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A Redoma e a Rosa: Cap. 02 – Apenas contemplando a flor.

“─ Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões de estrelas, isso basta para fazê-lo feliz quando as contempla.” A. S-E.
Gabi –
Entrei no meu apartamento nem olhei em volta, passei direto para o meu quarto, apenas escutei Nanda falando...
─ Ei Gabi, conta como foi o jantar... – ela deveria está no sofá com o Rei.
Me joguei na cama, minha cabeça estava a mil. Logo meu quarto é invadido pelos colegas de apartamento. Fernanda, 23 anos faz faculdade de fisioterapia, Reinaldo o Rei (pronuncia com r entre vogais), 20 anos faz faculdade de arquitetura, nos conhecemos por acaso, eles viram meu anuncio para dividir apartamento quando cheguei na capital, e uma das regras era ser universitário. Não tive problema em selecioná-los eles foram logo simpatia, rolou uma sintonia, e já faz dois anos que estamos morando juntos.
─ O que rolou nesse jantar mocinha para você voltar assim? – Rei sempre era direto.
─ Apenas uma coisinha que eu nem sonhava...
─ Vamos pode contar, só saio daqui quando você falar tudo – Nanda se sentou do meu lado esquerdo e Rei do outro.
─ Ok, então se preparem pois a história é longa – respirei fundo e então comecei: Vocês se lembram qual foi a reação de vocês quando eu falei que eu já fui garoto – eles apenas concordaram pois a reação foi de surpresa pois eu sou tão feminina que ninguém saberia se eu não contasse – então gente, enquanto eu era garoto eu tive uma vida quase normal, e quando eu morava no interior eu tive um amigo, ele era o único que interagia comigo, eu sofria bullying na escola e na rua por já mostrar minha feminilidade entendem? Então, o Dudu, ele nunca pareceu se importar em andar com um garoto afeminado, acho que ele nem sabia o que era isso, mas eu já sentia que eu era diferente dos outros garotos, e quando eu estava com ele, eu não sentia medo de ser eu mesmo, a gente brincava juntos, não sei por que ele gostava de ficar comigo, mas lembro que a família dele era rica, e que ele não tinha amigos naquela época. Lembro de uma vez que nós estávamos  brincando de luta livre...
─ Espere, você todo menininha, brincava de luta? – Rei me interrompeu.
─ Sim, e eu gostava pois era o momento em que podia sentir sua pele, eu já gostava dele, mesmo sem saber ainda o que realmente eu sentia por ele. Então algo mudou nossas vidas, meus pai se mudaram, eu fiquei arrasado, peguei a única que eu mais amava e o embrulhei de presente para deixar como recordação, mas ele não abriu a porta do quarto, imaginei que ele estava com raiva de mim, e creio que foi isso mesmo, pois era eu quem o estava deixando.
─ E o que era o presente? – Nanda perguntou.
─ Meu livro do Pequeno Príncipe. Na dedicatória disse para ele o que ele sabia, e que talvez para ele aquelas palavras não tinham ainda o significa que teria hoje depois de adultos, disse que o amava e que ele era meu único amigo...
─ No caso você o amava, não apenas como amigo...
─ Sim Rei, eu o amava, posso afirmar que foi meu primeiro amor, nós tínhamos nos cativados, e eu sofri por muito tempo.
─ E por que você depois de grande não o procurou?
─ Procurei Nanda. Só que tinha um problema, eu só o conhecia pelo seu apelido, nem o nome da família dele eu conhecia, sabia que era de uma família rica da cidade, o problema era a minha infinita falta de nossa da realidade, mas sabe naquela época não tinha as facilidades dos sites sociais que temos hoje, então eu cresci, e tive problemas com meus pais, e principalmente com meu pai, como vocês já sabem da história, então quando estava terminando a faculdade conheci aquele cara o que me pagou a cirurgia na Europa, e o resto vocês sabem...
─ Espere, onde você quer chegar nos contanto tudo isso?
─ Quero dizer que quando você pensa que a distancia separa duas pessoas e que sua relação fica no passado, isso não significa que será para sempre, pois o mundo gira, e as vezes ele gira tão rápido quanto o asteroide B 612, eu parti e deixei minha rosa sozinha e eu perdido nesse mundo, e ai não sei como minha rosa vem ao meu encontro...
