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O conto que não foi publicado.





   Fernando dobrou e recortou o pedaço de papelão que Seu Nenê,grande amigo e dono do Mercado Público lhe dera,e o colocou estrategicamente nos buracos das solas do sapatos pensando, preocupado , em quando poderia comprar um par novo. Foi consternado fazer a toalete em um pedaço de vidro chamado espelho pelos moradores do pequeno e pobre Hotelzinho onde morava;  neste caco se olhou,se viu.Refletida no espelho estava a face de um homem muito branco,o que contrastava com seus negros e lisos além de brilhantes cabelos negros.Nem Fernando sabia como conservavam aquele brilho pois devido a falta de dinheiro , lavava os com sabão.Olhos grandes escuros ,e espessas sobrancelhas além de um nariz aquilino e uma boca carnuda ,completavam a fotografia do pequeno caco de vidro já rachado.Satisfeito com o que viu,escanhoou se da espessa barba preta e entrou quase atirando o corpo magro de um homem de estatura mediana para dentro da velha banheira agora já cheia de água morna.Em verdade só havia água gelada ali,mas o dono do hotel a quem Fernando prestou um favor na área médica,pois que era estudante de medicina,fazia a gentileza de lhe deixar dois enormes baldes de água fervente.Com frio se enrolou e secou na pequena e fina toalha,pôs as meias ,uma delas esburacada deixando entrever o enorme dedão do pé direito,vestiu a cueca puída,uma calça velha mas quente e apresentável ,mais o seu segundo e blusão de lâ verde musgo, leve para o frio que fazia.C ontava ainda com o único casaco de veludo marrom onde se aconchegou.Pronto,encaminhou se para  o Mercado a fim de tomar uma xícara de café preto como de hábito.Eram próximos o Hotelzinho do Mercado onde ele era muito conhecido em todas as banquinhas pelos donos  que lhe faziam fiado.Entre seus grande amigos do Mercado se destacava seu Nenê, um homem baixo,atarracado,de feições grosseiras e que primava em se vestir mal embora fosse riquíssimo,dono de um enorme restaurante popular no centro do Mercado.Seu estabelecimento estava sempre aberto e cheio,  a comida era caseira e muito boa,daí seu sucesso,porém era  frequentado por pessoas de classe remediada.Bom coração, fiava ou às vezes nem cobrava as refeições de Fernando,sentindo se grato por servir um futuro médico.
Pois o futuro médico era paupérrimo,filho de tuco de estrada que depois  ascendeu a um pequeno emprego de funcionário público onde ganhava pouco mais de um salário.Como os outros dois filhos estavam muito bem casados,mandava lhe metade dos seus trocados para pagar a Faculdade que estava sempre atrasada pois que Fernando precisava comer e dormir e retirava um pouco deste dinheiro para se manter,às vezes, tomar um chopp.No que tange às refeições ,seu Nenê foi um homem muito generoso para com ele e os dois eram muito sinceros um com o outro,assim quando não tinha dinheiro para pagar o prato do dia lhe  dizia:-“Vai por minha conta hoje ou paga depois,eu anoto ou ainda ,qualquer dia me dás uma consulta grátis.
                E assim  devido a sua ternura,humildade ,e sobretudo uma educação esmerada,em pouco tempo Fernando era o “dono” do Mercado.Conhecia todos os comerciantes e todos eram amigos dele pois os outros,sabedores da amizade com Seu Nenê e que ele era terceiranista  de Medicina,pediam lhe orientação para pequenos cortes infeccionados, varizes,amigdalites,diarréias,etc.O Doutor,como já era chamado no Mercado era solícito e lhe retribuíam dando os artigos que tinham em suas tendas.Era um pequeno mundo incrustado na cidade e lá o Dr. era o Fernando.Dono de um ótimo português e uma bela voz, além de sua simpatia, era rodeado de amigos na Faculdade,muitos professores já formados sendo as colegas e mulheres loucas por ele.Enfim era uma figura popular,um intelectual.Lia muito , interessava se por política,literatura,teatro,e sobretudo Medicina que estudava pelos livros ao invés de tomar notas como os outros.Seu problema era acordar de manhã.G azeava as aulas pois que também era bohêmio e passava as noites pelos bares j ogando sinuca,nas festas, ou fazendo serenatas ou ainda declamando poesias,geralmente as de Fernando Pessoa,embaixo das janelas das casas das amigas que se encantavam.E quem não se encantaria por este homem cheio de vida e inteligência? Eleito por sua turma Presidente da Comissão dos Bichos,organizava os trotes nos primeiranistas de Medicina e tinha seus assessores como o Zéca,um catarinense,que falava chiado e era obeso e o Horfst,um alemão muito bonito, os quais eram seus companheiros de aula e com quem chegara a tentar viver junto em uma republica o que era  luxo,embora fosse um acanhado apartamento;mas os deixou para economizar uns pilas como dizia ,a fim de sair com uma determinada bixa em quem estava de olho,a Marie.
