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Conto de Natal

ra uma vez um reino muito distante, onde viviam dois meninos, o menino rico e o menino pobre, que nunca se tinham encontrado, porque o menino rico nunca saía do seu castelo, os pais tinham medo que lhe pudesse acontecer algum mal.
Um dia, o menino pobre foi com o seu pai que trabalhava no castelo, ele sempre sonhara poder entrar lá, imaginava tudo muito bonito, seu pai contara-lhe que havia lindos jardins, e que vivia lá um menino, mais ou menos da mesma idade que ele.
Agora ia poder concretizar o seu sonho, entrar no castelo, talvez até pudesse brincar com o menino rico, apreciar toda a beleza de que seu pai tanto lhe falara, mas, curiosamente, seu pai nunca lhe falara muito do tal menino rico, por isso perguntou-lhe:
- Pai, como se chama o menino que vive no castelo?
- Não sei meu filho, o pai sabe que vive lá um menino da tua idade, mas nunca o vi.
- Nunca o viste! Porquê? Ele não brinca na rua?
- Não meu filho, os pais do menino têm medo que lhe possa acontecer alguma coisa e por isso não deixam brincar na rua.
- Ele não vai à escola?
- Não, ele tem professores em casa.
- Então não vou poder brincar com ele.
- Não meu filho, vais ter de brincar sozinho, mas deixa lá que tens muito que ver, não te vais aborrecer.
- Tudo bem, mas gostava de conhecer esse menino.
Continuaram a caminhar até ao castelo, atravessaram a velha ponte levadiça, há muito que não se movia, e acercaram-se do portão, enorme, que dava acesso ao interior do castelo.
David, assim se chamava o menino pobre, ficou deslumbrado com o tamanho do portão, nunca poderia imaginar que era tão grande, já sabia que era grande, mas tanto é que não, seu pai aproximou-se do mesmo e deu duas fortes pancadas com o cabo da enxada, pancadas essas que ecoaram por todo o vale, o portão abriu-se alguns momentos depois, entraram e David não queria acreditar em tanta beleza.
Existia uma rua central, toda coberta de flores, dos dois lados, nem parecia que estávamos em Dezembro, nunca vira anta flor junta, descortinou algumas portas e no fundo da rua um grande largo, imaginou-o cheio de flores, mas quando lá chegou o seu espanto foi ainda maior, não eram só as flores, eram fontes, pássaros que chilreavam e recantos plenos de encanto.
Estava, ainda, a admirar tudo quando ouviu uma voz feminina nas suas costas:
- Então Joaquim, este é que é o teu filho?
Virou-se e viu uma mulher muito bonita, nunca vira uns cabelos tão brilhantes, pareciam autênticos fios e ouro, viu também seu pai tirar  chapéu, curvar-se e responder:
- É sim, minha senhora.
- Muito bem, vou levá-lo para brincar com o menino Tiago. Queres vir?
David nem queria acreditar, afinal ia conhecer Tiago, mais, ia poder brincar com ele, nem conseguiu responder, viu a senhora rodar obre si mesma e começar a caminhar, olhou para seu pai, que lhe fazia sinais para que seguisse a senhora. Assim o fez.
Entrou em casa e ficou de boca aberta com tudo o que via, não sabia para onde olhar, lindos quadros nas paredes, belos tapetes no chão, bons moveis cobertos de castiçais, ah como a sua mãe ia adorar, ela tinha uma paixão por castiçais. Estava neste seu encantamento quando ouviu chamar:
- Menino Tiago, venha cá por favor.
Ficou admirado com a forma como a mãe tratava Tiago ou se calhar não era mãe dele, viu então aproximar-se o menino rico.
-Tiago, meu filho, este é o filho do Joaquim, convidei-o para brincar com o menino. Quer?
- Sim, senhora minha mãe, é bom ter alguém novo com quem brincar, ainda por cima um menino, só tenho primas e não gosto muito das brincadeiras delas.
- Muito bem, podem ir.
Os garotos retiraram-se em direcção ao quarto destinado ao lazer do jovem, Tiago foi o primeiro a falar:
- O meu nome é Tiago. Tu, como te chamas?
- David, o meu nome é David, menino Tiago.
David procurava tratar o jovem da mesma forma que ouvira a senhora chamá-lo.
- Deixa lá o menino. Trata-me por Tiago.