─ Gabi, não viaja, você se encontrou com o seu Dudu, hoje no jantar, foi isso então?
─ Sim Rei. Mas não vamos nos adiantar. Sabe aquela entrevista no inicio da semana? Pois bem, fui toda animada, e lá me deparei com o dono da loja e o gerente, eles iriam fazer a entrevista, para a vaga de assistente pessoal do novo presidente, foi uma entrevista bem diferente de outras, ele pareceu bem enigmático, o Senhor Cavalcante, aquele nome me pareceu família...
─ Ai meu deus, não diga...
─ Espere Nanda, deixa ela terminar, continua Gabi.
─ Então, foi uma entrevista legal, ele não parecia como os outros canalhas que logo olham seu currículo de beleza. Apenas sei que no outro dia eu já fui chamada para começar a trabalhar, e foi uma semana muito legal, pois ele parecia tão perdido quanto eu, conheci pessoas legais, a secretária é bem tímida mas bem capaz. Já o gerente geral parece mais sério e muito profissional, gosta de tratar todo mundo pelo sobrenome, essas coisas, mas sabe de uma coisa legal, foi o senhor Cavalcante já tratar todo mundo com simpatia e uma coisa que as garotas vibraram foi quando ele procurou saber como elas se sentiam com o uniforme do trabalho, que era bem cafona, e agora ele já providenciou um novo visual para as mulheres... bem mas o mais estranho é que ele estes dias sempre estava andando pela loja querendo saber de tudo, digo, aprender sobre o funcionamento, ele me pareceu muito familiar, seu modo de sorrir, tudo nele era nostálgico para mim, e para nossa surpresa ele nos convidou para o jantar em seu apartamento. E lá estava eu com meus colegas de trabalho e ele, o nosso chefe com sua noiva linda e maravilhosamente rica.
─ Ai não, já não gostei dessa história... – Nanda fez cara de decepção.
─ Então, eu não estou interessado nele pessoal, apenas esclarecendo que nós não somos um casal antes que vocês pensem que eu serei a outra nessa história. Bem, o jantar estava ótimo, a Cristina, muito legal, simpática, acolhedora, formam um belo casal – ele muito bonito, elegante, atencioso com todos, de onde vinha tanta gentileza?
─ Sim, entendemos, mas conta logo o que causou toda essa comoção em você, pois chegou toda arrasada – Rei me chamou atenção dando palmas no ar, ele era um cara bem alegre.
─ Como você já entenderam, até aquele momento eu não desconfiava de que o Eduardo Cavalcante fosse o Dudo, claro eu nem sonhara reencontrá-lo um dia, e mais ainda como meu chefe, mas então tinha algo nele que me incomodava, seu sorriso como já disse, e seu jeito de olhar para mim quando eu não o estava encarando. Então hoje a noite no apartamento dele com todos lá se divertindo tomando vinho, champanhe ...
─ Na próxima festa me faça o favor de me levar ...
─ Rei!
─ Que foi, você sabe que adoro champanhe...
─ Deixa ela terminar. Continua.
─ Então. Avistei uma pequena estante de parede com alguns livros lá, logo de cara vi um exemplar do Pequeno Príncipe, a capa já meio amarelada, e curioso, tinha um cantinho amarrotado na parte superior da lombada, justamente como o meu tinha, curiosa fui até ele, e sem nem perceber a falta de educação minha, o peguei, parecia que eu estava em transe quando olhei a contra capa, tremi na hora, escutei o Eduardo falar para eu não pegar, pois era de estimação, sim, ele disse isso, o que pode claro significar que ele se lembrava de mim, mas eu estava paralisada, era o meu antigo livro, e ali, meu antigo amigo, aquele que eu tinha deixado no passado, o olhei e sem pensar onde e com quem eu estava, apenas falei “Dudu”. Ele me olhou sério, pareceu estranhar aquela pergunta.
─ Você me conhece? – perguntou ele, e eu aflita, apenas não podia falar de cara que eu era o Gabriel.
─ Aqui, seu amigo te chama de Dudu, achei fofo – meu coração bem miudinho, estava suando frio.
─ Era meu apelido, mas ninguém me chama mais assim, por favor! – ele estendeu a mão em sinal de pedido, o devolvi o livro, e sai calada em direção a mesa onde o pessoal estava.
─ Você não disse para ele...
