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Ipso factum est

Todo fim de ano é a mesma coisa, correria para fechar as contas, balanços, reuniões, estratégias de campo, planejamento anual, etc e tal. Por isso o dia havia sido bastante desgastante, mas, o retorno ao lar era meu pensamento feliz, sempre representava um oásis em toda essa pressão. Porém ao entrar em casa, logo percebi que algo estranho pairava no ar. A esposa não estava com o habitual sorriso e afago, ao contrário, em seu semblante havia a mesma expressão do astronauta estadunidense Jack Swigert: “Houston, temos um problema!”. O álbum de fotografias em seu colo, o filho, sentado com olhar grave e suas perninhas gordas balançando, prediziam que, o tão almejado repouso, era um reino tão, tão distante.
Em silêncio e com muito cuidado, deitei a maleta de trabalho sobre a mesa. Sentei-me ao lado da esposa, afrouxando a gravata. “– Pai, temos que conversar!” a sentença de meu filho fora dada de forma fria e instantânea. Minha esposa adiantou-se:
– Eu tentei convencê-lo! – ela abre o álbum, transtornada.
Eu esperei alguns instantes para proferir qualquer opinião, pois ainda não estava a par dos acontecimentos. Olhei-a de forma a pedir-lhe que me explicasse:
– O Biel, chegou hoje muito triste da escola, seu amiguinho disse-lhe uma coisa horrível!
Meu filho é uma criança alegre, sempre brincalhona, do alto dos seus oito anos apresentava um senso de responsabilidade e sabedoria acima da média, “esse garoto vai longe” é o que todo mundo dizia. Logo, pelo estado em que se encontrava a coisa realmente era de uma relevância altíssima. Minha esposa queria continuar, mas o menino tomou-lhe a frente e foi taxativo:
– Papai, afinal de contas, Papai Noel existe ou não?
Aquela frase foi como uma facada em meu coração. Só então pude perceber a gravidade da situação. Havia muita coisa em jogo. A credibilidade dos pais, a inocência da infância, o materialismo comercial, as relações de amizades, todo um conceito social e econômico, o alicerce da vida, a espiritualidade, meu décimo-terceiro, as festas de fim de ano, comidas típicas, o campeonato de futebol...enfim, a abreviação do Apocalipse.
– Olhe, querido, eu mostrei-lhe todas as nossas fotos, os presentes de Natal, nossa alegria com a família, os vovôs, os primos...
– Mas nada de Papai Noel! – mais uma vez ele intervém.
Sim, meu filho tinha razão, não havia fotos do Papai Noel.
– Filho e aquela vez no shopping? Lembra? – súplice, minha esposa tenta todas alternativas.
Biel titubeou um instante. Realmente, teve aquela vez em que o Papai Noel atendeu a ele e outras crianças no shopping. Eu e minha esposa agarramo-nos a esse pormenor como a uma testemunha de defesa.
– Mas o Fabinho disse que é só um homem com a roupa. Ele disse que o Papai Noel não existe, é o senhor que traz os presentes... – ele abaixa a cabeça, vencido pelos argumentos do amigo.
Seus olhos me encarando, como se pedisse com urgência uma explicação plausível, uma justificativa que sustentasse tudo que sempre disseram a ele e, mais importante, todo direcionamento do seu amor a uma fraude, seria como se nada no mundo fosse real.
Por mais teoria e livros de auto-ajuda, por mais manuais de pais de primeira-viagem que eu tenha lido, nada, absolutamente nada, o prepara para enfrentar o olhar de súplica de uma criança, implorando que seu pai salve o mundo que fora para ele construído. A sua atitude de pé, à minha frente, esperando pelo meu discurso, impunha-me uma pressão que nenhuma reunião de diretoria seria capaz de produzir. Meu filho, meu mundo, estava ali diante de mim e a minha responsabilidade pelo seu futuro poderia ser decidido naquele momento.
– Filho,... – tomei-o em meus braços e sentei-o no colo, respirei fundo, estava prestes a desvendar um mistério da vida. Minha esposa, pressentindo a terrível batalha, não suportou a intensidade, colocou o álbum na mesa e saiu com as mãos no rosto. Era um momento de pai e filho. – O Papai Noel é um velhinho que voa o mundo todo para distribuir presentes às crianças boazinhas e tem pouco tempo pra fazer tudo, por isso que as crianças não o veem!
– Mas papai, por que o Fabinho disse que ele não existe?
– Eu não sei. Veja todos esses enfeites, a gente comprou tanta comida gostosa, seus primos e tios vêm visitar-nos. Imagina, tanto trabalho para nada. Além do mais, ele está cumprindo a ordem do Menino Jesus, não é? Talvez o Fabinho ache que não vai ganhar brinquedo!
– Mas todo ano é a mesma coisa, eu fico esperando ele chegar e nunca aparece. Eu quero falar para que ele dê o presente do Fabinho tambem, ele é muito pobrezinho e não tem como comprar brinquedo!
– Você pode escrever isso na cartinha do Papai Noel. Você já escreveu a cartinha?
– Já, mas vou ter que colocar isso tambem!
– Então, se o Papai Noel não existisse como você ia ganhar brinquedo?
– É mesmo! – ele salta do meu colo vitorioso, correu para o quarto para reescrever a cartinha.
Voltar a ver o brilho nos olhos do Biel foi a coisa mais maravilhosa que eu presenciei em toda minha vida. Meu Deus, como é bom ver o sorriso de uma criança. Melhor ainda foi resgatar a esperança e a confiança do meu filho.
Fim.
Ps: Melhor garantir o presente do Fabinho tambem.
Pio Candido
Enviado por Pio Candido em 05/09/2017
Reeditado em 05/09/2017
Código do texto: T6105446
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Pio Candido
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 49 anos
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Pio Candido