. Eu já tenho um namorado, com o qual me casarei em breve. Não quero que sofras, por isso é melhor que me esqueças.

Parafuso não poderia esquecer. Seus olhos arregalaram-se desmesuradamente, fixos em Lívia e foi se ajoelhando devagarzinho, até cair completamente aos pés da amada. Preferiu entregar sua alma à eternidade, a acreditar que não passara de chacota, cruel e triste, nas mãos daquela que elegera, para juntos passarem o resto de seus dias na mais completa felicidade.

MCSobrinho
Enviado por MCSobrinho em 21/08/2016
Reeditado em 06/06/2021
Código do texto: T5735542
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