─ Como Nanda? Fiquei tão nervosa que preferi sair, disse que não estava acostuma a beber, chamei um taxe e aqui estou, sem saber o que fazer.
─ VOCÊ vai dizer para ele... – Rei se levantou e ficou na minha frente – diga que você era o Gabriel.
─ Não, ele não pode saber, você sabe como as pessoas reagem quando ficam sabendo que eu sou uma trans, não, melhor assim, eu serei apenas a Gabriela e pronto.
─ Você quem sabe, se te contenta apenas ser aquele observa.
─ Sim para mim basta, meus sentimentos por ele não são mais os mesmo, e ele nunca sentiu por mim algo parecido, ele tem uma garota e parece feliz, eu só preciso me acostumar com a ideia de que o meu chefe é o meu primeiro amor, e pronto, depois a gente só se relaciona profissionalmente.
Depois daquele momento, tentei dormir.
A noite foi nada tranquila, em meus delírios eu me imaginava falando para Eduardo que eu era o seu antigo amigo, ele tinha uma crise de raiva dizendo que era mentira, e eu perdia meu emprego, e ele falava coisas duras para mim. Mas em outro momento eu imaginava ele me abraçando dizendo o quanto sentia minha falta... nada disso era real, eu não podia saber qual seria sua reação. A melhor opção era eu continuar sendo quem eu era agora, a nova assistente dele e pronto.
Meu dia de folga não seria os domingos, na verdade iria haver um revezamento, a cada três domingos eu folgava um, e toda quarta eu teria meu dia livre, e já naquele domingo eu teria que comparecer sedo, como um de anormal de trabalho.
Cheguei e fui recepcionada por Franciele.
─ Bom dia Gabriela, como está passando?
─ Oi, estou bem, obrigado, e vocês ainda demoraram?
─ Que nada, depois que você saiu, ficamos ainda uma meia hora, depois nós saímos, afinal a maioria ainda trabalha hoje.
─ E o patrão, será que vem hoje?
─ Já está no escritório dele.
─ Obrigado Fran, posso te chamar assim?
─ Claro, bem melhor, e eu posso te chamar...
─ Gabi, é assim que meus amigos me chama.
Caminhei até minha sala que ficava próximo ao do chefe, organizei alguns papeis, fiz o que tinha que fazer, depois fui conferir a sessão de estoques. Antes que eu dobrasse uma esquina da sessão de esportes escuto meu nome.
─ Gabriela! – olho e era ele.
─ Bom dia Senhor Cavalcante.
─ Bom dia, e você está melhor?
─ Estou, me desculpa por ontem a noite, geralmente isso não acontece comigo.
─ Tudo bem. Pode me chamar de Eduardo..
─ E o senhor pode me chamar de Gabi.
─ Ok. Está indo ver o estoque?
─ Sim.
─ Posso ir junto.
─ Claro, afinal você é dono - sorri para ele e ele pareceu parar por um instante me olhando – vamos!
─ Claro, pode ir na frente.
Ele me acompanhou, parecia sério.
─ Então Eduardo, como foi sua impressão da primeira semana aqui na loja?
─ Estou adorando, e você, está gostando de trabalhar com a gente?
─ Claro, principalmente agora que... – que droga eu já ia falando bobagem – que eu estava precisando, tinha deixado outro emprego há dois meses e as economias estavam ficando no vermelho. Obrigado por me aceitar.
─ Não Gabi, eu que agradeço por você ter vindo, você me salvou de contratar uma dessas moças que parecem mais um robô, e você tem toda essa alegria.
─ Tenho?
─ Tem sim. Você parece mais viva do que muitos aqui.
─ Obrigada.
Ele parecia realmente falando a verdade.
Os dias se passaram, chegou meu dia de folga, resolvi ir as compras, então decidi ir na Cavalcante Textil, afinal eu tinha que andar com nossa marca, convidei Nanda e o Rei, mas apenas ele quem aceitou, ela já tinha um trabalho da faculdade para fazer.
O Rei parecia bem solto, só admirando os vendedores.
─ Olá Gabriela, não é seu dia de folga? – perguntou um vendedor todo sorridente, seu nome Carlos.
─ OI Carlos, hoje só compras.
─ Seu namorado? – perguntou Carlos olhando para Rei.
─ Este é o Rei, meu amigo.