Ficaram a brincar e foi quando se estavam quase a separar que Tiago disse:
- Queres voltar amanhã? Ia adorar.
- Bem, eu também ia adorar, mas tenho de ir com a minha mãe á vila, ela vai fazer as compras de Natal e precisa da minha ajuda.
- Compras de Natal! Para quê?
- Tu não sabes o que são as compras de Natal?
- Não, tens de me contar tudo.
- Fica prometido, amanhã não venho, mas no outro dia volto cá e conto-te tudo.
- Combinado.
Tiago comunicou à mãe o acordo que fizera com David, sem no entanto lhe explicar o motivo porque fazia tanta questão que o amigo voltasse lá a casa, a mãe interpretou que tal desejo se devia ao facto de ser o primeiro menino com quem Tiago brincava, sempre convivera só com meninas.
David, por seu lado, contou ao pai a promessa que fizera ao novo amigo:
- Então quer dizer que gostaste.
- Bem, gostar, gostei de conhecer o Tiago, de ver o castelo. Já entraste lá em casa?
- Nunca. Tu és um felizardo, logo no primeiro dia fizeste amizade com o menino e entraste na casa, olha que há homens que trabalham uma vida inteira no castelo e nunca entram na casa dos senhores.
- Pai. Eu quando for grande, não quero viver num castelo.
-Porquê, meu filho?
- Porque eu achei o Tiago triste, ele nem sabe o que são as compras de Natal, eu quero que os meus filhos sejam felizes como eu sou.
Agarrou-se à cintura do pai e este afagou-lhe os cabelos, não encontrou palavras para responder ao filho.
No da combinado, David  dirigiu-se ao castelo, transportava um misto de sentimentos, se por um lado ia feliz por reencontrar Tiago, por outro lado ia triste por sentir que aquele mundo não era o seu e que não tinha nada a ver consigo, era demasiado triste.
Mal cruzou o portão avistou Tiago que, de imediato, correu na sua direcção, até sua mãe estava admirada com a súbita mudança do jovem, ele sempre se recusara a vir brincar para a rua, preferia ficar no quarto de brincar e agora não parara de perguntar por David, fazendo questão de o vir esperar à rua.
Os jovens abraçaram-se e foi abraçados que entraram em casa, a senhora olhou para Joaquim e disse-lhe:
- Obrigado Joaquim.
Este não compreendeu, encolheu os ombros e encaminhou-se para o seu trabalho.
- Então, compraste muitas coisas?
- Eu não, mas a minha mãe sim, comprou brinquedos para os meus primos todos, para a minha irmã e também deve ter comprado para mim, mas não consegui descobrir o que foi, comprou umas meias de linha para o meu pai.
- Desculpa, mas para que são todas essas compras?
- Tiago, tu não costumas festejar o Natal?
- Sim, vêm cá uns amigos dos meus pais mais os meus tios, tias e primas, jantar, riem-se muito, passam a noite a comer e no dia seguinte dão-nos umas prendas.
- Deve ser cá uma chatice, o Natal é para as crianças e afinal os adultos é que se divertem, em minha casa é diferente.
- Diferente como?
- Então, a minha mãe e as minhas tias fazem um jantar melhorado, comemos, sentamo-nos à lareira e os grandes contam-nos histórias, depois, à meia-noite, o meu pai veste-se de pai natal e distribui os presentes.
- Que presentes costumas receber? São assim como os meus?
- Como os teus? Não, os meus pais são pobres, não podem comprar presentes caros. Recebo uns carros de plástico ou de chapa, uns chocolates, umas roupas, enfim coisas que fazem falta.
- Não percebo.
- Não percebes o quê?
- Como é que tu podes dizer que é uma grande festa, receber uns carritos de plástico, eu recebo brinquedos quase todos os dias e não acho nada de especial.
- O problema é esse mesmo, se tu não recebesses tantos brinquedos durante o ano inteiro, davas mais valor ao Natal.
- Achas?
- Tenho a certeza, se tu soubesses quantos meninos como nós, nunca brincaram com brinquedos como os teus. Cada um destes teus brinquedos daria felicidade a um outro menino.
- Sério?
- Sim, mas é a vida, o meu pai costuma dizer que temos de viver com o que temos.
- David, tu gostas muito do teu pai, não gostas?
- Adoro-o, tal como adoro a minha mãe, a minha irmã e toda a minha família.