No quarto do hotel para onde foi cabia um catre com um colchão velho que fazia de cama ,meio armário e uma cadeira de palha.O banheiro era comum aos 6 moradores do segundo andar onde Fernando vivia.Esta era a sua situação de pobreza  ,mas nem por isto perdia o bom humor.Sobravam lhe alguns trocados para levar a Marie a tomar chop no Bavária, o bar dos acadêmicos.Piadista e cultivando suas raízes gaúchas das quais se orgulhava,era possessivo e muito ciumento além de machista, o que disfarçava. Bem relacionado,se dava com todos  na Faculdade.Simpático,os professores e amigos assinavam por ele a lista de chamada às manhãs,já que às noites vagueava pelos bares  restaurantes ,bebia, paquerava, dançava e fazia suas serenatas com os amigos em frente à Creche,onde moravam em  belos e confortáveis quartos as universitárias que não provinham de Pelotas.Marie era uma delas.
Já em sua juventude mostrava o homem e médico excepcional que seria e não havia pessoa ou professor a quem não conquistasse.
      Marie,primeiranista de Medicina,uma bixa,vinha correndo para a aula de anatomia quando caíram seus livros.Fernando,que estava por perto,baixou se para os pegar e ao levantar,passou os olhos para cima e notou o lindo par de pernas perfeitas.Subiu mais um pouco e deu de cara com imensos e alegres olhos azuis,mais uma cabeleira loura uma boca de coração e,finalmente,um lindo sorriso.E Fernando,o Presidente da Comissão de bixos,nos quais os veteranos davam trotes,levou da bixa Marie,trote para a vida inteira.Foi flexado e apaixonado na hora!
Para Fernando aconteceu o que muitos homens ou mulheres desejam em sua vida:a mulher dos sonhos existia e estava ali,materializada e se chamava Marie.Começou a história de um grande amor para os dois que logo namoravam  e não viviam  sem o outro.Fernando renunciou a seus divertimentos de solteiro e às muitas amigas e amantes que tinha ,e Marie que usualmente brincava com os homens,com ele não brincou.  No baile de entrega dos chapeuzinhos verdes aos primeiranistas,quem fez questão de o colocar em Marie foi ele ,como também foi ele que a tirou para a primeira dansa,dizendo:
-Marie,acho que nunca mais vais dançar com outro homem!
Antes de terminarem a Faculdade os dois estavam casados e felizes.
O casal costumava brincar e conversar muito,principalmente nas noites frias de inverno quando abriam um vinho e ficavam em companhia um do outro a conversar,passar em revista seus dias e fazer seus planos.Em uma certa ocasião quando o assunto era morte,Marie,recostada no peito de Fernando,disse lhe baixinho e suavemente no ouvido:
-Se morreres,morro antes de ti,Fernando,pois para mim não há vida sem a tua presença ou companhia.Sou capaz de fazer como a mulher de Modi.
-Como Marie,porque lembraste a mulher de Modigliani?Ela se matou grávida,foi uma tragédia horrorosa!
-Mais horroroso para ela devia ser viver sem ele.Filhos não bastam quando temos um grande amor.
Fernando sufocou a em um beijo e não continuou o assunto,porém sabia que Marie falava sério.Resolveu não esquecer da conversa.