─ Prazer lindinho – Rei estendeu a mão para Carlos que sorriu.
─ Prazer, Carlos.
Eles ficaram conversando e eu fui ver umas blusas. O departamento de mulheres estava bem movimentado. Eu me concentrei nas roupa nem percebi que tinha alguém atrás quando dou uma passada e tropeço no pé dele que me segura para não cair. Ele...
─ Opa! Te peguei – olho para Eduardo que está sorrindo.
Ele me segurando e eu sem ação. Senti seus braços fortes, eu me envolvi em pensamentos antigos. Ele me abraçava naquela época, era um abraço inocente, agora eu os sentia novamente.
─ Desculpa Eduardo não tinha visto.
─ Não, eu que cheguei sem avisar – ele me soltou e eu me pus de frente para ele – fazendo compras ou não consegue mais ficar longe do trabalho?
─ Só compras mesmo – sorri – afinal sou mulher não é, tenho que comprar e comprar.
─ Estou de saída para o shopping, não gosta de comprar lá?
─ Gosto, mas pensei em divulgar nossa marca...
─ Coisa boba, vamos comigo.
─ Estou com um amigo aqui.
─ E onde está seu amigo? Ele pode ir também.
Olhei em volta e avistei ele num papo bem intimo com o Carlos.
─ Acho que ele prefere ficar aqui e apontei na direção do Rei.
─ Entendo.
Depois que avisei o Rei que iria sair fui ao shopping com Eduardo. Foi estranho sair com ele, não era um encontro, e era o quê? Apenas dois amigos saindo para compras. Ele não parecia o típico rapaz que sairia com um amigo para comprar roupas.
Já chegando ao shopping lembrei de um detalhe.
─ E sua noiva, ela não tem ciúmes?
─ Não, nós temos um relacionamento bem esclarecido, e ela também está na faculdade o dia todo hoje. Você parece incomodada...
─ Não, estou bem, não gosto de incomodar os outros...
─ Não seja boba, tudo aqui é novo para mim, lembra que cheguei só há oito dias. Nem conheço este shopping direito, também vou comprar umas roupas.
Aquele momento só nosso foi bem legal, ele se mostrava bem feliz, escolhia roupa muito bem, sabia o que queria, não ficava pegando nem escolhendo coisas que não iria comprar. Já eu passava minutos escolhendo. E ele só sorria. Depois das compras fomos almoçar.
─ Então, este é nosso primeiro encontro, vai fazer algum pedido? – ele sorria enquanto falava aquela barbaridade.
─ Deixa de bobagem Dudu... – eu simplesmente gelei depois que falei aquilo.
─ Por que você me chamou assim? – ele ficou sério – não me chame mais assim.
─ Desculpa Eduardo, foi sem querer...
─ Como sem querer, esse apelido ficou no passado.
─ Você tem raiva dele?
─ Do apelido?
─ Não, do seu amigo por que foi embora?
─ Como assim, eu não falei que ele foi embora...
─ A dedicatória, era uma despedida, desculpa, eu sei que não tenho que me meter nisso, mas você parece guardar rancor com isso.
─ Não, apenas não quero que o apelido que ele me chama perca a força na memoria com o tom de outra voz – aquela explicação dele bastou para mim, realmente devemos guardar na memoria tudo aquilo que é único para nós.
─ Obrigado por me explicar – dei um largo sorriso meu.
Ele como antes pareceu perdido me observando.
Depois ele me deixou em casa, mas não entrou, eu apenas fiquei observando minha flor partir ficando cada vez mais distante das minhas mãos, deveria eu esquecer meu coração?
Não entrei em casa, peguei um taxe e fui até uma livraria e comprei um novo exemplar de “O Pequeno Príncipe”.

Continua...

Sala de bate papo...
Biel1998 – Ola´, estes dias reencontrei um amigo de muitos anos, eu sinto algo bem forte por ele, mas descobri que ele tem uma namorada, e claro, ele não sabe que eu já fui um garoto e amigo dele. O que devo fazer?
(respondam ai nos comentários, e ajudem o Biel1998 se resolver)
Maximos Jorel
Enviado por Maximos Jorel em 12/10/2017
Código do texto: T6140869
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Maximos Jorel
Campo Belo - Minas Gerais - Brasil, 30 anos
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Maximos Jorel