- Posso contar-te uma coisa?
- Claro que sim.
- Eu não sei o que é ter uma família, eles dão-me tudo e não me dão nada.
- Oh amigo, isso não deve ser bem assim.
-É sim, mas estou com uma ideia.
Ao mesmo tempo que proferia estas ultimas palavras, Tiago, levantou-se e dirigiu-se para fora do quarto, regressando pouco depois acompanhado pela mãe, vinham de mãos dadas:
- Então diga lá o que quer, meu filho.
- Mãe, eu quero ir ver as compras de Natal, e quero que o David vá comigo.
A senhora ficou abismada, então o filho que sempre se recusara acompanhá-la até ao povoado propunha-lhe ir ás compras, acedeu de imediato.
Mandou prepara o carro, foi mudar de roupa, mandou a empregada avisar Joaquim e saiu para a rua, estranhou não ver ao garotos, chamou-os:
- Sim mãe.
- Vamos filho, o carro está à espera.
- Não mãe, eu quero ir a pé, tal como o David veio com o pai, quero correr todas as ruas da vila, quero entrar em todas as lojas, quero viver o espírito de Natal que o meu amigo me contou.
- Mas, filho, assim não poderá trazer o que comprar. Deixe ir o carro levar-nos, ele depois espera para trazer as compras.
- Não, senhora minha mãe, eu não falei em comprar nada, falei em ir ver, quero ver o que compram as mães dos outros meninos, para depois poder escrever a minha carta ao Pai Natal.
Tiago estava tão entusiasmado que sua mãe nem ousou contrariá-lo, pediu que esperassem um pouco, foi vestir uma roupa mais prática e prontificou-se a fazer a vontade ao filho, nunca o vira tão feliz.
Puseram-se a caminho, os garotos corriam, saltavam, exalavam felicidade. Tiago estava a aprender a viver em liberdade e David descobria um novo amigo.
Percorreram todas as ruas e ruelas, entraram num numero incontável de lojas, viram brinquedos sem conta, e nem uma única vez demonstraram o mínimo cansaço.
A noite começava a cair quando decidiram encetar a viagem de regresso.
- Mãe, já sei o que quero neste Natal.
- Sim, meu filho, posso saber o que é?
- Pode sim, senhora minha mãe, quero um fato de Pai Natal.
- Um fato de Pai Natal!!
A mãe estava perplexa, não lhe pedia brinquedos caros, nem roupas de qualidade, só um fato de Pai Natal.
- Posso saber o que pensa fazer com o fato de Pai Natal?
- Pode sim, senhora minha mãe, na noite de Natal quero vestir-me de Pai Natal, encher o carro com os meus brinquedos e ir distribui-los pelos meninos da vila.
- Mas meu filho, na noite de Natal, os tios vão lá jantar a casa.
- Pois que fiquem os adultos e as minhas primas a jantar, eu irei com o Sr. Alberto.
O Sr. Alberto é o motorista da família.
A mãe ainda tentou demover o filho:
- Mãe, se me quer ver feliz não me tente impedir de fazer o que quero, este ano quero viver o Natal, o David irá comigo. Não vais?
David sentiu vontade de dizer não, custava-lhe pensar que não poderia passar o Natal como era costume, mas não queria desiludir o amigo e, muito menos, ser o culpado por os outros meninos não receberem todos aqueles brinquedos.
Os dias foram-se passando e os garotos, tanto Tiago como David, andavam algo intrigados com o que iam vendo, Joaquim e a mulher foram chamados ao castelo e a senhora não dava instruções ás empregadas como costumava dar noutros Natais, não se notava a azáfama própria da quadra, ao mesmo tempo que em casa de David se vivia um ambiente da calma pouco comum para a época. Os jovens comentaram o assunto entre si e Tiago resolveu ir perguntar à mãe:
- Senhora minha mãe.
- Sim.
- A senhora pode contar-me o que é que se passa?
- O que se passa? Como assim?
- Senhora minha mãe, nos outros Natais, por esta altura já as empregadas andavam em grandes limpezas para o jantar de Natal, este ano, pelo contrário, não vejo nada disso e o David disse-me que em casa dele as coisas também estão diferentes.
- Isso é impressão vossa, não há nada de especial.
Finalmente chegou o dia da consoada, David já se tinha convencido de que este Natal seria diferente, e ficou ainda mais convencido disso quando viu aproximar-se a noite e a família não aparecer, ficou desconfiado.
