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O SACRISTÃO

O   S A C R I S T Ã O

                Laporécio, homem querido e amado por toda comunidade, tinha uma profissão bastante inusitada, é um sacristão, seu local de trabalho, não podia ser outro, uma igreja e uma sacristia, nestes recintos, passara quase toda sua vida e participara de tudo que se refere a sua profissão, e ia além disso:     Sempre que havia festejos na sua paróquia, ele comandava tudo brilhantemente, praticamente, nascera dentro da igreja, como ele mesmo dizia, alí foi batizado, foi coroinha, foi crismado e até mesmo se casara com uma moça que participava do coral. Em sua paróquia ele era o faz-de-tudo, pau pra toda obra, como ele mesmo dizia sempre. Auxiliava nos casamentos e batizados,  participava como apóstolo nas encenações da semana santa, foi padrinho da maioria das crianças e nubentes da cidade e dos municípios vizinhos.
            Contava agora com quarenta anos, casado, pai de três filhos,  tinha ao seu lado uma esposa maravilhosa, que o ajudava e o incentivava nos trabalhos religiosos. Tudo que o pároco precisava, lá estava ele pronto para tudo.
            Certo dia chegou em casa radiante de felicidade, pois o padre havia se ausentado e o diácono adoecera, naturalmente sobrou para ele a função de celebrar a missa, ao final, todos  foram cumprimenta-lo, outros mais afoitos disseram que a cidade não precisava de padres, pois ele desempenhara muito bem o papel, e celebrou a missa melhor que muitos.
             Esta é a vida e a história de Laporécio, homem cordial, de sorriso fácil e muito carismático, que tratava a todos como igual.
          Mas o destino lhe preparara uma peça, como veremos a seguir: Padre Belarmino,  chefe da paróquia, ao retornar de suas inúmeras viagens, chamou Laporécio na secretaria, sentaram-se frente a frente e o  padre começou a falar com voz calma e pauzada. O sacristão ouvia em silêncio, mas no fundo ele sentia que algo estava para acontecer, mas aguardou até dar seu parecer, o padre  com expressão grave, adotara um tom  de voz que desagradou bastante o igrejeiro , pois não entendia nada daquelas palavras que dizia o pároco, que continuou:
              Laporécio, a tecnologia, a informática como todos sabem, estão invadindo os lares em todo recôndito deste nosso planeta, quase cem por cento das empresas, já estão informatizadas ou estão providenciando, e já podíamos prever que chegaria também às igrejas. Chegou até nós, uma ordem da  diocese, para que nossa paróquia e conseqüentemente nossa igreja, entre também na era da informática, afinal não podemos deixar de acompanhar a tecnologia.
            Frei Belarmino fez outra pausa para avaliar o efeito que suas palavras produziram no sacristão, mas este permanecia calado e o olhava com ceticismo, e continuou dizendo:
            Na próxima semana chegarão em nossa igreja dois homens, são técnicos em informática, eles vão instalar treis computadores em nossa secretaria, e vão ensinar a srta. Priscila a operar os Pcs., ela foi a escolhida para esta função, por ser uma moça formada, dinâmica e inteligente.
           O padre fez outra pausa e olhou fixamente para Laporécio, tentava vislumbrar em seu rosto algum sinal de entendimento, mas este, continuava impassível, então, ele continuou:
           Olha só: É muito penoso ter que lhe dizer isto: Mas a verdade é uma só:  A igreja vai ter que dispensa-lo.
           Laporécio que se mantivera em silêncio até o momento, deu um salto da cadeira como se tivesse sido impulsionado por uma catapulta e falou com voz embargada:

           Mas isto não é possível, o que será de minha vida? Eu não sei fazer mais nada,  sempre fui sacristão, eu nasci para ser sacristão, será difícil a partir de agora, iniciar outra profissão.
---Sinto muito Laporécio, mas são ordens, afinal o senhor é analfabeto, não sabe ler nem escrever, se soubesse, teria sido o escolhido, pois sempre foi dedicado ao que se refere nos serviços religiosos, mas fique tranqüilo, a igreja pagará todos seus direitos e também vai lhe uma boa gratificação.
        Dona Carmensita, ao ver o marido chegar em casa fora de seu horário habitual, e com uma expressão no rosto parecendo que viu um fantasma, indagou:
---Mas o que houve criatura de Deus? Porque este semblante transtornado?
Laporécio,  tremulo e com a voz embargada, respondeu:
---Eu não sou mais sacristão, fui dispensado da igreja por ser analfabeto
---Mas não é possível marido, voce  dedicou toda sua vida para a igreja, não teve tempo para estudar, e agora te mandam embora? O que será de nós, de nossos filhos, voce não sabe fazer nada mais, além de ser sacristão.
---O padre me pagou tudo direitinho, e ainda me deu uma boa gratificação, temos um bom dinheiro, poderemos viver algum tempo sem passar necessidades, faremos economia, até eu arrumar algo para fazer, se bem que eu acho difícil, eu não sei fazer nada, nasci para ser sacristão, nunca me interessei em aprender outro ofício.
            Na manhã seguinte acordaram mais otimistas, fariam economias, gastariam apenas o essencial, Deus proverá, dissera a esposa e pediu:
 ----Vá até a granja do senhor Alfredo, traga duas dúzias de ovos, vou fazer aquele bolo que voce tanto gosta.
       Laporécio colocou o dinheiro no bolso e rumou para a granja, por onde passava era cumprimentado efusivamente, até mesmo pelas crianças, pois todos o conheciam, e após caminhar por dois quilômetros, finalmente chegou na granja. O proprietário também gostava muito do sacristão, e já sabia que este havia sido dispensado dos serviços da igreja, por conta disto, quando o sacristão foi pagar os ovos, ele se recusou a receber dizendo:
-----Vou lhe dar estes ovos de presente, não precisa pagar e leve mais três dúzias  grátis e quando precisar, é só vir aqui buscar,  nunca vou lhe cobrar.
       Laporécio estranhou a atitude do granjeiro, arregalou os olhos e argumentou:
------Eu não posso aceitar, o senhor terá prejuízos.
------Não diga isto Laporécio, o senhor merece muito mais que cinco dúzias de ovos, eu e minha família te adoramos, todos meus filhos que se casaram, se lembram do carinho que o senhor sempre os tratou, e os que foram batizados seguem na mesma linha, tenho certeza que apoiarão minha atitude.
       Laporécio saiu da granja todo alegre com o presente que ganhara, não sabia que era tão querido na cidade, afinal nunca teve tempo para mais nada, sua vida era a igreja e seu lar.
       Não tinha caminhado nem quinhentos metros quando passou em frente à casa da dona Marianinha, quando esta o interceptou, cumprimentando-o com alegria:
-----Bom dia sacristão, fiquei sabendo que o padre vai instalar computadores na igreja e o dispensou.
----É sim senhora,  mas tudo bem, eu entreguei nas mãos de Deus, Ele tudo sabe e decide o que é melhor para seus filhos.
          Dona Marianinha percebeu que o sacristão carregava ovos e pediu:
---Minha filha está morrendo de vontade de comer omeletes, o senhor poderia vender duas dúzias de ovos para mim? Estou sem tempo para ir lá na granja comprar.
      O sacristão separou os ovos pedidos, mas não quis receber,
no que foi contestado pela senhora que disse:
--Olha Laporécio: Vou lhe pagar cinco vezes mais afinal o senhor está me fazendo um grande favor, além do que  teve o trabalho de ir lá buscar os ovos.
       O sacristão chegou em casa com três dúzias de ovos e com um dinheiro que daria pra comprar mais dez dúzias, estava intrigado com o que ocorrera, tentava conter as lágrimas que insistiam em molhar seu rosto, estava estranhando o fato de ser beneficiado pela benevolência das pessoas que cruzaram seu caminho nesta manhã. E logo lhe ocorreu a idéia que poderia ser um vendedor de ovos, pois era muito conhecido nas redondezas.
        Em pouco tempo ele montou uma pequena mercearia, e seu carro chefe era a venda de ovos e frangos abatidos. Passados dois meses, um bonito carro estacionou em frente ao seu negócio, desceram do veículo três  homens bem trajados, se cumprimentaram com alegria e o que parecia ser o chefe da comitiva foi logo dizendo:
---A nossa montadora está precisando de um fornecedor de ovos e frangos, como nós o conhecemos há muito tempo, demos a preferência para o senhor, se aceitar, pode começar a entregar já na próxima semana.
       Laporécio  naturalmente que aceitou, pois viu neste contrato  sua grande oportunidade, e como não podia deixar de ser, logo o sacristão acumulou uma grande fortuna, admitiu até alguns funcionários, mesmo com todo este sucesso, sua mente estava focada em sua profissão antiga, jamais esqueceu que nascera para ser sacristão, e quando ouvia os sinos da igreja repicarem, lágrimas de saudades rolavam em sua face, mesmo assim esforçava-se para se dedicar a sua nova profissão.
        Toda semana Laporécio ia aos bancos descontar os cheques que recebia dos clientes, entrava nas filas e sempre tinha alguém para conversar e continuava a ser cumprimentado pelos munícipes, que nunca mais o esqueceriam, o sacristão amado por todos. Dialogava com um conhecido quando de repente uma linda moça o abordou dizendo com voz amável:-- Eu sou a gerente deste banco, meu  nome é Assenuhá, o senhor poderia me acompanhar até minha mesa?
          Humildemente o ex. sacristão saiu da fila e acompanhou a moça, foi lhe oferecido uma poltrona confortável, ali, sentado em frente a gerente ele perguntou intrigado:
---O que está havendo?
------Temos observado que o senhor freqüenta sempre nossos bancos, desconta cheques vultosos, seria para nós um imenso prazer te-lo como nosso cliente preferencial, abriria uma conta corrente, não precisaria mais enfrentar filas, teria cheque especial, com um limite bem alto, uma caderneta de poupança, faria um seguro de vida, se quiser, basta assinar estas fichas, que preparamos para o senhor.
          O sacristão encarou  a gerente e falou com humildade:
----Tudo isto me parece muito bom, mas tem um probleminha, eu sou analfabeto,  não sei ler nem escrever.
           Assenuhá saltou da cadeira como se tivesse sido impulsionada por uma mola, e disse demonstrando muita surpresa:
---Mas não é possível, o  senhor vem todo o dia ao banco, movimenta um fluxo enorme de dinheiro, tem tino para o negócio e agora me diz que é analfabeto e não sabe ler nem escrever?  Imagina então se o senhor soubesse ler e escrever?
           Laporécio com os olhos razos dágua respondeu com a voz entrecortada por soluços:
---Se eu soubesse ler e escrever, eu seria sacristão.
 
 

 

     


 



   



 
daniel de castro
Enviado por daniel de castro em 25/09/2007
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daniel de castro
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