Os dois viveram uma paixãoe um amor intenso durante seis anos até um determinado dia,um certo momento na vida de Fernando:
-O que colega?Que cara é esta?Algo ruim em meu check up?
-A notícia é ruim,muito ruim,meu amigo.Eu mesmo me demorei porque fiquei traumatizado ao ver.
-O que é Zeca?Cancer?Zeca é câncer?,Fernando segurava o colega pelo avental assustado.
-Sim,Fernando e muito adiantado,com metástases.Não é operável...
Fernando se deixou cair,lívido,na poltrona e com os olhos baixos,perguntou?
-Quanto tempo?Diz!Diz sem dó!
-Sem sofreres dá para viver uns seis meses,depois já sabes.Se fizeres a quimioterapia e a radioterapia,talvez ganhes mais um tempo,pouco porém...
-Não faço.No estágio em que dizes que está a redução no tumor vai ser mínima e vou sofrer já que os sintomas vão surgir.É o meu fim, José. Tenho que ficar frio,muito frio para tomar minhas decisões de vida doravante.O mais importante é o que vais me prometer aqui e agora.Promete que faça eu o que fizer,tu nunca,mas jamais vais contar para qualquer pessoa,muito menos para Marie o que houve comigo.Vamos,promete e rasga este exame.Rasga Zeca!
As provas de que ele estava perto da morte foram destruídas e Fernando durante um mês,a partir deste dia,dedicou se a ignorar e desconhecer Marie.As noites porém,quando ela estava a dormir, chorosa,sem entender porque ele se portava assim,Fernando sentava na cadeira ao lado e passava em claro olhando  a mulher que era o amor de sua vida. Terminava,invariávelmente,chorando soluços abafados.Diariamente e pela manhã já estava vestido com a máscara do desprezo e indiferença.Sofria ao ver os efeitos em Marie ,mas permanecia imutável e não respondia as suas incessantes perguntas.
Findo o mês,arrumou seus negócios,pegou um montante de dinheiro,o suficiente para viver com conforto por seis meses.,aviou uma receita de morfina e escreveu um bilhete à Marie:
Marie.
Guardo por ti muita amizade e um tempo em que fui muito feliz.O meu amor entretanto,envelheceu e se foi.Outra mulher entrou em minha vida e com ela pretendo ir viver.Saio de tua vida sem nada,somente com pouca bagagem e uns dólares de que preciso para começar nova vida.A mim,nunca,mas nunca mais vais ver.Peço te perdão mas são contingências,acidentes da vida,e peço mais ,peço que superes,que te enamores de outro homem.Sorte dele!Viver contigo,minha querida,foi amar todo o dia a vida.

Fernando.
         No avião com destino a uma cidadezinha,vilarejo do interior da Riviera Italiana,Fernando estava imerso em seus pensamentos;”não havia outra maneira de sair da vida da mulher que amava senão esta.Nunca esqueceu o que ela lhe havia dito,a ameaça de se matar por não puder viver sem ele.Desta meneira,tendo ódio dele,ela iria reagir à separação.Mal iria saber ela o quanto foi sofrido fazer isto,o quanto queria morrer em seus braços mas,grandes amores,amores inexplicáveis,existem,disto ele estava certo e o amor que tinha por ela raiava à insanidade.Quanto a ele,viveria mais uns tempos,tempos a se recordar dela,do seu perfume,dos cabelos loiros e das covinhas sempre risonhas para ele.Depois,quando começassem as dores..."
    Seis meses após um estrangeiro,sem documentos,sem identificação e que não tinha conhecidos no lugarejo é encontrado morto no quarto de uma pequena pousada.Ao lado,ampolas de morfina e no bolso,um conto intitulado Rasgou me o coração.  O conto  um pescador e estendeu a um escritor que por ali passava e que ,comovido, fez enterrar o corpo no pequeno cemitério do vilarejo.O túmulo dizia apenas o nome:Fernando , nos rasgou os corações.
O conto nunca foi publicado.
Suzana da Cunha Heemann
Enviado por Suzana da Cunha Heemann em 20/01/2017
Código do texto: T5887849
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Sobre a autora
Suzana da Cunha Heemann
Fortaleza - Ceará - Brasil
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Suzana da Cunha Heemann