 - David, vem cá.
- Sim mãe, diga.
- Vai vestir a roupa que está em cima da tua cama.
David ficou completamente baralhado, dirigiu-se ao seu quarto e ficou de boca aberta, sobre a sua cama estavam a camisa e as calças mais bonitas que alguma vez vira, vestiu-as e só então reparou nos sapatos, nunca tivera uns tão bons e bonitos. Saiu do quarto e viu que também o pai, a mãe e a irmã vestiam roupas novas.
- Pai, mãe, podem explicar-me o que se passa, eu há muito tempo que sinto algo diferente, mas agora estou confuso.
- Muito bem meu filho, tu e o teu amigo Tiago fizeram um milagre.
- Como assim?
- Tu conseguiste transformar o Tiago num menino muito feliz, mostraste-lhe a vida do povo e ele resolveu contribuir para a felicidade dos meninos da vila, mas os pais deles não quiseram deixar de agradecer a mudança do filho, resolveram alegrar o Natal das gentes, vão abrir as portas do castelo e oferecer uma ceia de Natal para todo o povo e oferecer brinquedos e roupas aos meninos, o Tiago e tu farão de Pai Natal. Percebes agora?
Sim, agora tudo fazia sentido na sua cabecita, os senhores tinham chamado os seus pais para que eles tratassem de todos os pormenores. Sentia pressa de chegar ao castelo e poder apreciar tudo o que se estava a passar, não queria perder nada.
Dirigiram-se para o castelo e à medida que caminhavam viam juntar-se-lhes mais e mais gente, ninguém queria perder tão significativo momento, David ia radiante, dava-lhe prazer ver a cara de felicidade de toda aquela gente, depressa avistou a enorme porta de entrada, completamente aberta.
A ceia de jantar decorreu num ambiente de festa, havia comida que chegava, e sobrava, para toda a gente, todos participavam nas tarefas, ninguém se furtava ao trabalho, afinal aquela era uma gente habituada ao trabalho duro e árduo.
O relógio da torre da igreja do castelo batia as vinte e quatro badaladas quando todas as cabeças se viraram para o enorme estrado que se encontrava instalado no amplo jardim, ali acabavam de aparecer um Pai Natal, era Tiago,  ouviram-se aplausos, vivia-se felicidade, o menino não cabia em si de feliz, sentou-se no trono existente no palco, agora sim, sentia-se rei, rei da felicidade, então acenou e logo um segundo Pai Natal deu entrada no lado oposto do jardim, trazia um enorme saco ás costas, era David.
Tiago acabou de oferecer o ultimo presente, era o seu ultimo brinquedo, sentiu uma alegria enorme no seu coração, sentou-se outra vez e sentiu o braço do seu grande amigo David a apoiar-se no seu ombro, girou a cara, sorriu-lhe e fez um sinal com a mão, chamava os seus pais para junto de si.
- Queria pedir a vossa atenção para aquilo que o meu filho tem para vos dizer.
- Obrigado meu pai. Mas prefiro que seja a senhora minha mãe a falar.
-Bem, o que nós vos queremos dizer é que durante anos vivemos aqui fechados, eu, o meu marido, o meu filho e alguns empregados, de costas viradas para o povo, vivíamos cobertos pela grande tristeza provocada pelo desinteresse do menino Tiago pela vida, neste Natal deu-se um milagre, milagre esse que foi obra de uma criança, e como gratidão pelo que essa criança fez com o nosso filho, queremos dizer-vos que nunca mais aquele portão se fechará e que de hoje em diante as noites de consoada serão passadas aqui, no interior das muralhas do castelo, afinal este é um castelo do Povo.
David abraçou o amigo, chorava de felicidade, então aquele portão, que se mantivera fechado durante tantos anos, abria-se ao povo e tudo graças a si, ao seu amigo e, sobretudo desse espírito mágico que se chama “ O espírito de Natal”.

Nunca mais os meninos daquele reino deixaram de ouvir contar a história dos dois meninos que tinham transformado o Natal.


FrancisFerreira
FrancisFerreira
Enviado por FrancisFerreira em 22/11/2007
Reeditado em 20/01/2008
Código do texto: T748199

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Sobre o autor
FrancisFerreira
Portugal, 59 anos
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